04 julho 2013

O dicionário do meu pai


A imagem mais forte que tenho dos tempos de faculdade é a do dicionário que ganhei do meu pai no primeiro dia de aula. Era um dicionário enorme, bonitão, que me acompanhou pelos longos e deliciosos anos de aprendizado na graduação acadêmica. Naquela época, primeira metade da década de noventa, não havia googles nem quaisquer facilidades virtuais. Havia um único jeito de estudar: ler os inúmeros textos e livros, rabiscá-los (se não fossem emprestados, é claro), resumi-los e, de minuto em minuto, recorrer ao dicionário para decifrar palavras e expressões que até então eram completamente estranhas.

Uma equivocada máxima popular definiu o dicionário como “pai dos burros”. Discordo totalmente. Burro (na falta de uma palavra com mais glamour) é quem não consulta o dicionário e vive nas trevas, década depois de década usando as mesmas poucas palavras e desconhecendo a vastidão da língua, os infinitos das letras.

Eu não seria capaz de dizer quantas vezes abri aquele dicionário que ganhei do meu pai para iluminar uma palavra ou mesmo passar horas lendo, aleatoriamente, seus milhares de páginas.

No convívio de tantos anos com aquele velho e gigante dicionário, aumentei meu vocabulário, descobri coisas fantásticas e curiosas. Acima de tudo, passei a amar a palavra escrita, ensaiar suas formas, fazer divisões silábicas, pronunciar o som de cada letra, imaginar uma história só de palavras para cada movimento que eu observava ao meu redor.

Hoje outro dicionário está sobre a minha mesa. Um exemplar mais moderno e ainda mais completo. O velho presente do meu pai, que conservei com carinho e fino olhar de cuidado, está numa biblioteca da periferia, a serviço dos filhos de tantos trabalhadores. Ele está num lugar que agradaria muito ao meu pai.

Mesmo com os dicionários eletrônicos para computadores, telefones celulares e tablets, que facilitam a consulta e dispõem de ferramentas de pesquisa fabulosas, não abro mão de ler e escrever em companhia do dicionário de papel, aquele amigo incondicional que ocupa metade da minha mesa de estudos.

Presente de pai é mais do que um agrado ou uma obrigação. É uma dádiva. Devo ao meu pai, um operário de poucas letras, meu amor pela palavra. Coisas da vida. Coisas de amor de pai.