20 agosto 2013

O céu estrelado sobre mim


Reza a lenda que Immanuel Kant, um dos maiores filósofos da modernidade, em seu derradeiro momento de vida, assegurou ter vivido da forma correta. Por essa razão, iria partir em paz, com duas grandes convicções inabaláveis: a de que viveu sob o céu estrelado e a de que teve nas ideias e no coração a presença constante do dever moral.

Eu sempre convoco Kant para justificar a mim mesmo meu apreço pela pontualidade, pela verdade, pela ação coerente com minhas ideias e pensamentos. Digo sempre que o importante é fazer a coisa certa, independentemente do que digam pelo mundo e do que façam por aí.

Considero no mínimo deselegante todo atraso. Horários combinados não se respeitam; contratos de tempo não se cumprem; o uso preciso das horas não se realiza. O atraso constante e reincidente, de inoportuno, passa a inconcebível e injustificável, uma vez que revela despreocupação, falta de interesse e pouco caráter.

No fundo, percebo que a falta de valoração no tempo certo alimenta a pouca paixão que muitos demonstram por aquilo que fazem. Não gostam da escola, detestam o trabalho, sonham em estar noutros lugares, ao lado de outras pessoas. Todos esses sentimentos e desejos endossam a indiferença e abolem de vez qualquer compromisso com o dever moral, com o “fazer a coisa certa”. Por não saberem o que é certo (ou, pelo menos, o ignorarem), não são capazes de pressentir o céu estrelado sobre suas cabeças, as quais nem mais esperança conseguem nutrir.

A fraqueza, o tédio, a negligência se transformaram em questão de ordem. Vejo jovens de menos de vinte anos compartilharem que se sentem entediados numa bela e ensolarada tarde de domingo. Vejo-os também lamentarem a segunda-feira, porque não estão motivados, e a sexta-feira, porque estão cansados e desanimados.

Flagro-me triste quando suspeito de que, num futuro não muito distante, poucos poderão fazer um balanço tão positivo da vida como o fez o velho Kant. Estou convencido de que a felicidade requer o dever moral no peito e, acima de tudo, o céu estrelado não apenas no alto, mas, principalmente, a iluminar de pertinho os labirintos da vida, da condição humana.