26 dezembro 2014

Sol e Lua


Havia uma 
palavra simples
na voz rouca
e tranquila
do grande
e inusitado
amor

Uma onda
de paixões 
múltiplas
levava meu 
coração
e o deixava
à beira-mar
do outro
lado 
do mundo

Acordado
percebi que
o sol 
e a lua
confabulavam
à meia-luz
abrindo mão 
do que podiam
para inspirar
vida no
coração
da Terra -
e de mim
um ser feito
de esperança
e muito amor

16 dezembro 2014

A moça que sorri

A estonteante antidiva Allie Haze, estadunidense de ascendência holandesa, dona de um dos sorrisos mais perturbadores do mundo

Sorrisos derrubam
muros e controem
pontes

De um sorriso
espera-se leveza
e todo o peso
suave de
uma grande
paixão

Para sorrisos que
inebriam e disparam
o que há
no peito
dedicamos versos
inquietos gestos
olhos fechados
mente
bem aberta

Se um sorriso parar
à sua frente
contemple-o
toque-o
conduza-o até
seu coração -
de lá permita-se
um corpo explodir

Pelos sorrisos
que conferem
sentido à escuridão
vale a pena viver
tranbordar em si
trilhar até pelo
incerto
que é certo
no desejo humano
que move o
mundo

Enfim,
cace sorrisos
desvende
fantasias

01 dezembro 2014

Pedaço de beijo


Houve um pedação
de um beijo
que se perdeu

Vivi acreditando
em beijos roubados
e no prazer
indescritível
do ato da paixão
proibido

Soube depois
de viver um
bom tanto
que não existem
paixões secretas
nem beijos roubados
que sobrevivam
à falta de coragem

O único
e insubstituível
ímpeto de
amor é a
coragem

Se beijos
não se roubam
lábios
não se sentem
prazeres
não se prolongam
é da falta de
coragem
que se fala
que se percebe
que se tudo
um pouco muito

O pedaço do
beijo que me
ficou
decidiu então
navegar
e foi buscar
uma nova
e só sua
utopia

19 novembro 2014

Fim da linha


A antidiva Remy LaCroix, cuja beleza é para o universo onírico dos amantes a certeza de que todo fracasso é uma desilusão necessária, o fim da linha mesmo.

Não irei mais achar
Houve um desencontro
Que agora é destino
Da solidão terei de tirar lições

Só não me culpo
Por não ter tentado
Vasculhei fundos e mundos
Recorri a todos os expedientes

Poucas vezes
De modo quase pueril
Obtive alguma sorte
O fracasso é uma desilusão necessária

Escrevi poemas
Inventei tudo que é cenário
Contei todo tipo de história
E nada, nada mesmo

Agora vou encarar a desistência
Como a vitória da sanidade
Só de imaginação
Vou viver perdido

Quando eu fechar os olhos
Lá estará você
Sempre um mistério
Pulsão e pecado

Não há chances no acaso
Só a dor do inevitável
Sozinho neste planeta ao avesso
Meu velho travesseiro me aproxima de você

Mimese


Na sempre encantadora e surpreendente língua portuguesa, mimese representa um discurso direto, um uso inadvertido de palavras e gestos alheios. Numa palavra, a mimese é o fenômeno pelo qual alguém quer ser outro alguém, reproduzindo vícios e virtudes.

A mimese revela ao mundo os imitadores de plantão. Na infância, transforma pais em heróis, personagens dos quadrinhos e desenhos animados em sujeitos da realidade, professores diletos em tipos-ideais de caráter e sabedoria. Quando se é criança, vive-se atrás do adulto perfeito, do vingador invencível, do ser humano inabalável. À medida que a vida passa e os anos vão preenchendo a fissura espaço-tempo, o imitador precisa tomar decisões difíceis, fazer escolhas, definir seu perfil e construir sua identidade em face de princípios e valores. As influências e os modelos permanecem, é claro, mas como algo a inspirar, não mais a imitar.

O pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940), uma das mais privilegiadas inteligências do século XX, afirmou que a mimese é uma recriação da realidade. Por meio das artes, principalmente, homens e mulheres têm a oportunidade de rejuvenescer histórias, reinventar tipos humanos e protagonistas da ficção, reelaborar inícios, fins e meios, com todos os seus dramas, suas tramas, suas infinitas complexidades.

Durante o Renascimento Cultural, numa época em que Maquiavel e Giordano Bruno tornavam o mundo um lugar bem mais digno de admiração e lutas, a mimese voltou-se para a Antiguidade Clássica, para a cultura grega e a suntuosa experiência romana. A ideia era iluminar um tempo de trevas e pouca serenidade – uma etapa da história atravessada por verdades inquestionáveis e realidades invariavelmente cruéis. É num caso desses que a mimese revela seu lado rico e criador, em busca do melhor do mundo para salvar o próprio mundo do pior...

Imitar, inspirar ou recriar, tanto faz. A mimese é um desafio ao entendimento humano. Por que imitamos? Por que sentimos tanta necessidade de espelhar ideias, aparências, ações, estilos de vida? A pista que nos deixa o gigante Walter Benjamin é muito instigante: talvez imitemos os outros para que possamos nos descobrir. Afinal, sozinhos nada somos, pouco podemos.

17 novembro 2014

Histórias, no plural


Autorretrato de Caio Prado Júnior (1907-1990)

Logo no início de seu clássico “Formação do Brasil Contemporâneo”, publicado em 1942 e considerado um livro indispensável para compreender o Brasil, Caio Prado Júnior afirma que todas as sociedades possuem, na sua evolução, um sentido. O que o grande historiador marxista atesta é que, em meio aos emaranhados eventos do tempo, há uma direção – nada é tão aleatório, tão casual, tão improvisado que não precise se render, hora ou outra, ao curso da evolução da vida e do mundo.

Caio Prado Júnior era certamente um dos melhores filhos de sua época. Suas análises da formação sociocultural brasileira tiveram o mérito de apresentar uma primeira substancial tentativa de explicar o país pela ótica marxista (dentro do velho PCB, inclusive, teve sua tese de que o Brasil sempre fora uma nação inserida no processo histórico de desenvolvimento capitalista de forma periférica - mas decisiva” - rejeitada em favor do “etapismo” que julgava o nosso país, em seu período colonial, um território ainda feudal). Em plena vigência do Estado Novo (1937-45), no entanto, uma forte onda positivista se impunha sobre o pensamento de Caio Prado Júnior e outros bravos pensadores da esquerda brasileira. Na verdade, as primeiras recepções às ideias de Marx no Brasil, datadas do final do século XIX e prolongadas até fins dos anos 1950, foram uma homérica tragédia, uma sucessão quase infinita de distorções e mal-entendidos.

De minha parte, não sei se um dia acreditei que houvesse um sentido para a história. Sempre torci o nariz para verdades prontas, avessas às inerentes contradições da realidade, as quais se camuflam atrás de vanguardas e centralismos que juram pensar pelos outros e agir em nome de todos.  Há um espírito libertário indestrutível em mim.

Em vez de “História”, no singular e com “H” maiúsculo, aprendi a valorizar muito mais histórias, no plural e com “h” minúsculo, o que demonstra que, se existe unidade, ela só poderá se realizar na comunhão da diversidade das experiências humanas.

