17 outubro 2013

A unanimidade


Nelson Rodrigues (1912-1980), um dramaturgo como poucos, um conservador de qualidades em franca extinção, dizia que toda unanimidade é burra. Certamente, Nelson refletia sobre as multidões que caminham sobre rastros, multiplicam-se com extrema facilidade, ignoram o fato de que é possível pensar por conta e autonomia.

Além de burra, a unanimidade tem cara feia, é pouco lúcida e completamente embriagada. Quando convidada a admitir seu parco juízo, a multidão que se arrasta feito zumbi afia suas garras na intolerância e na ofensiva mal-educada. Mentem, adulteram palavras, fazem-se de vítimas – esses são os exercícios prediletos dos membros indistintos da unanimidade.

Unanimidade não é consenso; ela é forjada de fora e indiferente à opinião das pessoas. Vale dizer que a unanimidade odeia opiniões que não sejam compatíveis com sua lógica de proibir o contraditório, o diferente, aquilo que não se curva nem aceita um mundo pronto.

Contra os que têm ideias e querem discutir livremente a construção de um consenso erguido sobre todas as vozes e visões, a unanimidade lança o óbvio miserável de suas frases feitas e de seus preconceitos históricos. Em geral, a unanimidade chama seus críticos de “politicamente corretos”, “falantes”, “militantes” e daí para mais, daí para menos.

A unanimidade parece um daqueles toca-discos tentando rodar um elepê velho e riscado: repete a mesma frase mil vezes, na ilusão de vencer pelo cansaço a vida inteligente que rejeita a morte. A unanimidade apela para tudo: para as ofensas gratuitas, para o verbo viciado e até para o céu e o inferno. Ela finge saber sobre o que não sabe; fala daquilo que desconhece; é um eterno rancor de si mesma em amargurada jornada para negar aquilo que ela acha que foi, mas nunca teve condições de ser realmente. A unanimidade, enfim, é um estereótipo, uma colcha de retalhos, uma voz perdida e sem capacidade de se aprofundar nos temas que vocifera dominar. Numa palavra, ela é oca.

Se fosse uma pessoa, a unanimidade mereceria todas as nossas preces e sinceras palavras de conforto e ações de piedade. Afinal de contas, ela seria tão somente uma pobre alma em chamas.