08 outubro 2013

Elegância


Leandro Konder (1936), filósofo marxista brasileiro, um dos maiores e melhores exemplos do poder da expressão "elegância". Um homem de estilo, sofisticação e inteligência ímpares. Meu maestro soberano.

A elegância é suave e serena. Eu vivo a me perguntar por que as pessoas elegantes tanto me cativam. Reflito sobre a elegância como um dom, algo natural, e também como uma escolha, uma decisão pensada, elaborada e bem consciente.

Admiro demais aquelas pessoas que adotam um tom de voz tranquilo, pausado, ilustrado por um sorriso que desconcerta e encanta. A elegância é avessa a destemperos e intransigências; pratica o enternecimento e gosta de ouvir, observar, registrar calmamente tudo que ocorre e passeia pelo mundo. A elegância prefere a aparência discreta, os valores universais, as ideias ousadas – e sintetiza tudo isso em intervenções que nascem do compromisso com um olhar múltiplo e pluralista.

É preciso, contudo, convir: a deselegância reina com facilidade em nossos dias.

O gosto gratuito e irresponsável pela polêmica tornou-se para muitos a única forma de visibilidade. A galhardia de ideias rasas, as palavras vazias, a predileção pelo espalhafatoso e vulgar... Essas reinações da deselegância induzem sempre mais minha admiração pelas atitudes elegantes.

Ser ético, por exemplo, tem sido a aventura dos heróis do nosso tempo e dos representantes mais destacados da elegância. Numa realidade marcada por tantas crises de insustentabilidade e desamor, a elegância está na simplicidade, na valorização de princípios humanistas, na opção pela solidariedade. É elegante ter um livro sempre em mãos, vicejar um vocabulário rico, interessar-se pela sensibilidade despertada pelas artes. Os contrários disso são a fala chula, a redundância, a repetição dos erros, a arrogância, o aparecer pelo aparecer. No limite, nada se revela mais deselegante do que aceitar ser uma caricatura, dizer o que todos dizem, cultuar aqueles tipos humanos que rondam o erro alheio, a dor do outro, o insucesso do próximo. A elegância é independente, terna e aberta às lições que a força da coerência aplica à vida.

Anima-me especialmente a elegância das mulheres, aquele dom ou aquela decisão que prestigia uma sedução recatada, um amor que explode pelo olhar e se concretiza na imaginação. Nas mulheres, a elegância é, acima de tudo, uma profecia da beleza e da paixão irrecusável pela felicidade arrebatadora.