É verdade que, se desconfio do sentido geral de tudo e prefiro o múltiplo ao unitário, também não faço pouco caso do universal, de valores que partam dos muitos indivíduos e grupos sociais para compor um projeto livre de humanidade. Minha questão é de método: o sentido do mundo deverá ser erguido de baixo para cima, e não despejado de cima para baixo, como o é usualmente. Acredito que Caio Prado Júnior endossaria minha indelével convicção.

13 novembro 2014

Os heróis nunca morrem


Passava das onze da noite quando cheguei em casa ontem, quarta-feira 12 de novembro de 2014. Eu voltava da Universidade, onde um encontro riquíssimo com os alunos havia me oferecido uma noite tranquila e animadora. Minha esposa, recalcitrante, me informou, então, que morrera Leandro Konder, aos 78 anos, no Rio de Janeiro. Despenquei a chorar. Entre lágrimas, soluços e uma enorme sensação de solidão no peito, percebi que um pedaço de mim nunca mais seria igual. Eu acabara de perder a minha mais importante referência profissional e humana, o homem que me ensinou, com sensibilidade e extrema generosidade, a ver o mundo, sentir a história, entender os ásperos caminhos do pensamento e da ação.

Leandro Konder é o mais importante pensador marxista brasileiro. Esse status não se encerra com sua morte. Ao contrário, estende-se, dilata-se, posto que a crise contemporânea do marxismo, que ele com humor e certa melancolia sempre denunciou, dificultará o surgimento de um intelectual tão completo quanto ele. Tenho a alegria de dizer que foi Leandro que me devolveu a Marx, após anos perdido, em busca de minha identidade ferida, desesperançada e agonizante.

O Marx que Leandro me apresentou era um humanista pouco lembrado pelo seu estranho séquito ancestral de seguidores. Era um Marx de método radical e postura política inabalável, um revolucionário convicto, um libertário aberto aos tantos e imprevisíveis rumos do tempo histórico. O Marx que Leandro me deu de presente com suas obras era, antes de tudo, um autor de diálogo franco com a diversidade, o arquiteto da “unidade na diversidade”, um militante pela onilateralidade dos humanos, reunidos no mundo do trabalho, reorientados permanentemente pelas andanças da história. O Marx que Leandro me fez conhecer está nas releituras dialéticas de Lukács, Benjamin e Gramsci – um filósofo, portanto, romântico e utópico (ao mesmo tempo, científico e dado a contumazes racionalizações), filho do século XIX, herdeiro do vasto repertório de conhecimentos conquistados pela humanidade.

Gratuitamente e sem saber de nada, Leandro propôs meu renascimento intelectual. Na prova didática que fiz no concurso público que me conduziu a UEL, Leandro foi protagonista: a todo instante, lá estava ele, buscando com a humildade que lhe era mais do que característica, convencer a mim e à banca de examinadores que a realidade é inesgotável, infinitamente maior que a capacidade humana de cercá-la, compreendê-la. Mais uma vez, em vista de minha aprovação conquistada de modo quase surreal (nas sinuosidades infinitas da verdade), Leandro demonstrou estar certo na sua leitura do velho barbudo.

Foi na divulgação inteligente das origens, tendências e tradições socialistas que Leandro Konder se destacou ainda mais. Seus estudos e escritos sobre Fourier, Hegel, Benjamin e tantos outros autores plurais e diversos entre si enriqueceram o debate e tornaram mais forte o marxismo na batalha das ideias. Quatro de seus quase trinta livros - “O futuro da filosofia da práxis”, “Fourier, o socialismo do prazer”, “Walter Benjamin, o marxismo da melancolia” e “A questão da ideologia” - tatuaram minha cosmologia de esquerda e me proporcionaram belas estradas e veredas, invariavelmente tropicais e ensolaradas.

No final de 2008, Leandro lançou suas “Memórias de um intelectual comunista”. Com texto ágil, delicado e sempre surpreendente, narra sua trajetória de vida, revelando sabores e dissabores, encontros e desencontros. Acredito que até hoje seja o livro que mais vezes li. Umas seis ou sete, no mínimo. Foi graças a esses escritos autobiográficos que fui recebido por Leandro e sua família, no seu apartamento no Leblon, em 17 de janeiro de 2009.

Escrevi uma resenha das memórias e a publiquei no meu blog. Leandro Konder ficou sabendo do texto e me enviou uma mensagem, agradecendo o que considerava um gesto generoso de minha parte. Respondi ao e-mail, relatei-lhe minha admiração e, quando estávamos de férias em Copacabana, eu e minha família fomos recebidos por Leandro e Cristina, sua eterna companheira, numa tarde que se tornou um divisor de águas em minha vida.

Leandro e eu conversamos sobre poesia, a crise do marxismo, um pouco da política brasileira, livros, coisas do mundo que tornam tudo mais leve e valioso. De presente, ganhei uma caricatura do meu filho João Gabriel, que estava lá conosco. Leandro achou que o desenho representava uma criança mais velha; então, escreveu que se tratava de João aos oito anos. À época, meu filho mal havia completado dois anos de idade. Interessante é observar que Leandro viveu até que João comemorasse seus oito anos, uma semana atrás...


A inteligência, a personalidade afável, os rica e fartamente revelados episódios de amor ao mundo, tudo isso, sem dúvida, tornam Leandro um homem inesquecível e marcante para o país e a história das ideias. Seu caráter imprescindível, contudo – para falar com Brecht, dramaturgo biografado por Konder -, está na coerência, nos traços de militância e caráter que o fizeram atravessar a existência lutando sempre do mesmo lado, alimentando a autocrítica, não capitulando, não se entregando às durezas da crise ou às seduções da moda. Nesse sentido, Leandro é joia rara e vistosa, que precisa ser preservada e amplamente divulgada, admirada, cortejada.

Aqui em casa, no meu pequeno escritório, mantenho na parede a caricatura do João desenhada por Leandro e duas fotos que tiramos lado a lado em nosso encontro no Rio. Esses quadros me protegem, me inspiram, me recordam a toda hora quem sou, de onde venho, aonde quero chegar, de que jeito, com quais valores no coração e com quais bandeiras erguidas.


Vou seguir sonhando um dia ser um comuníada como Leandro, que, em reuniões mensais no casarão de Zelito Viana, no Cosme Velho, escrevia poemas aos amigos de longa data e velhas batalhas, todos meio comunistas, meio lusíadas de Camões. Acho que esta é a melhor síntese de Leandro: paixão poética pela revolução, a qual se dá, antes, na alma e, depois, no mundo em que essas almas se encontram e lutam. Nessa luta, aliás, a alma de Leandro estará sempre presente.

Num dos últimos e-mails que trocamos, em 29 de março deste ano, escrevi que estava bastante cansado e desanimado, julgando que o marxismo poderia se tornar para mim uma sentença ao esquecimento, em vista de tanto conservadorismo em alucinante ascensão na sociedade brasileira. Com as palavras suaves e atraentes costumeiras, Leandro me respondeu: “A carroça do marxismo é pesada e as estradas, difíceis, mas não podemos desistir, Marco Antonio. É preciso fazer um esforço maior, pois somos poucos. Persista em sua caminhada, porque uma coisa é certa: você não está sozinho.”

