24 dezembro 2013

Até 2014


Que o verdadeiro bom velhinho lhes traga um Natal bem bonito e um Ano Novo de coração revolucionário - cheio de elegância, serenidade, transparência e paixão libertária!

20 dezembro 2013

Serenidade


Na infância, um dos medos de meus pais e avós era que eu saísse ao sereno e por lá me demorasse. O ar frio do crepúsculo, quase sempre acompanhado da fina e intermitente garoa paulistana, assustava os mais velhos. O sereno era sinônimo de resfriado, mal-estar, coisas evitáveis.

Agasalhar-se bem era o antídoto contra o sereno. Além do vento gelado e da chuva matreira, o sereno era o momento escuro do dia, o aviso de chegada da longa noite. Gente de juízo, àquela hora, já estava em casa, em família, sob abrigo da divina providência.

Muito tempo mais tarde, descobri um outro significado para o sereno, que, então, deixou de me preocupar e recordar tantas palavras de advertência e cuidado.

Sereno é a qualidade de quem vive desafeito a perturbações, agitações, desordens no espírito e nos movimentos da vida. Sereno é o agente da tão estimada serenidade. 

A serenidade são as vestes da paz, a transmissão da tranquilidade, o conforto da segurança, o colo leve e amoroso da sensatez.

Eu tive uma vida de serenidade. Por motivos relacionados com meu temperamento, vivi meu tempo muitíssimo bem acompanhado da mansidão – sou avesso a polêmicas, palavras desperdiçadas, conflitos desde sempre infrutíferos. Os livros foram e ainda são a matéria-prima da minha serenidade; no jogo de bola, estacava meu pé no meio de campo e dali olhava para os lados, tranquilo, à cata de pés aos quais pudesse lançar a boa pelota; no mundo, aprendi a ouvir e a escrever; gosto pouco de falar e, sei lá por que motivo, prefiro a imensidão do mar às turbulências do asfalto.

Minha serenidade é acústica. Desliguei guitarras e me livrei das batidas fortes faz um tempo. Só sei admirar quem fala à meia voz, de modo suave, encantador. Gritarias me passam completamente despercebidas.

Perdi o medo do sereno. Hoje quero mesmo é permanecer vulnerável à boa vontade e ao discernimento da experiência, que a gente só encontra lá fora, ao relento mesmo.

19 dezembro 2013

Anti-heróis


Raskólnikov, de Amy Coyle

O “anti” não é um oposicionista. Não cabe a ele ser o contrário, uma alternativa ou um adversário de atributos ao avesso. O “anti”, por excelência, é único, posto que foge a padrões, contesta fórmulas, nega que a vida seja feita de pureza e ausência de complexidade e contradição. O “anti”, portanto, seja como for, onde estiver, só pode ser contra o sistema.

Tudo a nossa volta é intensamente vivido pelo “anti”. Onde há um só “não” proferido, uma ainda que frágil reação, alguém destemidamente na contramão, lá está também um “anti”.

No “anti”, nada do que caracteriza o herói ou o vilão está presente. Ele não é clássico, embora tenha se tornado bastante cult; ele não é moderno, mesmo sendo constantemente visto pela senda underground contemporânea; ele não é virtual nem pós-moderno, uma vez que existe desde sempre, na ficção e na realidade, em toda parte, pujante e inegavelmente.

O anti-herói, o “anti” dos “antis”, não é bom nem mal; não é um coração-mole nem um desalmado; não acredita em milagres nem se deixa perder pela racionalidade petulante e excessiva. Se for mulher, é antidiva: não ama princesas, tem horror a frescuras e falsos pudores, é capaz de conquistar em nome de uma loucura cristalina, desabusada, destruidora de tabus e incendiária de velhas morais. A antidiva é mulher substantiva, alheia a idealizações e perturbações da ilusão.

Nenhum sentimento supostamente altruísta ou pequeno-burguês move o anti-herói ou faz da antidiva a fêmea mais admirada do mundo. Vingança, desejo de justiça, vaidade, busca por reconhecimento ou expurgo do medo – nada, nada disso compõe o universo do “anti”. Não há o que provar. Não há o que repartir. Nada pode ser mais simples e, ao mesmo tempo, tão obscuro, cheio de sinuosidades e porquês.

Raskólnikov, personagem de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, é, para mim, o maior anti-herói da história. Antagonista de si mesmo, Raskólnikov é inclassificável, fácil de amar, mais fácil ainda de odiar. Vejo nas antidivas e antimusas de todos os tempos um par honesto para Raskólnikov. Elas o amariam até o fim - e antecipariam também esse mesmo fim por total incapacidade de amar.

11 dezembro 2013

Inexplicável


A antidiva Jynx Maze, de ascendência peruana e paixões práticas inexplicáveis

Não é só amar um verbo intransitivo, como ensinou Mário de Andrade. Há muito nesta linda, louca e breve vida que não requer complemento ou satisfação. Via de regra, o que nasce do coração e atiça os sentidos, provocando a arrogância da razão, é inteiramente inexplicável.

Quem já tentou viver de explicações sabe quanto tempo perdeu, quanta energia desperdiçou. Sou partidário confesso e impenitente de uma máxima do escritor carioca Marques Rebelo: “Ninguém convence ninguém. Quem se deixa convencer já estava convencido.”

Nesse sentido, discursos, dados e argumentos caminham na contramão de certezas que nunca se abalam e verdades que não admitem contestação. Em casos assim, inexplicável é a tacanhice, essa habilidade humana de evitar a luz, o novo, o diferente.

É possível, contudo, que nos deixemos contagiar pelo caudaloso oceano do inexplicável. Existem águas claras lá também, adornadas por manhãs ensolaradas de domingo e noites estreladas de sábado. Nos infinitos mares do inexplicável, há rotas para todos.

Para que tentar explicar a fraqueza das pernas diante do sorriso da pessoa amada? Qual a vã vantagem que teria alguém que buscasse justificativa para os desejos d’alma e as fantasias do corpo? Já houve gente desatinada que tentou mediar poesia e quantificar prosa. Em toda parte sobram os maníacos por estatísticas, que querem numerar a subjetividade, engaiolar a criatividade e normalizar a liberdade. Entre aqueles que a tudo devem explicações, o reino vitorioso é o da decepção e da frieza.

Inexplicáveis devem ser os versos e os olhares apaixonados. O inexplicável é sempre arrebatador, estimulante, completamente desestabilizador. A luta pelo mundo com que sonhamos também não se pode explicar: se é de utopias que vivemos, como dar instruções prévias aos nossos passos? O coração revolucionário é de sangue admirável, suor imponderável, amor inexplicável.

O que se explica já está feito, já está provado. O inexplicável habita a terra do amanhã, dos homens e mulheres que conclamam a novidade, tudo aquilo que, a depender do brilho incansável da vida, certamente virá – para jamais sonhar querer se explicar, é claro.