08 outubro 2013

A aposta de Pascal


Acreditar em Deus, ensinou o filósofo Blaise Pascal (1623-1662), um gênio dos aforismos e dos vaticínios precisos, é como ter diante de si uma aposta de três opções, com apenas uma delas inegavelmente correta.

Se não acreditamos em Deus e apostamos na sua inexistência, perdemos. Afinal de contas, o que ganharíamos se constatássemos que de fato somos seres solitários neste mundo? Se acreditamos, mas nossa aposta se revela equivocada, nos contradizendo que Ele não existe, perdemos também. E o pior: ficamos a ver navios após uma vida de dedicação a algo puramente imaginário. Agora, se acreditamos em Deus e isso se prova verdade, ganhamos – na fé, na esperança, no ombro sobre o qual apoiamos a nossa história.

Levo a sério essa aposta pascalina. Toda vez que me perguntam por que acredito em Deus – e eu ouço essa indagação quase diariamente -, digo que entrei num desafio e desejo vencer. Daí, resta-me uma alternativa tão-somente: acreditar piamente.

Pascal, contudo, ampliava muito a abrangência de sua aposta. Para o teólogo e matemático virtuoso, a crença em Deus requer uma conduta compatível com a fé amorosa, a ação solidária, o espírito que se enternece e exige que o corpo estenda a mão ao semelhante. Pascal afirmava que, ao fazer a coisa certa, o ser humano se expande, integra a população da Terra e atinge o céu pela propícia obra. No final de tudo, refletia o filósofo, o que fica é aquilo que fazemos de bom para os outros.

Em seus famosos “Pensamentos”, Pascal, considerado o precursor da dialética moderna, escreveu que o todo e as partes permanecem sempre intercambiáveis. Ou seja, para entender o mundo, devemos observar o indivíduo; para compreender melhor os contornos da aventura singular, devemos elevar o pensamento ao mais alto nível da vida coletiva – em última instância, à experiência planetária.

Ao apostar na existência de Deus (o Todo), Pascal confia no fiel mais simples (a parte). Ao nunca perder a esperança de que o mais humilde dos humanos tem a chama da mudança no coração, o filósofo francês contempla o infinito e vê Deus, na totalidade da criação.