Leandro me chamava de Marco Antonio, como minha avó, como as pessoas que ainda levam a sério essa coisa de nomes duplos, carinho e identidade pessoal, sem os falsos tratamentos por sobrenome. Se eu tinha alguma dúvida quanto às minhas ideias e defesas, esse e-mail as dirimiu para sempre. É incrível como um homem que carregou por vinte anos as dores e os limites impostos pelo Parkinson era capaz de ser tão amável e altruísta. Leandro, sem exageros, me ensinou o valor da vida, sua inesgotabilidade diante dos maiores e mais difíceis desafios.

Hoje, uma quinta-feira em que o sol não brilha diante dos meus olhos de modo algum, sinto-me órfão mais uma vez. Há cinco anos perdi meu pai. Ontem, meu herói. O que me faz seguir em frente, desafiando o futuro e sonhando mais e mais, é ter certeza de que os heróis nunca morrem.

10 novembro 2014

Falando com Deus II


Acostumado a me relacionar com o Senhor pelos caminhos do silêncio, desfaço-me sem intenção dos necessários momentos da gratidão aberta. Aprendi de forma incontornável que o bem se paga com o bem e o mal com mais bem ainda. É evidente que obtive essa valiosa lição observando a generosidade da sua criação e os exemplos que nos chegam por meio das santas atitudes de fé e coragem de sujeitos que não titubeiam na hora de honrar vida, verdade e liberdade. Em todas essas pessoas, criaturas suas, vejo um pouco do Senhor.

Este abençoado ano das graças de 2014, para sempre inesquecível, tem-me sido de revelações e descobertas maravilhosas. Antes mesmo de iniciar o mês de janeiro, durante as festas de ano, brinquei comigo e com as pessoas à volta repetindo várias vezes que a vida só começa aos quarenta. Era, portanto, para este ser o primeiro e mais incrível ano da minha história. Havia, sim, brincadeira e até um pouco de ironia nas minhas palavras – eu andava cansado e desanimado, propenso a desistir de tudo e vagar, errante, em busca de uma nova estrada, de nascença já desconhecida e incerta.

Foi então que o Senhor decidiu transformar um jogo de palavras, um debique meio desesperado, na mais irradiante realidade, revalidando meus passos, reconhecendo minhas lutas, acarinhando meu coração.

Refletindo em retrospectiva, penso que a insistência em manter vivo no peito o meu viés poético tornou-me merecedor do seu olhar afetuoso. Lembro diariamente um velho adágio popular: “Deus é amor, sim, mas, acima de tudo, ele é justiça”. Creio piamente nesse indiscutível axioma dos povos. Foi por isso que resolvi atribuir a bem-aventurança a três dimensões complementares e integradas da poesia em minha vida: a da crítica inabalável aos “donos do mundo”, em favor dos subalternos; a do equilíbrio radical de minhas tomadas de decisão; a do sentimento de ternura incessantemente ampliado pela beleza da vida e pela capacidade revolucionária do amor.

Mesmo sob a fúria do capital e das barbáries por ele diariamente levadas a cabo, nunca jamais me dobrei. Não mudei de lado, não fui condescendente em momento algum, não me vendi. O Senhor é testemunha das lágrimas, das retiradas de cena para chorar, dos retornos cíclicos aos desertos de batalha. Como outro grande filho seu, o bom baiano Carlos, eu nunca tive tempo para ter medo. O Senhor, contudo, me amparou toda vez que cortei na própria carne para não perder a coerência e os princípios que me movem. Ao mesmo tempo, sabedor da teimosia que reina neste meu coração incuravelmente rebelde, ofertou-me sombra e alternativa de sobrevivência à minha família. Pelo tanto que me vi atravessar quase incólume pelos campos de conflito da vida, flagrei-me convencido a acreditar no Senhor de modo irresoluto, confiante em que eu estava a fazer a coisa certa. Essencialmente por isso, mantive-me em pé, apesar dos tantos golpes duros e baixos.

O Senhor nunca me negou a doce acolhida. Seja como for, eu encontro um cantinho para, taciturno, descobrir as melhores palavras a usar. Não obstante a radicalidade das opiniões que expresso – de acordo com aquele clássico sentido de ir às raízes das questões -, preocupa-me preservar o equilíbrio, não afugentar a nobre diferença daqueles que pensam de outro modo, mas, no desentendimento básico da convivência política, desejam encontrar também as saídas mais pertinentes. O Senhor, criador do claro dos dias e do escuro das noites (e plenamente consciente das múltiplas combinações de luz e treva nos labirintos da alma humana), ensinou-me o poder da serenidade, da sensatez, daquilo que o saudoso Hélio Pellegrino chamou de “lucidez embriagada”. Essa condição aberta e a um só tempo repleta de convicções me agraciou com sua onda suave de paz nas profundezas do espírito, Senhor.

É no amor, entretanto, que está tudo que retirei de vibrante e eterno das suas lições nesta vida. Não me refiro ao amor retórico, daqueles que dizem pensar nos outros e agir em proveito de si mesmos. Também não falo do amor exclusivista de indivíduos que instrumentalizam as pessoas para realizá-las como coisas e em favor de temas mesquinhos, efêmeros, falsa e ilusoriamente prazerosos. Não, nada disso. Eu reporto ao amor que me esforço por experimentar na letra do dito e do escrito, na ação que executo ao me dirigir ao mundo pela defesa intransigente da felicidade, do encontro solidário, do prolongamento da saúde do planeta. Entre qualquer coisa e qualquer ser humano, o amor se expande e se torna invencível quando opta pela segunda e única possibilidade. Tudo que nos desumaniza, provou-me o Senhor, não é nem jamais será amor. 

Por amor, decidi levar uma vida modesta e em quase todos os aspectos bastante frugal. Em vez do êxtase e da ansiedade diante das seduções intermináveis do mundo convertido em mercado, fiz-me humano num terreno áspero a sentimentos e avesso a grandes valores. Contudo, assumi o compromisso de defender e cultivar esse idealista estilo de vida. Não me arrependo. Graças a isso, eu creio, fui digno da mais elevada demonstração de amor do Senhor.

De fato, 2014 já é o início de tudo para mim. Recomecei aos quarenta para atingir a eternidade. Sabe, Senhor, acho que agora entendo o significado de viver para sempre, da importância da obra que nos conduza à lembrança de todas as gerações. A você, Senhor, entreguei meu coração para permanecer entre aqueles que elevaram sua promessa de paz e fraternidade – e desde já torno pública minha gratidão por 2014, o ano em que tive a prova da sua generosidade e da força da sentença poética que diz: “Quem tem um sonho não dança.”

Muitíssimo obrigado, Senhor!

31 outubro 2014

O lobo atrás da porta


Quantas versões tem uma história? De quantas verdades é feita uma única realidade? Em meio à diversidade de opiniões, em quem confiar? Sou dos que acreditam que, quando todos dizem estar corretos, nada mais há para saber, nada mais há para definir como sensato e inteligente.

