16 setembro 2013

Meu centro


Uma expressão vem batendo insistentemente à minha porta: centro.

Nos meus anos de estudante na universidade, flertei com o budismo tibetano. Foi uma experiência riquíssima. A brava história do povo das montanhas asiáticas me aproximou demais da liberdade e suas exigências práticas e morais. 

À época – eu estava para adentrar a casa dos vinte anos de idade -, a palavra mais utilizada para deformar um debate ou simplificar uma crítica era “neoliberalismo”. As políticas mundiais de privatização e a disseminação dos ideários da era de Tatcher e Reagan desabaram sobre a reflexão das ciências sociais e multiplicaram jargões e lugares-comuns. Qualquer ideia que minimamente se descolasse da acusação geral contra o neoliberalismo, tornado então o mal do mundo, era sumariamente tachada de “neoliberal”. 

Eu, por defender o Tibete e recriminar o domínio chinês sobre seu território e sua religiosidade – além de declarar preferir Max Weber e Hannah Arendt a Karl Marx e Vladimir Lenin –, era muitas vezes insultado como neoliberal.

Os militantes oficiais da política estudantil, que liam pouco e gritavam muito, diziam que eu era, na melhor das hipóteses, a direita da esquerda, um social-democrata. Quando queriam encerrar um assunto e sair correndo, rindo e dando socos no ar, me sentenciavam como “liberal”. E ponto.

Recordo que, já no final da graduação, escrevi um artigo sobre Alexis de Tocqueville e resolvi apresentá-lo num evento oficial do curso, num auditório até que bem cheio. Durante e após a minha leitura tocqueviliana da liberdade e da democracia – que apontava alguns limites da crença na igualdade absoluta e a opção do pensador francês pela liberdade intersubjetiva e comunitária, livre de centralismos –, ninguém disse nem perguntou nada. Mas lembro que, no correr dos dias, um espectro rondou aquele pedaço do campus: o espectro de “estudantes liberais” que ousavam afrontar os “comunistas oficiais” e sua militância partidarizada – tudo que cheirasse a busca por equilíbrio, defesa das liberdades individuais ou apoio às conquistas históricas iluministas era algo que precisava ser combatido a qualquer custo...

Sem nunca ter sido, tornei-me, então, um burguês. Os mais exaltados afirmavam que eu era apenas “de direita”. E assunto encerrado.

Ao voltar no tempo e reencontrar esses episódios da minha vida, a expressão “centro” me revisitou. Nos últimos anos, tenho percebido que àquela esquerda debiloide eu jamais pertenci. Nunca fui fã dos soviéticos, dos chineses ou dos norte-coreanos, embora minha latinidade explícita se solidarize bastante com a ilha de Cuba (mas nunca com a pouca liberdade e a ausência democrática que por lá grassam). Nunca endossei também o conservadorismo barato daqueles que veem “ameaça vermelha” em tudo – acho ridículos os indivíduos que encontram demônios na luta dos que querem ser vistos, reconhecidos e respeitados. 

Se nem tanto ao mar, nem tanto à terra, penso que sou alguém entre a tradição liberal e a utopia socialista mais ecumenicamente humanista. Que nome se dá a isso? Liberalismo social? Socialismo liberal? Independência? Ora, seja o que for, é bem mais que a asfixiante mania de rotular comportamentos, valores e ideias, punindo-os com esquematismos forçados e extremamente arbitrários.

Não troco uma leitura dos “Dois tratados sobre o Governo Civil”, de John Locke, por nenhum manual de (a)fundamentos marxistas. Não deixo de lado minhas dezenas de releituras de “O Antigo Regime e a Revolução” ou “A Democracia na América”, de Tocqueville, para me entediar com textos impenetráveis de teoria social e crítica fácil contra “direitistas” ou “neoliberais”, escritos que, em geral, nascem da burocrática e fechada estrutura de produções acadêmicas erguida por compadres que vivem destilando seu horror ao mundo burguês.

Dizem que o centro político é o espaço gravitacional dos indecisos e oportunistas. Bom, minhas decisões são minha história: levo uma vida modesta, tranquila e assalariada; gosto do que faço e desenvolvo com seriedade minhas atividades; oriento-me pela ética kantiana do bem universal e não me rasgo na leviandade de eleger culpados óbvios ou aparentes pelo difícil mundo em que vivemos. Essa história pessoal, aliás, descarta qualquer lastro de oportunismo ou pragmatismo.

Tenho sido convencido a cada novo tempo de que o meio influencia, sim, os indivíduos. Impossível negar o poder das oportunidades permitidas ou proibidas socialmente. No entanto, estou convencido de que a subjetividade é o caminho para a liberdade. Ninguém pode ser responsável pela felicidade ou pelo martírio d’alma de outro alguém. Há escolhas, ainda que limitadas ou radicais, sempre – e a mesma sociedade que limita e influencia tendenciosamente para um lado, possui milhares de brechas e alternativas para outros muitos lados. A realidade, inesgotável, é uma figura sociogeométrica inclassificável.

Inexiste liberdade sem pensamento livre e atitudes conscientes e amorosas. E participar da grande aventura da liberdade é, antes e tudo, uma decisão de cada um. É nisso que eu acredito. Esse é meu “centro”.