20 dezembro 2013

Serenidade


Na infância, um dos medos de meus pais e avós era que eu saísse ao sereno e por lá me demorasse. O ar frio do crepúsculo, quase sempre acompanhado da fina e intermitente garoa paulistana, assustava os mais velhos. O sereno era sinônimo de resfriado, mal-estar, coisas evitáveis.

Agasalhar-se bem era o antídoto contra o sereno. Além do vento gelado e da chuva matreira, o sereno era o momento escuro do dia, o aviso de chegada da longa noite. Gente de juízo, àquela hora, já estava em casa, em família, sob abrigo da divina providência.

Muito tempo mais tarde, descobri um outro significado para o sereno, que, então, deixou de me preocupar e recordar tantas palavras de advertência e cuidado.

Sereno é a qualidade de quem vive desafeito a perturbações, agitações, desordens no espírito e nos movimentos da vida. Sereno é o agente da tão estimada serenidade. 

A serenidade são as vestes da paz, a transmissão da tranquilidade, o conforto da segurança, o colo leve e amoroso da sensatez.

Eu tive uma vida de serenidade. Por motivos relacionados com meu temperamento, vivi meu tempo muitíssimo bem acompanhado da mansidão – sou avesso a polêmicas, palavras desperdiçadas, conflitos desde sempre infrutíferos. Os livros foram e ainda são a matéria-prima da minha serenidade; no jogo de bola, estacava meu pé no meio de campo e dali olhava para os lados, tranquilo, à cata de pés aos quais pudesse lançar a boa pelota; no mundo, aprendi a ouvir e a escrever; gosto pouco de falar e, sei lá por que motivo, prefiro a imensidão do mar às turbulências do asfalto.

Minha serenidade é acústica. Desliguei guitarras e me livrei das batidas fortes faz um tempo. Só sei admirar quem fala à meia voz, de modo suave, encantador. Gritarias me passam completamente despercebidas.

Perdi o medo do sereno. Hoje quero mesmo é permanecer vulnerável à boa vontade e ao discernimento da experiência, que a gente só encontra lá fora, ao relento mesmo.