02 novembro 2013

Lou Reed


Lou Reed (1942-2013)

Era tarde de domingo. Eu estava ao computador reunindo imagens e preparando uma aula para a segunda-feira. Um link de internet afirmava que o cantor Lou Reed falecera em Nova Iorque, aos setenta e um anos de idade.

Lou Reed era do mesmo ano do meu pai. Ambos já se foram. Com eles, a poesia da minha vida parte também, empobrecida, esgotada. Ainda inconsolado com a morte da voz serena e do dedilhar suave de Lou Reed, escrevi meu último poema, que intitulei oportunamente de “Últimos versos”.

Publiquei a derradeira poesia no meu blog e na mais famosa das redes sociais – e jurei que não mais escreveria versos, coisa que fiz incansavelmente desde os meus doze ou treze anos de idade.

Cansei. Cansei mesmo. O mundo anda pouco poético, quase nada inspirador. A sensibilidade que costumava existir ali e acolá bateu asas e se perdeu de vista. Sem Lou Reed, sinto-me sem parceiro. É minha hora de parar, preciso admitir.

Lou Reed, sendo discreto, influenciou tudo que se fez no campo da boa música nos últimos quarenta anos. Desde o imortal e incomparável álbum de estreia do Velvet Underground, em 1967, e do insuperável “Transformer”, de 1972, Lou Reed é uma escola pela qual passam ídolos e ícones do folk, do blues, do pop, do rock e de toda espécie de experimentalismo musical. 

Sem alardes nem gritarias autopromocionais, Lou Reed era, então, a referência das referências, o grande capitão da música de qualidade do século XX. Nascido alternativo, Lou Reed era o arquiteto da crítica inteligente, dos versos de palavras inquietas. Só há uma personagem na obra de Lou Reed: o ser humano.

Em 2011, Lou Reed se juntou ao Metallica e lançou o surpreendente “Lulu”, um álbum que conflita temperança e fúria, produzindo uma síntese que só se entende tentando ouvir, sentir e decifrar.

Sou agora um ex-poeta. Sem Lou Reed não me sinto livre para versar. Vou me dedicar somente às crônicas, com as quais farei do breve tempo a matéria-prima de minha solitária saudade de Lou Reed, cuja ausência marca, para mim, o fim da poesia.