31 agosto 2013

Escriba de aluguel


Dias atrás reli “Budapeste”, romance de Chico Buarque de Holanda. Depois de alegremente devorar o livro, assisti mais uma vez ao filme homônimo inspirado nele e dirigido por Walter Carvalho.

A história narra o drama de um amargurado escritor fantasma, um indivíduo que escreve para o sucesso comercial de gente sem talento e tristemente idolatrada por desavisadas legiões de consumidores. Ao ver os livros que escreveu mas não assinou nas prateleiras dos mais vendidos, o protagonista da trama de Chico Buarque vai da indiferença à culpa, da satisfação enganosa ao desespero de ser um mero “escriba de aluguel”.

Escribas de aluguel são sujeitos que têm algum talento e o vendem aos que não têm valor nem vergonha. Tanto o escriba quanto o comprador das palavras valem pouco, mentem muito, distorcem fatos e iludem os deslumbrados. Trata-se de um nítido e melancólico caso de talento a serviço do que pode haver de pior: a farsa, que, segundo o velho Marx, nada mais é do que uma tragédia que se repete.

O escriba de aluguel, quase sempre uma caricatura imperfeita de gurus falastrões e fanfarrões, escreve para jornais, revistas e páginas da Internet. Muitas vezes é o responsável por locuções no rádio e na TV. De vez em quando, transforma-se até em personagem literário ou cinematográfico.

Em geral, esse vendilhão da palavra mistura números e verbos para incitar os outros à ação. Os números, via de regra, são fictícios, e os verbos, artificiais. O movimento que decorre de seus textos é o mesmo que faz proliferarem inverdades e pouca solidariedade entre as pessoas. O coração do escriba de aluguel é frio – mesmo que fale em Deus (e isso ele costuma fazer bastante para dar algum tom de emoção ao seu palavrório oco), é incapaz de sentir a iluminação divina, posto que está irremediavelmente contaminado pela obsessão de enxergar somente aquilo que é bem remunerado para ver e defender.

O escriba de aluguel tem preferência por combater aqueles que sonham e não desistem de lutar por novas versões da Ilha Utopia, essa terra de ímpetos tão humanos, justiceiros e generosos. O escriba de aluguel só tem gosto pela quantidade: pela própria natureza de sua pouco ética função no mundo, não pode conhecer qualidades, a não ser as más.

De peito vazio e alma emprestada mediante contrapartida de cifras generosas, o escriba de aluguel dirá que não existe como tal, que são mentiras as histórias que contam a seu respeito... Negar-se, aliás, é o que ele mais faz com invejável fé e impressionante habilidade.

20 agosto 2013

O céu estrelado sobre mim


Reza a lenda que Immanuel Kant, um dos maiores filósofos da modernidade, em seu derradeiro momento de vida, assegurou ter vivido da forma correta. Por essa razão, iria partir em paz, com duas grandes convicções inabaláveis: a de que viveu sob o céu estrelado e a de que teve nas ideias e no coração a presença constante do dever moral.

Eu sempre convoco Kant para justificar a mim mesmo meu apreço pela pontualidade, pela verdade, pela ação coerente com minhas ideias e pensamentos. Digo sempre que o importante é fazer a coisa certa, independentemente do que digam pelo mundo e do que façam por aí.

Considero no mínimo deselegante todo atraso. Horários combinados não se respeitam; contratos de tempo não se cumprem; o uso preciso das horas não se realiza. O atraso constante e reincidente, de inoportuno, passa a inconcebível e injustificável, uma vez que revela despreocupação, falta de interesse e pouco caráter.

No fundo, percebo que a falta de valoração no tempo certo alimenta a pouca paixão que muitos demonstram por aquilo que fazem. Não gostam da escola, detestam o trabalho, sonham em estar noutros lugares, ao lado de outras pessoas. Todos esses sentimentos e desejos endossam a indiferença e abolem de vez qualquer compromisso com o dever moral, com o “fazer a coisa certa”. Por não saberem o que é certo (ou, pelo menos, o ignorarem), não são capazes de pressentir o céu estrelado sobre suas cabeças, as quais nem mais esperança conseguem nutrir.

A fraqueza, o tédio, a negligência se transformaram em questão de ordem. Vejo jovens de menos de vinte anos compartilharem que se sentem entediados numa bela e ensolarada tarde de domingo. Vejo-os também lamentarem a segunda-feira, porque não estão motivados, e a sexta-feira, porque estão cansados e desanimados.

Flagro-me triste quando suspeito de que, num futuro não muito distante, poucos poderão fazer um balanço tão positivo da vida como o fez o velho Kant. Estou convencido de que a felicidade requer o dever moral no peito e, acima de tudo, o céu estrelado não apenas no alto, mas, principalmente, a iluminar de pertinho os labirintos da vida, da condição humana.

15 agosto 2013

Horizonte


Suzanne e Ida, com a atenção dedicada ao horizonte, em fotografia de Pablo Saborido, para a Revista Trip.

No horizonte está tudo aquilo que ainda não é realidade. Difícil saber se um dia será. Ninguém está habilitado para dizer o que exatamente há no horizonte nem quem serão os privilegiados por alcançá-lo.

O horizonte é desejo e mistério. E é isso que o torna tão sonhado, o destino exclusivo de todas as bússolas.