“O lobo atrás da porta”, filme dirigido e roteirizado por Fernando Coimbra, em 2013, é sobre os incontáveis conflitos de versões apesar dos quais a vida continua a seguir em frente. Nas tramas supostas ou evidentes em que se vê o triângulo Rosa, Bernardo e Sílvia, difícil é apontar o justificável ou mesmo o compreensível. A cada instante, a preferência do espectador migra das desrazões de uma personagem para as de outras, concluindo que toda convicção inabalável sempre será uma tomada precipitada de consciência.

Ambientado num subúrbio carioca de encantos e decadências, “O lobo atrás a porta” é uma dessas produções do novíssimo cinema brasileiro que enchem de orgulho todos que acreditam na arte e na cultura do país. Convicto em suas pretensões, as quais não têm por que ser modestas nem terceiro-mundanas (no sentido pejorativo dessa palavra), o filme é atraente e perturbador. Além das questões sobre fatos e versões, verdade e realidade, ele inspira também inquietações sobre a condição humana. Uma pergunta, no decorrer do filme, se separa das tantas que burilam nossas ideias e salta aos sentidos: afinal, por que insistimos tanto em decepcionar todo o mundo, inclusive a nós mesmos?

Num jogo de cena previsível e a um só tempo acovardado por não assumir desdobramentos nem a força dos desejos que o põe em movimento, o fato é que Rosa ama Bernardo, que por sua vez ama Rosa e também Sílvia, que se cansou de Bernardo e até insinua ter encontrado um pouco de si em Rosa. No início e no fim, contudo, Rosa - vivida por uma Leandra Leal deslumbrante e desconcertante – quer apenas um amor para recomeçar. Talvez apenas começar...

No xadrez das peças que para sobreviver precisam conhecer antecipadamente as estratégias não declaradas do adversário, a tragédia se consuma e, como reza a tradição, surpreende e escandaliza. No limite dos horrores, num filme que cutuca feridas expostas e camufladas, assumidas e envergonhadas, a evidência incontestável é de que rosas são flores que merecem um lindo jardim e olhos cuidadosos. Aos jardineiros distraídos ou indiferentes, seus espinhos jorram veneno letal.

Um filme daqueles dos bons mesmo.

28 outubro 2014

Pão bolorento. Ou: as aparências enganam


Um velho adágio do senso comum costuma afirmar que, quando desconhecida ou ignorada, a história tende a ser cruel e implacável. Não olhar para trás é sinal de que os caminhos pela frente serão cheios de pedregulhos – e nada, portanto, terá como garantir algum alívio no horizonte.

A defesa liberal dos intocáveis mercados, que pressupõem espíritos empreendedores destemidos e avessos à autoridade coletiva, é uma das tantas vítimas dentre os que ignoram o fardo do tempo histórico. Entre o final dos anos 1920, após o fim do mundo promovido pela sanha do lucro incessante, e o início da década de 1980, os liberais cultivaram um autoimposto silêncio obsequioso.

O que todos pensavam – ou poderiam ter pensado – ser evidência de uma dura autocrítica acabou por se revelar a hibernação de um monstro. Desperta na era Thatcher e Reagan, a fera neoliberal (que de nova não tinha nada) voltou para culpar os direitos dos trabalhadores, o patrimônio público e a regulação da insana e predatória atividade mercantil pelos males do mundo. Pela segunda vez no mesmo século, produziu suas típicas e previsíveis atrocidades. Saiu de cena e, assustadoramente, está de volta.

É certo que, para retornar, os condenados pela história precisam apontar criminosos supostamente ainda mais sanguinários e terríveis. Não há como obter indulto sem alcaguetar alguém por algo mais grave, que, afinal, justifique, de algum modo, a anistia ou a leniência. Por isso, o liberalismo de hoje é resultado de um estranho acasalamento com o conservadorismo moral e o sentimento anticomunista. Reunidos, depois de uma inconfessável orgia, os algozes do tempo dizem que a tragédia é vermelha, estatal, imoral e autoritária, um atentado contra a família, as liberdades individuais e as almas generosas daqueles que querem promover o desenvolvimento e são impedidos pelos “comedores de criancinhas”.

Numa época de vidas mais virtuais que reais, consumista, fragmentada e pouquíssimo afeita a profundidades de ideias e ideais, os liberais, conservadores e anticomunistas aprisionam em suas fileiras delirantes os mais jovens, sobretudo; ao mesmo tempo, abrem as portas dos calabouços onde estavam confinados, pela vergonha, os ancestrais do ódio, da intolerância e do pensamento mágico, que querem resolver tudo à bala, sem argumentos nem demonstração de possuir um mísero sinal de vida inteligente.

A sabedoria popular é prodigiosa: novos ou velhos, esses seres são, por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.

21 outubro 2014

TODAS


Todas povoam
minha imaginação;
é um arco-íris
de tons, uma geometria
infinita
de curvas sempre
sedutoras.

Não me abandonam
um só instante;
falam comigo sem
nada dizer,
apenas insinuação,
existência,
coração batendo
insanamente.

Gosto
das que são
belas
de todas as
formas –
imprescindível
é que digam
à minha imaginação
que irão me amar
até o fim,
até o início
de tudo.

Dedico minhas
melhores energias
a todas,
uma de cada vez,
várias ao mesmo
tempo,
uma homenagem que
nunca cessa
(precisarei
parar um dia?)

Seu veneno mata
e alimenta
meu corpo,
meu espírito:
desconcentra-me,
impede-me
aniquila-me –
ao mesmo tempo,
o prazer que sinto
jamais poderá
ser castigado.

Há delírio
no mundo
inteiro
de suor
e paixão que
faz girar o vício,
a dança
e o beijo inexistente.

20 outubro 2014

O ódio à democracia


Ensaios são escritos em que o autor não precisa se esconder entre rigores de estilo e academicismos de forma e conteúdo. Um ensaísta é um cidadão livre e tanto melhores serão seus textos quanto mais evidente for a responsabilidade com a qual os redige. Afinal, a liberdade é condição da responsabilidade e a convicção com que se escreve é uma consequência da mais pura liberdade.

É livre o mais recente ensaio do francês Jacques Rancière publicado no Brasil, intitulado corajosamente “O ódio à democracia”. A iniciativa da igualmente destemida Boitempo Editorial, uma editora de belíssimo catálogo do mais nobre artesanato intelectual do pensamento crítico e progressista, surge em boníssima hora, na turbulência do debate antipolítico deste tenso período eleitoral.

“O ódio à democracia” é, para além de um ensaio livre, responsável e tomado por generosas convicções, um livro em defesa daqueles que resistem na preservação dos sentidos mais gloriosos da palavra “democracia”. Em campo nessa árdua tarefa, Rancière não vacila: os que odeiam veementemente a democracia costumam posar como seus únicos e mais honestos paladinos.

A democracia nunca foi consenso na história. Dos gregos que a propuseram aos pós-modernos que vivem a relativizá-la, ela pertence de fato ao povo e está estreitamente vinculada às lutas das minorias e pela ampliação de direitos e conquistas em prol de mais e melhor igualdade entre os sujeitos do mundo. É nesse sentido que Rancière atesta não vivermos uma era democrática, e, sim, um tempo de oligarquias e de um direito que reduz valores universais a interesses mesquinhos e privatistas.

