17 outubro 2013

A censura


A censura é das coisas mais antigas e resistentes do Brasil. Suas curvas perigosas e cores sangrentas marcaram o silêncio e a violência da escravidão.

Na delimitação da propriedade rural no país, a censura impediu que quem de fato trabalhasse pudesse viver como senhor na terra. Ao mesmo tempo, quilombos e territórios negros livres foram impedidos de existir, de exercitar autonomia, de olhar para o céu como brilho da criação. Entre nós, brasileiros, a censura sempre foi branca e proprietária, não só da terra e das bolsas de dinheiro, mas também da força e da desmedida capacidade de provocar medo e disseminar o horror.

No Império, a censura calou vozes rebeldes em todos os cantos do país, sufocando movimentos populares, perseguindo líderes revolucionários, atemorizando os corações que batiam no ritmo dançante da liberdade. Aplaudindo o comércio inglês, fazendo o serviço sujo imposto pelo capitalismo central, os enigmas imperiais destruíram seu povo, os povos vizinhos e uma dose bem expressiva da latinidade que insiste viver a trancos e barrancos em nós, sujeitos da América do Sul.

A censura, que sempre andou armada no Brasil, fechou jornais, impediu canções, rasgou livros e queimou muita poesia – que o digam os heróis anarquistas do início do século XX, seus periódicos artesanais, sua ácida e corajosa crítica social sob a tempestade da grosseria e do poder concentrado dos contos de réis.

A censura também se republicanizou. Hoje ela emana dos três poderes, cria muitos outros paralelos e intensifica monopólios de ideias e veiculação de informações. A censura tem codinomes, uma vez que ela está proibida de se assumir como tal: vive alegre e faceira em associações privadas de negócios e imprensa, gerindo mentiras e falsificando a inteligência. Agora, a censura acusa a quem a quer combater de censores, posto que ela se farta dos frutos da enganação e da suposta liberdade que dizem existir na arrogância, na ofensa e no desestímulo à soberana popular.

A grande tática da censura é dizer que censura de verdade é o que querem seus inimigos.