29 outubro 2013

Relógio de pulso


Eu vivo mal sem meu relógio de pulso. Toda vez que saio de casa sem ele, sinto-me nu, meio constrangido, com o senso de orientação claramente abalado.

Usar relógio é um hábito – e como tal responde a uma tradição. Para mim, é impossível resgatar a imagem do meu pai ou dos meus avós (homens tão diferentes entre si) sem lembrar seus imponentes relógios de pulso. Meu pai, por acaso, usava no braço direito – dizia não saber por quê; apenas que se sentia melhor daquela maneira.

Baratos ou caros, digitais ou de frágeis ponteiros, com números simples, romanos ou cheios de nove horas, os relógios de pulso são dignos por seu estilo, por aquilo que representam em todas as histórias em que aparecem, das mais particulares às mais universais.

Se é verdade que sua única função é indicar o instante do tempo que não para, é também verdade (talvez mais ainda) que os resultados do seu tão modesto ofício fazem dele um grande parceiro.

Há relógios em torres urbanas, vizinhos a igrejas, no meio de praças, em painéis de veículos, na cozinha das casas, nos dispositivos móveis e eletrônicos, em tudo que é lugar e coisa. Mas só o relógio de pulso empresta charme e permite um olhar mais discreto, de soslaio, daquele que previne tanto do falatório inútil quanto do atraso para o encontro definitivo da paixão.

Os relógios de pulso são a persistência do afeto e da memória: eles são o presente de quem amamos e nos trazem a lembrança daqueles que já partiram. No pulso, o relógio é uma longa história.

Mais do que uma promessa de sucesso, o relógio de pulso é a valorização daquilo que é e a crítica sutil e resistente contra aquilo que precisa repetir que será. Indiferente a modismos, o relógio de pulso é um objeto de valor.

Num mundo tão entregue a utilitarismos que arrotam praticidade e rápidas vantagens, o relógio é a certeza da calmaria. Ainda que seus ponteiros não parem de trabalhar, eles lá estão para nos lembrar dos momentos de prazer, descanso e amor. Para isso, ele não precisa destruir nada – basta que continue sendo para nós o que ele sempre foi.