18 julho 2013

Com Tocqueville, no túnel do tempo


Estive refletindo sobre o conceito de vida comunitária. Andei lendo alguns textos dedicados ao assunto e pesquisando experiências bem-sucedidas ao redor do planeta.

Concluí que a ideia de comunidade requer três ingredientes fundamentais: espíritos altruístas, projetos múltiplos de curto, médio e longo prazos, encontros indulgentes entre as pessoas. Um quarto ingrediente é vital: zelo pelas regras assumidas após amplo, plural e legítimo debate.

Em seu mais importante livro, “A democracia na América”, Alexis de Tocqueville (1805 - 1859) relata, encantado, algumas histórias que vivenciou em sua viagem pelos Estados Unidos da América, na primeira metade do século XIX.

Ele, um liberal sempre desconfiado do desejo sedento por igualdade – algo que, no limite, prejudica a liberdade de cada um -, percebeu que o progresso no norte do Novo Mundo devia à união das pessoas seus maiores êxitos. Nas pequenas cidades, apontou Tocqueville, todos se importavam com a situação do comércio, a conservação de ruas e praças, a saúde dos indivíduos, a educação das crianças, o bem-estar das famílias etc. Nada acontecia sem o aval das assembleias compostas por membros das igrejas, do governo local, dos sujeitos de negócios, dos cidadãos comuns mais interessados.

O futuro da América, segundo Tocqueville, iria inspirar as terras de todo o mundo. Nas nações em que esses ingredientes rendessem boas comunidades, lá estariam grandes democracias. Vale ressaltar: o único desafio dessas experiências seria impedir que o gigantismo necessário ao bem-estar de todos sufocasse os sonhos e a realidade dos indivíduos, cuja liberdade é o maior bem.

Pedindo a honrosa companhia de Tocqueville, voltei ao meu tempo e ao meu país. Entre nós, brasileiros e cidadãos do século XXI, o espírito altruísta, o zelo pela ordem e a tolerância respeitosa ainda estão por vir. Condena-nos uma prática que cobra dos outros, vigiando-os dia e noite, mas nos absolve de tudo, livrando-nos, inclusive, da responsabilidade pela vida comunitária, berço da felicidade de cada um e da verdadeira prosperidade de todos.

O presente que pretende ser um bom futuro terá de conhecer um pouco mais a democracia que fascinou o velho Tocqueville – uma trajetória em torno do bem comum que, espero, não tenha morrido no passado.