Encalacrado nas estruturas de poder e de difusão da informação - rechaçando a democracia -, o ódio é contra o povo e suas formas de ver e ser. O fechamento de instituições e das “grandes rodas” ao universo popular não tem nada de democrático. Antes, o contrário: limita a democracia e a engaiola num conservadorismo vil, que insiste apoiar a tese de que a soberania popular irá enterrar a civilização. É por isso que existe tanta ojeriza à ascensão social dos mais pobres e à ocupação dos espaços públicos por aqueles que foram entregues à eternidade das senzalas. Irônica e tragicamente, os arautos da democracia que não é democracia detestam repartir benesses e se solidarizar, ampliar horizontes e alterar sentidos. O ódio à democracia é, de muitas maneiras, um sentimento patológico de aversão à humanidade.

Enfim, um livro obrigatório! Um ensaio para o nosso tempo!

13 outubro 2014

Utopia: a história de uma ideia


Leandro Konder, um dos intelectuais vivos mais brilhantes do país, diz que “... a utopia é uma fonte que alimenta inquietações generosas, nobres ímpetos justiceiros e uma preciosa disposição para a busca da felicidade universal. Nela se revelam aos seres humanos aspetos novos de suas carências, anseios, fantasias e desejos.” Aprecio demais essa definição de utopia. Considero-a bastante abrangente, sutil, recheada de pontos para análise. Nas ricas palavras de Konder, a utopia se revela prenhe de história, uma gigantesca ideia.

No livro “Utopia: a história de uma ideia”, do historiador britânico Gregory Claeys, lançado há pouco no Brasil pelas Edições SESC-SP, a definição de Leandro Konder parece se desdobrar em vários capítulos, minuciosos, numa obra de arte que é item obrigatório na biblioteca de todo coração revolucionário.

Em mais de duzentas páginas fartamente ilustradas e coloridas, impressas em papel especial, o livro de Claeys viaja pela história da ideia utópica, dos mitos clássicos da religião e da filosofia à ficção científica literária e cinematográfica.

Por meio de uma linguagem rica e extremamente acessível a todos os públicos, “Utopia: a história de uma ideia” resgata a fonte das inquietações generosas que ousaram praticar a igualdade; desvela os nobres ímpetos justiceiros movidos a liberdade e sonhos de virtude; condecora a preciosa disposição de homens e mulheres que não temeram enfrentar as forças da ordem em nome de uma felicidade de fato para toda a humanidade. No caminho, bastante sinuoso e empedrado, o livro não oculta os equívocos nem as distopias, o cruel avesso das lutas fraternas dos povos da Terra.

Entre filósofos, líderes religiosos, comandantes revolucionários e mentes inconformadas, a utopia foi arte, pensamento, ação e reação. Acima de tudo, foi matéria-prima de almas resistentes e sempre abertas para o novo. Lendo atentamente o texto de Gregory Claeys, incomoda uma já velha pergunta: “Onde estão as utopias dos nossos dias?!”

Bela e farta em personagens e eventos, enriquecida com uma arte plural que ilustra a multiplicidade das insistentes ideias do tempo, a obra de Claeys sobre a trajetória da utopia como ideia merece um lugar de destaque não somente na estante de livros de cada um de nós, mas, muito mais, num local bem franco e visível em nossas casas e corações.

06 outubro 2014

O abismo prateado


O filme de Karim Aïnouz “O abismo prateado” versa sobre o silêncio que há em nós e com o qual nos acostumamos de forma despreocupada e indiferente. Livremente inspirado na canção “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque de Holanda, a produção de 2013 pondera a respeito do repentino, aquele instante em que o chão falta aos pés.

Afinal, afirma a canção, existe um longo caminho a percorrer entre a sensação de abismo à porta de nossa vida e o refazer da história. Aquele que parte, para o sim e para o não, sai à cata da sua felicidade. Se for alguém que saiba e mereça amar, deseja que quem fica também seja feliz. Ainda assim, todos os que partem se julgam insubstituíveis e vitais, alegando ser de fato a razão da alegria dos que permanecem e precisam continuar. No caráter minimalista de “O abismo prateado”, a esperança repousa nos detalhes da existência de quem fica e tem urgência em encontrar um sentido para a vida, um que seja bem mais do que uma ilusão.

Vivendo Violeta, a esposa que fica de um marido que parte, Alessandra Negrini é um espetáculo comovente. Comove porque é diva e deusa; comove porque transmite a dor inquestionável dos que ficam e não sabem o que fazer nem para onde ir; comove porque, apesar do tom desesperado dos gestos, faz da indignação inicial diante da tragédia um elemento central para erguer a fortaleza tranquilizadora da decisão final.


O filme de Aïnouz dá a canção de Chico Buarque imagens que ampliam o alcance das palavras e dos versos. A revanche no trecho “Olhos nos olhos / Quero ver o que você faz / Ao sentir que sem você eu passo bem demais” não aponta o desejo de Violeta reencontrar o marido. Antes, destaca a feminina coragem que soube encontrar a si mesma depois de anos de uma vida conjugal aparentemente normal. Na normalidade dos dias residia um medo que teve de conhecer a anormalidade para ser superado e se converter em confiança e liberdade.

Alessandra Negrini, ao sorrir tão enigmaticamente quanto a Monalisa, de Da Vinci, desvela a exuberância de sua personalidade. Talvez seja um exagero afirmar que Alessandra é maior que o filme. Talvez. Mas me parece indiscutível supor que nem Chico Buarque materializaria sua canção tão bem quanto ela. O diretor Karim Aïnouz revelou-se um midas: tornou ouro uma canção que já era uma joia – e acabou fazendo arte!

26 setembro 2014

Só as melhores palavras


Juan Carlos Onetti (1909-1994), um gigante escritor uruguaio, afirmou certa vez que só deveriam ser ditas as palavras que fossem melhores do que o silêncio. Há sabedoria em excesso nessa tão contundente sentença.

Na aclamada era da informação, fala-se de tudo o tempo todo. Os meios se multiplicam numa razão quase inversa à da tomada de consciência pelos sujeitos do mundo. Talvez por se julgarem devidamente antenados, plugados e conectados, os indivíduos se esqueceram de que vivem uma realidade desigual, numa sociedade atravessada por distinções e múltiplos mecanismos de exercício do poder. Em toda parte, a exploração do corpo e do espírito, a apropriação abrupta da riqueza coletiva por meia dúzia de endinheirados, a futilidade das formas e o assombro dos conteúdos, tudo inspira cuidado, requer muito mais do que meras fontes de informação.

Arrisco dizer que o silêncio urgente de Juan Carlos Onetti brada pela companhia da indignação.

A indignação, símbolo da rebeldia, necessita de informação, gente sintonizada, pluralidade de meios, abundância das mensagens. Mas precisa de muito mais também: para não se converter em histeria e gritaria sem vigor, a indignação deve ser antecedida pelo silêncio, essa matéria-prima do justo apreço, da reflexão pausada, da inquietação profunda das ideias. Quando num bom arranjo com o silêncio que dá vida à crítica inteligente, a indignação transforma informação em ação, palavras em promissora realidade.

