03 outubro 2013

Sala de desconhecidos


Ilustração de Pawel Kuczinsky

Sempre digo aos meus alunos que a sala de aula é meu palco e meu templo sagrado. Nela, protagonizo a história das escolhas que fiz e das coisas em que acredito. Mais: assim como a igreja para o fiel, o mar para o aventureiro e o céu para o sonhador, a sala de aula é o refúgio da minha alma, o lugar em que construo e ainda guardo os melhores mapas das minhas mais caras utopias.

Por tudo isso – que alguns consideram pouco exatamente porque não envolve dinheiro, poder ou diversão barata -, muito me entristecem as atitudes de alunos que não preservam o valor da dedicação às ideias, do amor aos grandes temas, da concentração e do interesse diante de desafios e provocações à inteligência. Aliás, aqueles que desprezam a potência de uma sala de aula (e aí penso nos estudantes alienados, nos gestores equivocados, nos políticos desqualificados e nos educadores não vocacionados) costumam ser os mesmos que rejeitam a profundidade do dom da vida e o elemento divino que possibilita o ato de educar, cuidar do próximo.

Em inúmeros sentidos, a sala de aula se tornou o ponto de encontro entre desconhecidos. Pouco importa se a escola é pública ou privada, se a universidade é de ponta ou um vergonhoso caça-níqueis, se o ambiente é voltado para a sociologia, a filosofia e as humanidades ou para disciplinas técnicas e profissionalizantes. Pouco importa, lamentavelmente. O que sobra é a apatia, esse sentimento tão estranho e ao mesmo tempo estrondosamente característico de nossa formação sociocultural.

A cada novo dia tudo parece mais interessante do que um professor, suas ideias, suas antiquadas sugestões de leitura. Numa realidade em que o hábito de gostar de ler, desafiar textos e desejar conhecer se transformou numa virtude de poucos, uma experiência quase alienígena, papos fúteis e desconexos, celulares conectados à Internet e a ansiedade que vislumbra matar o tempo para que as aulas se encerrem imediatamente ganham adeptos e lotam um mundo disfórico, escandalizando as lições do bom senso, a paciência do saber e aquilo que resta de humano em nossos frágeis laços de convivência.

A vida além dos muros escolares voa a mil por hora, é virtual e em cores, repleta de efeitos especiais. As salas de aula são simples e exigem a presença efetiva das pessoas - uma presença que, parece, estará ausente na já surrada luta pelo futuro.