05 setembro 2013

Encantamento


A linda e inteligente atriz Alice Braga, em fotografia de Christian Gaul, a prova viva de que existe mesmo o vale das luzes dos encantados

Dizem que um sujeito encantado não vê nada, vive perdido em meio às suas ilusões. O encantamento, então, teria uma força mágica, uma poderosa capacidade de apagar todos os sinais deixados pela razão e pelo bom senso. Encantar-se, portanto, seria permitir-se trafegar pela estrada do delírio, do bem absoluto, do sonho que nunca foi sonho, só a mais pura realidade.

O encanto tem outras formas, porém. Aquele que se encanta é movido a energias que andam raras no mundo. Não existe preguiça, barreira física ou discurso que desencoraje um sujeito encantado. O amor só é belo enquanto duram encantos no coração. Ao se mover por amor, o ser humano vivem encantado. Nada pode haver de ruim nisso.

A sensibilidade, um valor que somente o aprendizado pelas artes proporciona, necessita do êxtase dos encantados. Os sentidos que (se) encantam produzem beleza, sentimento e esperança.

A linda tela, a boa canção, o verso perfeito, a frase plena, a dança divina e o balé das estrelas, tudo gera tantos encantos. Ora, não dá para negar que o indivíduo encantado anda mesmo às turras com os dissabores da realidade. O mundo e o coração encantado não se dão nada bem, não combinam. Mas como imaginar um mundo melhor sem animar aqueles que o negam em suas amarguras mais profundas e injustas? Como, hein?

Há um quê de amor mundi no vale de luzes em que vivem os espíritos encantados. Lá não têm lugar as dores, os sofrimentos, a desesperança, a vontade de desistir. Por suas bandas, o fracasso está proibido – e só é parcialmente admitido o insucesso que promete abrir caminho para a glória.

Eu sou mesmo um sujeito antigo. Eu torço por heróis e acredito no bem prevalecendo sempre. Venho do vale das luzes onde aprendi com os encantados que nesta vida precisamos levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima a cada instante.