Nosso tempo, inflamado pelo mundo virtual, estendeu opinião e juízo a um número monumental de indivíduos. Cada um parece ter o mapa da mina da verdade. O problema, contudo, é que a opinião e o juízo pós-modernos prescindem do silêncio, põem no mundo qualquer coisa, sem reflexividade nem pertinência.

Acredito que uma sociedade efetivamente livre deva ampliar vozes e lutar incansavelmente para que novos direitos enriqueçam o número dos que têm vez e valor. Essas conquistas, no entanto, não podem ser a consagração do descaso e da indiferença pelo outro, seus sentidos e razões.

Na dúvida - também ela um elixir do bom senso -, ideal é que nos abriguemos no silêncio. Lá aprendemos o que é melhor dizer ou escrever.

24 setembro 2014

Os anticomunistas


O sentimento anticomunista é ingênuo e alucinado. Observando panoramicamente a imprensa brasileira, percebe-se sua já vasta presença em todo tipo de veículo. Vinte e cinco anos depois da queda do Muro de Berlim, mais de duas décadas convivendo globalmente sem a bipolarização Ocidente versus Oriente, meio século mais tarde das denúncias contra Stalin e os malogros da Revolução Cultural Chinesa, o anticomunismo ainda expõe sua mania de perseguição e insiste em alertar o mundo contra a ameaça vermelha. Em crônica recente e sublime, o escritor Zuenir Ventura foi feliz e contundente: “Acabar com o comunismo até que foi fácil; difícil será acabar com o anticomunismo.”

De que se alimenta essa fantasmagoria? O que de fato veem no lugar do que consideram ser os comunistas e suas diatribes? O que quer esconder essa percepção tão equivocada e anacrônica da vida e da história?

No Brasil, em particular, o fenômeno tem parcela de sua origem na ascensão social de milhões de cidadãos, em parte patrocinada por políticas públicas postas em prática por um partido identificado à esquerda e ainda no poder há mais de um decênio. Todo esse tempo foi suficiente para fazer germinar na vida social sementes ancestrais de nossa mentalidade colonial, movida pelo ódio ao outro e avessa a toda forma de democratização real do país. Além disso, prevalece entre setores médios e abastados da sociedade brasileira um medo irracional das massas, cuja foz costuma ser a mesma do ranço, da irresponsabilidade e da violência.

Os anticomunistas asseguram em suas colunas na grande imprensa e nos seus espaços no território livre da internet que os esquerdistas se disseminam por toda parte, pregando a luta de classes, o horror ao livre mercado e a raiva contra quem empreende e trabalha. Ao mesmo tempo, os delirantes mais exaltados afirmam que o Brasil e a América Latina são laboratório de um pérfido complô internacional que deseja converter o continente numa nova Cuba ou numa China ocidental. Tal qual o personagem infantil do filme “Sexto Sentido”, exibido na grande tela no fim dos anos 1990, os anticomunistas veem muitos fantasmas, só que, em vez de mortos, como o garoto da película, enxergam comunistas até dentro dos armários de casa.

O interessante é notar que os comunistas (que hoje teriam dificuldade de lotar uma Kombi) mudaram muito desde o final da Guerra Fria – e até mesmo antes, como o provam as experiências do eurocomunismo e da luta democrática contra as ditaduras civil-militares orquestradas e financiadas pelos Estados Unidos na América Latina. Já os anticomunistas permanecem exatamente os mesmos: preconceituosos, avessos à história e à inteligência, procurando nos outros a razão da miséria insuportável de seus espíritos.

18 agosto 2014

Animais em mutação


O filósofo húngaro Georg Lukács (1885-1971) dizia que, em termos de marxismo, a única ortodoxia aceitável é a do método. A frase, aparentemente dirigida a especialistas, carrega, se bem traduzida para o mundo dos vivos, um sentido extraordinariamente fecundo e oportuno.

O método de Marx é a dialética, essa semente lançada aos dragões que quer provar que a vida é pura contradição. Na união e na desunião, o mundo é a síntese de contrários, enfrentamentos, ásperas e às vezes inconciliáveis oposições. O velho Marx foi ao universo do trabalho validar a dialética que encontrou, na sua destemida vida de estudante, em Platão e Hegel. O autor mais célebre do nosso tempo – afinal, ainda é tempo de resgatar Marx – tirou a dialética do mundo do espírito e a ela ofertou o mundo real dos homens. Percebeu, então, que a realidade é dura e difícil, leve e suave, rica ou pobre, marginal ou exuberante, tudo a depender dos conflitos a investigar, dos interesses a desnudar, dos seres humanos a destacar. Enfim, o mundo não é; torna-se – e não para nunca de tornar-se mais uma vez e de novo.

Desde Marx, um pensador do século 19, muita coisa mudou. E se ele estava realmente certo, vai continuar mudando. No entanto, a investigação da vida por meio daquilo que se oculta e revela, interesses e potências, forças e resistências, talvez se faça como a única incontestável permanência neste fluxo contínuo de idas e vindas que é a travessia humana.

Aqui, ali e acolá, é possível e desejável reinventar-se. Ora, se tudo muda, a essência de quem quer fazer diferente só pode ser a reinvenção. Uma mudança de si, para que haja a diferença em si e uma transformação radical para si. Foi o saudoso filósofo brasileiro Carlos Nelson Coutinho (1943-2012) quem ensinou: “Para que não nos tornemos animais em extinção, nós, marxistas, precisamos nos converter em animais em mutação.”

Há uma longa tradição do pensamento e da ação devedora a Marx. Revisitar para reavaliar essa longa história, aprimorando o que há de bom e cortando na carne e na alma o que há de ruim (fortalecendo a autocrítica e fugindo ao triunfalismo inócuo), é tudo em nome de que se pode ser marxista de verdade.

11 agosto 2014

Punk's not dead


Um bom sebo pode promover grandes roteiros de viagem. Sempre que posso, permaneço algumas horas nos sebos, pulando de século em século, alternando entre críticas, revisitando diferentes histórias, sem perder de vista a hora do necessário e inevitável retorno.

Há algum tempo, depois de uma longa viagem num dos pouquíssimos sebos da cidade, voltei para casa com um velho especial em quadrinhos de Bob Cuspe, que o cartunista Angeli eternizou nos anos 1980 na revista “Chiclete com Banana”.

Adolescente, eu adorava Angeli, Glauco, Laerte, Fernando Gonsales e os quadrinhos marginais. “Chiclete com Banana”, “Geraldão”, “Piratas do Tietê” e “Níquel Náusea” eram misturados aos cadernos escolares e lidos em grupo, nos intervalos das aulas. Havia uma escola dentro da escola naquelas revistas: nossa formação, a da minha geração, era devida às duas, à oficial e à alternativa.

Bob Cuspe era o nervo exposto daquele mundo aparentemente certinho em que vivíamos. Suas cusparadas medonhas expressavam o avesso, a hipérbole do caos, a tentativa de dizer que estava tudo errado, que tudo era falso... Bob Cuspe era nossa sombra, aquela projeção proibida da gente que a escola e o mundo censuravam com suas mentiras e seus discursos civilizados.

