10 setembro 2013

Hiato


Um hiato é um intervalo que separa e dá vida independente a vogais – as letras ganham sonoridade altiva e uma existência singular.

Mas não são só vogais que conhecem o fenômeno do hiato. Para muito além da linguagem, hiatos existem em tudo e estão em toda parte.

Na política, por exemplo, entre um governo e outro, há o hiato da incerteza. A expectativa de como será o novo governante, quais serão as características da gestão, como se dará o relacionamento com a população, de que maneira serão conduzidas as políticas sociais e econômicas, se haverá radicalidade no enfrentamento dos problemas, tudo isso faz do hiato político um momento excepcional para a reflexão e o exercício da cidadania.

Hiatos, portanto, separam para que se possa valorizar mais a força da união. Ao ocorrerem dois momentos destacados pela ação temporal do hiato, entende-se bem melhor quanto são importantes o poder coletivo, a coesão das partes, a sinergia entre parcelas independentes. No limite, um hiato representa um incrível poder simbólico: ele demonstra sem contornos que indivíduos são seres sociais, que necessitam conhecer os intervalos e separações da vida para se coletivizarem com mais ânimo e destemor.

Existem e se disseminam pelo mundo os hiatos amorosos. Namoros interrompidos, paixões finitas, explosões de prazer que logo se dissipam são exemplos de hiatos que falam diretamente às emoções. Os sentimentos humanos, aliás, sempre em litígio com as observações excessivamente ponderadas da racionalidade, vivem hiatos que são pura tristeza, enorme reclusão. Mas é durante a vigência desses hiatos da perda e da decepção que resgatamos do exílio nossa história – os hiatos de amor perdido são essenciais para que a vida siga adiante (e com mais vigor, sensibilidade e inteligência).

Hiatos têm por hábito assustar porque provocam cisões e nos põem abertamente diante dos traumas da ruptura. Talvez por isso sejam vistos costumeiramente como uma experiência negativa e fortemente indesejada. É preciso, no entanto, recordar que do hiatos nascem ideias e a oportunidade de perceber evidências antes ignoradas ou reduzidas. Seja como for, os hiatos, além de inevitáveis nesta vida, falam alto como regentes da mudança e da luta por dias melhores. Para cada um e para todos.