06 julho 2013

Desconcertante


Rivelino, com a camisa do Fluminense: sempre desconcertante

A palavra que mais me atrai na nossa língua é desconcertante. Ela me coloca diante de muitas sensações – de infinitas maneiras, ela serve a poesias e revoluções, contos eróticos e romances típicos da era vitoriana.

Desconcertante é a beleza que tira o ar e invade suavemente os labirintos da imaginação amorosa. É igualmente desconcertante o olhar que perfura um momento, inusitado, feito um raio – depois dele, nada mais pode existir como antes.

Desconcerta qualquer um a música certa, no lugar certo, no instante certo. Aliás, é do certo o desconcerto. A palavra parece falar daquilo que será quebrado, que não mais irá funcionar corretamente. No entanto, o desconcertante põe tudo nos trilhos, até o que se julgava não ser, não poder, não nascer.

Os trilhos, contudo, quando inibem a criatividade, bloqueiam a felicidade ou perturbam os humanos limites da paixão, são desconcertados pelo novo, pelo que vamos buscar nas fronteiras de nosso inadiável sonho de plenitude. Numa palavra, só é verdadeiramente humano o que pode ser desconcertante.

É inabalável e desconcertante uma caminhada ao lado da ansiada companhia; só pode desconcertar a presença de alguém que provoca sorrisos e atiça fantasias fabulosas. O fabuloso, ápice dos desejos, é desconcertante sempre.

Desconcerta um livro decisivo; desconcerta um filme que instiga turbilhões em nossos sentimentos; é absolutamente desconcertante decolar para a viagem de uma vida, para o destino de um futuro novo, radicalmente perseguido, lutado, suado.

A palavra desconcertante me seduz porque ela é a única da língua portuguesa que tem os cinco sentidos e alguns outros, os quais se revelam à medida que a vida desconcerta os dias e prova que, no fim de tudo, um acontecimento desconcertante aguarda os que aprendem de verdade a sonhar.