19 dezembro 2013

Anti-heróis


Raskólnikov, de Amy Coyle

O “anti” não é um oposicionista. Não cabe a ele ser o contrário, uma alternativa ou um adversário de atributos ao avesso. O “anti”, por excelência, é único, posto que foge a padrões, contesta fórmulas, nega que a vida seja feita de pureza e ausência de complexidade e contradição. O “anti”, portanto, seja como for, onde estiver, só pode ser contra o sistema.

Tudo a nossa volta é intensamente vivido pelo “anti”. Onde há um só “não” proferido, uma ainda que frágil reação, alguém destemidamente na contramão, lá está também um “anti”.

No “anti”, nada do que caracteriza o herói ou o vilão está presente. Ele não é clássico, embora tenha se tornado bastante cult; ele não é moderno, mesmo sendo constantemente visto pela senda underground contemporânea; ele não é virtual nem pós-moderno, uma vez que existe desde sempre, na ficção e na realidade, em toda parte, pujante e inegavelmente.

O anti-herói, o “anti” dos “antis”, não é bom nem mal; não é um coração-mole nem um desalmado; não acredita em milagres nem se deixa perder pela racionalidade petulante e excessiva. Se for mulher, é antidiva: não ama princesas, tem horror a frescuras e falsos pudores, é capaz de conquistar em nome de uma loucura cristalina, desabusada, destruidora de tabus e incendiária de velhas morais. A antidiva é mulher substantiva, alheia a idealizações e perturbações da ilusão.

Nenhum sentimento supostamente altruísta ou pequeno-burguês move o anti-herói ou faz da antidiva a fêmea mais admirada do mundo. Vingança, desejo de justiça, vaidade, busca por reconhecimento ou expurgo do medo – nada, nada disso compõe o universo do “anti”. Não há o que provar. Não há o que repartir. Nada pode ser mais simples e, ao mesmo tempo, tão obscuro, cheio de sinuosidades e porquês.

Raskólnikov, personagem de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, é, para mim, o maior anti-herói da história. Antagonista de si mesmo, Raskólnikov é inclassificável, fácil de amar, mais fácil ainda de odiar. Vejo nas antidivas e antimusas de todos os tempos um par honesto para Raskólnikov. Elas o amariam até o fim - e antecipariam também esse mesmo fim por total incapacidade de amar.