12 novembro 2013

Arena midiática


Publiquei este texto em 2008. Considero-o ainda pertinente. A discussão atual sobre violência e a cobertura da mídia dos movimentos de rua neste 2013 me fizeram recuperar esta reflexão.

Sabe-se, ao menos desde Marx, que a sociedade capitalista é uma fabulosa fábrica de mercadorias. Para onde quer que se olhe, lá estão elas, imponentes e sedutoras, ostentando promessas de prestígio, bem-estar e felicidade. Num primeiro momento, trabalho humano e “coisas” produzidas para o consumo em escala travaram lutas epopeicas, ressaltando a rebeldia e a insatisfação como emblemas do insurgir do trabalho explorado contra o capital que degrada, humilha e coisifica. Entre o homem e a “coisa”, todas as fichas eram apostadas no homem, é claro. Noutros tempos, contudo.

Tempos andantes, o humano foi convertido em trabalhador “livre”, em produtor de um sem número de mercadorias de todos os tipos e tamanhos, até efetivamente transformar-se numa delas. No início, no trovão esperado da modernidade, a mais nobre e essencial. Hoje, na chuva ácida da aridez pós-moderna, aquele que se vê obrigado a vender-se como força produtiva efetiva-se como graxa, lubrificante de um sistema que despedaça e desperdiça, sufoca e aniquila. É certo que essa é a própria essência do tempo do capital, mas, de todos os modos, ele nunca se revelou tão impiedoso como em nossos dias.

Com a ampliação da sociedade de consumo – propiciada por conquistas salariais e liberação do tempo de trabalho para o de lazer -, a mídia, portadora das imagens que forçam desejos e sufocam saberes, insistiu que trasladassem à condição de mercadorias também os instantes de repouso e entretenimento das pessoas. Aliada à destituição crescente dos espaços públicos e dos históricos lugares coletivos da política, da arte, do debate em prol do comum, a grande imprensa empresarial passou a exibir a degradação humana como uma das tantas mercadorias de altíssimo potencial lucrativo. E tem, com isso, reinventado suas receitas.

A toda a hora, em todos os veículos possíveis, multiplicam-se os espetáculos da barbárie: bandidos e mocinhos, ídolos e tietes, pessoas do bem e do mal ocupam as galerias da diversão fácil, do grotesco, da pífia “cobertura midiática” da criminalidade e da violência, da corrupção, do esfacelamento público e institucional, moral e social.

Nas publicações e programações da mídia burguesa, da assim chamada imprensa empresarial, a violência – que deveria ser analisada como sintoma da crescente mercantilização da vida e do mundo – surge como desvio de caráter, sinal de covardia, safadeza, maldade, estigmatizando os mais pobres e tornando inviáveis e invisíveis os quereres dos sujeitos das classes subalternas. Não raro, para muito além da factível criminalização dos movimentos sociais e das urgências populares, a mídia burguesa banaliza o mal, misturando e tornando indistintos criminosos, corpos decapitados, policiais romanescos, picolés, promoções do vestuário feminino, vagas de vestibular e aparelhos de telefonia móvel... É o mercado pujante da lógica publicitária nefasta, que se ergue sobre a precarização das almas, da desfiliação absoluta da condição humana.

E lembrar, dia a dia, que costumo ouvir de profissionais (?) dessa arena medieval que a mídia burguesa emancipa consciências e liberta a humanidade. Nosso tempo, enfim.