Bob Cuspe, como bom punk, morava no esgoto, em meio à sujeira que escondíamos embaixo do mundo. (Uma sujeira, é preciso dizer, que aduba o que tem viço no mundo das aparências.) Acho que foi com Bob Cuspe que entendi a hipocrisia pequeno-burguesa, o cinismo dos ricos, o anestesiamento dos pobres, a banalidade da juventude. Graças a Bob Cuspe ingressei numa banda de rock, cursei Ciências Sociais, fui para a esquerda e aprendi a gritar “Punk's not dead!”

Em casa, naquela noite que se seguiu à tarde de viagens pelo sebo, passei horas relendo Bob Cuspe. Lembrei-me de várias tirinhas – elas ainda estão vivas na memória. Percebi, então, que o velho punk não está vivo somente no que digo e faço, mas também (e principalmente) num gigantesco imaginário alimentado por rebeldes e sonhadores que não entregam os pontos nem desistem de lutar. Muita coisa tem mudado, outras tantas decerto irão mudar. Uma, contudo, permanece intocada: ainda posso gritar com satisfação “Punk's not dead!”

01 agosto 2014

Matei minhas musas


Não tenho mais musas.
Matei-as de uma só vez.
Nem de papel, nem de telas virtuais:
sou agora das criaturas de alma.

Não farei mais homenagens
àquelas que não têm voz,
não se dão às paixões,
não se permitem ousar.

Mulheres sem carne,
além de não ter vida,
não têm cheiro,
volúpia,
olhar.
Tudo é falso,
artificial na artificialidade
de suas palavras vazias,
tristes,
desamorosas.

Não tenho mais musas.
Matei e enterrei todas.
Longe de mim.

23 julho 2014

O mundo é logo ali


A cantilena nem é mais tão nova: vivemos num mundo cada vez menor, graças aos avanços da tecnologia e às inovações nos transportes e nas comunicações.

Diariamente, a TV e a internet desnudam o universo diante dos nossos olhos (seríamos meras cascas de noz?). Não há mais fronteiras a derrubar. Não há mais culturas a desvendar. Não há mais nada a conhecer.

Neste mundo aparente e sugestivamente tão integrado e fascinante, o que parece não haver também são crises, contradições e conflitos. Já houve quem num passado recente, eufórico à frente de uma malfadada ideologia de estado, decretasse o fim da história, postulando que o futuro seria um infinito cenário de acomodações, pequenos ajustes e tímidas reformas. O sonho, enfim, terminara.

O mundo em que vivemos é, de fato, fabricado bem longe de nós. Os arranjos políticos e institucionais, a eleição dos termos de produção e consumo, o papel dos povos na partilha do planeta, tudo isso é discutido, avaliado e tomado como certo nas assembleias dos donos do mundo, nas reuniões de cúpula do G7, nos encontros anuais do Fórum Econômico Mundial - nos belos alpes suíços - e nos jantares regalados dos agentes do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Lá se decide, aqui se vive.

Nas decisões e pretensões globais não aparecem a diversidade e as tensões locais. Na frieza dos números que estabelecem metas, impõem taxas, exigem quesitos, o ser humano e toda a dramaticidade do sujeito não têm nenhuma importância. Em nome de estratégias unilaterais de alinhamento de condutas e perpetuação da ordem mundial, populações de continentes inteiros são prejudicadas, anuladas, perturbadas em seus lugares históricos de vida, trabalho e luta.

Nesse complexo ritmo de “unificação” do mundo, fato que agride covardemente o discurso de respeito e garantias de integridade da pluralidade humana, a política vai se tornando irrelevante, uma vez que as instituições nacionais são sequestradas pelos poderosos chefões do vil metal para servir aos organismos financeiros de seus grupos de negócios, exploração e especulação. Partidos, sindicatos e toda sorte de representação coletiva desaparecem perante a truculência das moedas globais e suas transnacionais sedentas por realidades sem direitos nem resistência.

Não sei se existem saídas, mas é meu dever como sujeito-esperança acreditar nelas. Acreditar, procurar e divulgar os caminhos desse exercício. Por ora, continua válida demais a velha sentença: “Devemos agir localmente e pensar globalmente”.

16 julho 2014

Solidão


Não sei se a solidão é um exílio voluntário ou uma espécie de castigo que a vida aplica sobre incautos, pecadores e egoístas. O que sei é que é completamente possível sentir-se só em meio a multidões e também viver abraçado pela vida em silenciosos e distantes refúgios. Acima de tudo, a solidão é uma forma de encarar o mundo.

Aqueles que se fazem acompanhar de boas ideias e de importantes realizações para o gênero humano nunca se sentem sozinhos. A produção de histórias faz da experiência cotidiana um baú de preciosidades. Acertou em cheio Gabriel García Márquez quando afirmou que a vida não é o que se vive, mas sim o que se recorda. Quem não tem de que se recordar é retirado de sua própria solidão e condenado, paradoxalmente, a viver sem nenhuma companhia.

Há tanto a rever em nós e nos outros que a desculpa da solidão não pega, não tem valor. Livros, músicas, filmes, cenários do planeta inteiro, tudo é alma habitando nossos corações e mentes. Como alegar abandono quando se pode aproveitar a incrível sorte dos romances de Gabo, Onetti, Hemingway, Coetzee e Kafka? Seria justo reclamar de solitude numa realidade que nos dá a toda hora a música dos Beatles, dos Stones, do Bob Dylan e do Pearl Jam? E o que dizer da poesia de Manoel de Barros, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade? Que tipo de loucura é dizer-se só no instante em que toda essa gente nunca nega seus versos e ritmos a ninguém?

Na infância, lembro que meus pais se preocupavam um pouco além da conta comigo. Eu passava dias mergulhado em minhas revistas em quadrinhos. Mais tarde, nos tumultuados anos da adolescência, passei a fazer a mesma coisa em relação aos memoráveis discos de vinil de rock e às fitas VHS com grandes clássicos do cinema. As rugas de desassossego dos meus pais eram tolice: eu estava muitíssimo bem, sendo apresentado ao mundo pelos mais interessantes e destacados tipos humanos.

Toda vez que me dispunha a ver gente de carne e osso, procurava nelas, antes de tudo, corações iluminados. Foi assim que encontrei amigos generosos e sábios que me indicaram mais coisas para ler, ver e ouvir. Até hoje minha vida é uma ponte aérea constante entre a ficção e a realidade – de cada uma dessas paradas aprendo a como me sentir melhor e mais à vontade no mundo.

Nunca estou só. Sempre me refaço em minhas ideias. Vivo rodeado de gente, ainda que eu esteja aparentemente sozinho.

14 julho 2014

Educação e Sensibilidade


"La Douleur" (1902), de Pablo Picasso

Fui, sou e serei um incansável defensor da educação como locomotiva de desenvolvimento social. Até por considerar anacrônicos os modelos civilizatórios que apostam no sucesso econômico como sinônimo de progresso, prefiro investir meus esforços de pensamento e ação na constituição de mentalidades livres, sem preconceitos, que estimulem o bom uso da palavra e questionem com inteligência os atropelos sofridos pelo universal valor da democracia. É nesse sentido que percebo insubstituível o papel da escola em nossa sociabilidade.

