20 setembro 2013

Dúvida


Faz tempo que deixei de lado o desejo de encontrar resposta para tudo. Além de ser ilusório, esse ardor camufla o que realmente é essencial na vida, quer dizer, a capacidade de elaborar perguntas para os desafios impostos pela realidade.

Quando indagamos o mundo e suas personagens em ação, manipulamos a mais nobre matéria-prima do conhecimento: a dúvida.

Graças à insistência da dúvida, desviamos o curso das certezas sempre prejudiciais à profundidade de uma análise. Aquele que não cultiva a dúvida não desenvolve filtros e acaba engolindo tudo. O sujeito movido por convicções e disposto a oferecer fórmulas e saídas para as encruzilhadas do tempo, descartando pontos de interrogação e reticências, é um eterno candidato aos contos de Dona Carochinha, aquela velha senhora extremamente hábil em capturar incautos.

A dúvida é uma poderosa ferramenta pedagógica. Ela nos ensina a estabelecer metas, prever armadilhas, reconhecer limites nas nossas chances de conhecer. Nesse sentido, a dúvida busca nos convencer de que é preciso dialogar com muitos saberes, da arte à ciência, da religião ao mundo prático das ideias cotidianas.

Não existem receitas que guardem verdades nem mapas do tesouro. A cada dúvida levada a sério resta uma única e renovada certeza: pouco sabemos, muito há para descobrir, quase nada será revelado no curto tempo de nossas tão breves vidas.

Eu aprecio demais a dúvida quando me flagro depositando fé exagerada em episódios e protagonistas da história. A dúvida também me abraça quando estou prestes a colocar sob suspeita minhas convicções éticas, políticas e ideológicas mais preciosas. A boa dúvida, portanto, nos livra da empolgação diante do novo e do desânimo em face do antigo – ela nos mantém na fina corda bamba da coerência e da urgente autocrítica.

Semear dúvidas é habitar o jardim do futuro e passear pelos parques da tradição. A dúvida, quando cresce em meio às nossas mais caras reflexões, nos posiciona no tempo histórico, remetendo-nos dialeticamente ao passado de lutas e ao amanhã de utopias.

Diante da dúvida, o humano apenas se reconhece como tal, imperfeito e louco pela perfeição.