26 setembro 2013

Silêncio


Quando garoto, ouvia meus pais e mestres repetirem que o silêncio vale ouro. Naquela época, era muito comum ouvir também que em boca fechada mosquito não entra e que aquele que fala demais dá bom dia até para cavalo.

Brincadeiras, exageros ou sabedoria popular à parte, a questão é que o silêncio anda meio desprestigiado no presente. Fala-se muito o tempo todo e em toda parte. Centenas de canais de TV e estações de rádio, milhares de revistas, jornais e sites de Internet, todos falando, alguns gritando, quase ninguém em silêncio. De repente, as pessoas foram convencidas de que o importante é dizer algo, seja o que for, desde que apareça bem e possa se tornar um motivo para que outros digam mais e mais, sem parar.

Num mundo amplificado e barulhento, confuso e transtornante, permanecer em silêncio virou falta de opinião, omissão, desconhecimento. O momento histórico pede o estrondo, o rebuliço, a tagarelice. Até os intelectuais, aqueles sujeitos outrora confiáveis porque pensavam antes de expressar ideias e ajuizar fatos, agora têm muitos pareceres sobre tudo, vivem ao vivo e em cores na mídia, falando rápida e superficialmente sobre coisas e pessoas em movimento, inconclusas, misteriosas...

A realidade eletrônica e virtual seduz os falastrões e corrompe o silêncio. Nem mais o anonimato das formas e da necessária privacidade pode se silenciar, manter-se afastado dos olhos que tudo veem para nada de fato saber. O silêncio bem que poderia ser interpretado como autopreservação e desejo pelo recato, pela discrição. No mundo que berra, as fotos do absurdo e da intimidade revelada são compartilhadas de modo banal e narcísico – as palavras comedidas e inteligentes saem de cena e dão vez aos discursos monossilábicos e às histriônicas vaidades tão embrutecidas.

Sou do tipo que ouço música em silêncio, para pensar, imaginar novos capítulos para o livro particular do tempo. Cultivo o silêncio como o faz o jardineiro cuidadoso com seu delicado bonsai. É do silêncio que nascem boas ideias e grandes invenções. Em meio a gritarias e palavrórios incessantes, o pensamento se despede e convoca a tristeza, esse sentimento tão comum entre aqueles que falam muito e pouco realizam, exatamente por terem desaprendido a viver em silêncio.