As melhores ideias estão no horizonte. Aquelas que criam, aquelas que solucionam, aquelas que apaziguam, curam, aproximas as pessoas da verdade. Religiosos, cientistas, bons políticos, gente de bem, todo mundo deposita o olhar e a esperança na reta e ao mesmo tempo sinuosa linha do horizonte.

Aos sonhos, dizem, estão reservados nossos melhores momentos. As festas, as férias, os fins de semana, o desejado momento no balançar da rede ou numa cadeira de descanso: é nessas horas que alimentamos a imaginação. Mas vale nunca esquecer que, independentemente do tamanho, do estilo, da profundidade ou da importância, os sonhos residem no horizonte, estão à frente, vivem no amanhã.

O sol, o mar, o campo verde forrado das cores múltiplas das flores vivem e repousam também no horizonte. No fim de tudo que nos consome – as horas, os dias, os anos inteiros -, brilha o horizonte. Há horizontes claros e escuros (uns são transparentes, previsíveis e esperados; outros, neblina, trevas por vezes). De uma coisa, contudo, todos sabemos: a vida seria insuportável e até inviável se não soubéssemos desenhar horizontes.

Muitas paisagens habitam nossas ideias. E, se são ideias, estão lá, no horizonte. A cidade da viagem perfeita, a praia da paixão definitiva, a final de campeonato almejada com o time do coração, o beijo mágico do despertar de tudo. Sejamos sinceros: o que de valioso neste mundo não está ou um tempo esteve no horizonte?

O horizonte como motor do pensar ensina a firmar passos, rever planos, costurar expectativas. A imagem permanente do horizonte é a nítida constatação de que nós, humanos, somos porvir. O que seremos, aliás, é a razão de ser de nosso estreito e indissociável laço afetivo com o horizonte.

02 agosto 2013

A loba se latiniza


Em Moray, Alpes Peruanos, no coração do Vale Sagrado dos Incas, uma enorme área de cultivos experimentais, ideia símbolo das grandes transformações na vida.

Depois do casamento no palácio em Copenhague, andei um pouco pelas belas ruas da cidade. À noite tudo é mais bonito no Velho Mundo. 

Incontáveis cafés me convidavam a cada passo; artistas noctívagos encenavam seu olhar em público, agraciando-me com histórias inéditas de vida. Parei, então, para um café num acolhedor pier - de frente para mim, a lendária sereia da baía dinamarquesa.

Àquela hora da noite, um ensaio pela madrugada, a loba já viajara para muito longe. As colunas sociais falavam em lua de mel em grande estilo pela América Latina, uma viagem pelo universo andino de tantas lutas populares e pelo mar caribenho de incomparáveis sóis. A loba, enfim, se encontraria com sua ancestralidade ferina, cujo poder de sedução invencível havia roubado meu coração, anos atrás.

De charuto cubano e café colombiano como companhia numa noite fria, numa Escandinávia cosmopolita e iluminada, eu não sabia como conter tanta tristeza: a loba latina perdia-se nos braços e amores de outro homem, nada latino, nada merecedor daquela que para sempre será uma das melhores mulheres do mundo.

01 agosto 2013

Francisco, o carismático



Em visita ao Brasil, para participar da XVIII Jornada Mundial da Juventude (JMJ), de 23 a 28 de julho de 2013, o Papa Francisco deu bonitas lições de humildade e transmitiu importantes palavras de compaixão e solidariedade.

O Brasil é certamente o maior país de maioria católica do mundo. Algo em torno de sessenta a setenta por cento dos brasileiros se declaram seguidores do catolicismo. Só isso já tornaria a visita do Papa um evento de destaque. Mas, me parece, existem outros motivos.

Nos últimos anos, numa realidade contaminada pela ampliação de tristes manifestações de fanatismo religioso - fenômeno que vem invadindo a mídia, a educação e a política do país -, os ensinamentos franciscanos do novo líder da Igreja católica vêm muito a calhar. Numa época em que fé e dinheiro resolveram se dar mãos e mentes, é muito bom ouvir falar em humildade e prazeres do espírito. Francisco, o Papa, falou de simplicidade e a praticou; discursou contra a ostentação e na prática a rejeitou.

O Francisco que andou pelas ruas do Rio de Janeiro e rezou com igual talento e inquestionável dom na Basílica de Aparecida do Norte e a nas areias de Copacabana lembrou os padres sonhadores do interior do Brasil e fez da palavra de amor o símbolo de sua caminhada religiosa.

Contra a crítica fácil e a demagogia oportunista, não podemos esquecer que, além de líder religioso, Francisco é chefe de estado. Uma visita dessa natureza desperta atenção, curiosidade e exige aplicação pública de recursos materiais e humanos. Cabe, então, refletir: será que as sementes deixadas pela visita de um sujeito tão carismático e atraente como ser humano não valem tamanho investimento? Num país acostumado a torrar dinheiro em bobagens e tramoias, minha resposta é "SIM".

Com poucos meses à frente da Santa Sé, Francisco tem dado prova de seu viés reformador. Está aos poucos alterando estruturas de poder que permaneceram intocadas por décadas. Sem exageros, Francisco é um Papa só comparável a João XXIII, um homem que foi mais do que um santo.

Há muito o que contestar e mais ainda a condenar na postura da Igreja Católica em toda a sua história. Não há dúvida disso. Mas existe a boa hora para tudo. No momento, acredito que Francisco, em sua oportuna passagem pelo Brasil, tenha nos conduzido pelo urgente instante da reflexão e do amor.