11 dezembro 2013

Inexplicável


A antidiva Jynx Maze, de ascendência peruana e paixões práticas inexplicáveis

Não é só amar um verbo intransitivo, como ensinou Mário de Andrade. Há muito nesta linda, louca e breve vida que não requer complemento ou satisfação. Via de regra, o que nasce do coração e atiça os sentidos, provocando a arrogância da razão, é inteiramente inexplicável.

Quem já tentou viver de explicações sabe quanto tempo perdeu, quanta energia desperdiçou. Sou partidário confesso e impenitente de uma máxima do escritor carioca Marques Rebelo: “Ninguém convence ninguém. Quem se deixa convencer já estava convencido.”

Nesse sentido, discursos, dados e argumentos caminham na contramão de certezas que nunca se abalam e verdades que não admitem contestação. Em casos assim, inexplicável é a tacanhice, essa habilidade humana de evitar a luz, o novo, o diferente.

É possível, contudo, que nos deixemos contagiar pelo caudaloso oceano do inexplicável. Existem águas claras lá também, adornadas por manhãs ensolaradas de domingo e noites estreladas de sábado. Nos infinitos mares do inexplicável, há rotas para todos.

Para que tentar explicar a fraqueza das pernas diante do sorriso da pessoa amada? Qual a vã vantagem que teria alguém que buscasse justificativa para os desejos d’alma e as fantasias do corpo? Já houve gente desatinada que tentou mediar poesia e quantificar prosa. Em toda parte sobram os maníacos por estatísticas, que querem numerar a subjetividade, engaiolar a criatividade e normalizar a liberdade. Entre aqueles que a tudo devem explicações, o reino vitorioso é o da decepção e da frieza.

Inexplicáveis devem ser os versos e os olhares apaixonados. O inexplicável é sempre arrebatador, estimulante, completamente desestabilizador. A luta pelo mundo com que sonhamos também não se pode explicar: se é de utopias que vivemos, como dar instruções prévias aos nossos passos? O coração revolucionário é de sangue admirável, suor imponderável, amor inexplicável.

O que se explica já está feito, já está provado. O inexplicável habita a terra do amanhã, dos homens e mulheres que conclamam a novidade, tudo aquilo que, a depender do brilho incansável da vida, certamente virá – para jamais sonhar querer se explicar, é claro.