Devo admitir, contudo, que a educação não é capaz de operar todo tipo de milagre. Como reflexo dos valores em circulação na vida social, a escola educa para integrar, permitir acessos, reproduzir o ethos geral da vida em comunidade.

No atual momento de nossa vida líquida, para falar com o instigante sociólogo Zygmunt Bauman, o transitório vale mais do que o duradouro, o competitivo vale mais do que o cooperativo, o ter vale mais do que o ser, a apatia vale mais do que a empatia, o desinteresse vale mais do que o engajamento, o divertido vale mais do que o importante, o agora é infinitamente mais valioso que o amanhã.

Assim, educação e sensibilidade são apartadas, passam a não ser mais almas gêmeas. Na escola, em se considerando um “bom” e “organizado” ambiente educacional, aprendemos números, regras, formas, eventos e fenômenos que tornem possível crescer e fazer girar a roda da fortuna. Raras vezes levamos vida afora os amigos e os aprendizados mais humanos dos tempos escolares. Isso porque, numa dura vida em um mundo de trocas entre coisas e seus proprietários, somos afastados das lições de afeto e sensibilidade.

Do início ao fim da vida, perdemos a capacidade de indignação, acostumamo-nos com o barulho, a feiura e a errância cotidiana. Tornamo-nos insensíveis à dor e também à alegria dos outros, não obstante muitas vezes ostentarmos diplomas e currículos escolares de todas as técnicas e sortes. Educados, talvez. Sensíveis, humanos, dispostos a mudar o mundo para vermos o avesso de tudo e de nós mesmos, ainda não.

20 junho 2014

Depois do abismo


para a UEL (com um amor maior que eu)

Existem reticências 
à beira do abismo, 
um medo das coisas,
uma crença quase
insultuosa
no pior.

Melhor então
é não se mover,
correr da história,
capturar o que há,
conformar-se com
o que não há,
nunca houve,
poderia até haver,
não fossem os três pontinhos
à beira do abismo...

Por que o medo?
(esta é a melhor palavra?)
Defronte dos sonhos,
a realidade precisa
vencer?
Volto no tempo,
revejo minhas velhas certezas
maximalistas,
e indago:
Que fazer?

Preciso confessar 
que já chorei diante 
do abismo,
que já tive medo de 
sentir medo.

Ao contrário de meus heróis,
tive tempo de sobra para
ter medo...

Mas pude aprender com 
o tempo, com as noites
intermináveis
à beira do abismo, fitando
as profundezas, desafiando
meus fantasmas, iludindo
meus demônios.

Um grande eco,
com som de provérbio,
sempre me repetiu
que tudo viria aos quarenta –
e do primeiro tempo.

Que bom ter tido tempo,
ter poupado um pouco
de seus enigmas.
Agora é hora de gastá-lo
(ganhando-o ainda mais)
longe do abismo,
depois do seu final.

30 maio 2014

O flâneur


A mais famosa faixa de pedestres do mundo, lugar que um verdadeiro flâneur certamente observaria eternidade afora.

Num pequeno livro de reflexões, escrito no formato de cartas aos leitores e intitulado “A resistência”, o intelectual argentino Ernesto Sabato lamenta profundamente a pressa que nos envolve no mundo contemporâneo. Em permanente estado de ansiedade à flor da pele, os indivíduos não observam mais a vida ao redor; perderam a capacidade de ver, ouvir e dizer com serenidade e desejo. No mundo da velocidade que tenta inibir as restrições ao consumo e estimular os ímpetos em relação às coisas e suas armadilhas, cada um é apenas um, indiferente e atordoado.

O flâneur, que em francês significa simplesmente “vagabundo”, era o oposto desses átomos dispersos e reversos dos dias atuais. Charles Baudelaire, pensador de marginais (e, por favor, tentem entender esse termo de forma elogiosa e admirável), via o flâneur como o sujeito que experimenta a cidade, sua gente, suas luzes e labirintos. A busca do flâneur é pelo espaço ideal – parques, praças, lugares em que humanos se reúnam para fugir à transitoriedade urbana. O olhar do flâneur quer apenas um abrigo no caos da cidade. É por isso que, após longas jornadas por becos e vielas, ele se transforma no narrador de histórias de gente à beira do abismo.

O filosofo alemão Walter Benjamin, um dos maiores e mais importantes pensadores do século XX, compreendia o flâneur como um fenômeno típico da modernidade. Em meio à multidão, seu caminhar era leve e despreocupado; havia nele uma autonomia invejável, uma poesia rara. O flâneur, acima de tudo, era uma vida livre na selva de neoescravos baldados e maltratados entre avenidas e edifícios, filas e desamor.

Volto, então, a Ernesto Sabato.

Em seu opúsculo precioso, o saudoso hermano se pergunta como é possível viver nas metrópoles do planeta. Barulho, poluição, desencontros, gente à cata de mais posses para se tornar menos humana... O flâneur que sobrevivia ao caos (o arguto caçador urbano de Baudelaire), o errante de refinado olhar (o anti-herói de Benjamin), é figura em extinção. Por toda parte, o que se vê e encontra são seres delirantes, contaminados pela pressa, pelo fugaz e pela falsa promessa de felicidade da sociedade de consumidores. Nesta realidade, a sensibilidade converteu-se em artigo de luxo.

Há poucos flanando pelas ruas do mundo, fabricando versos na escuridão, narrando os sinais do absurdo e, ainda assim, nunca se separando da esperança. No fundo, a vida de cada um é um incessante escrutínio pela revelação do último flâneur, aquele cujo coração merece o amor de todos

27 maio 2014

A resistência


A jovem antidiva estadunidense Riley Reid e a pergunta que seus olhos formulam provocativamente: resistir por quê?

Toda história produz resistência. Não há evento que não gere oposição. No dia em que desaparecerem os indignados e os inconformados, a história desaparecerá.

Por mais duros e difíceis que sejam velhos e novos tempos, lá está a resistência, pequenos ou grandes grupos humanos que almejam diferentes caminhos, propõem alternativas em meio à resignação, ao medo, à desesperança.

Resistir é um verbo de múltiplas conjugações. Resiste-se a padrões e generalizações; a gritos e estrangulamentos; a sorrisos falsos e abraços forçados; a miudezas e avarezas; ao poder e seus gaiatos dependentes. Resistir, portanto, é movimento abrangente e sempre oportuno. Ao resistir, o sujeito se humaniza, clareia o refúgio escuro das ideias proibidas e produz raios em céu azul.

Por ser verbo múltiplo e possibilidade de ação de vasto alcance, resistir é também predicado da pluralidade (a presença de todos num mundo só) e qualidade incontornável da diversidade (um único mundo aberto a partilha entre muitas presenças).

Quanto maior o peso opressor da história (desejo de fazer o mundo todo palco de um só tipo de presença), no entanto, mais coesa e universal se faz a resistência. Para não deixar que o tempo se encerre nem tiranos triunfem, a resistência é capaz de integrar suas distintas parcelas, superando tensões e adiando as inevitáveis crises, para abrir horizontes de liberdade e comprometer-se por dias de sol, noites de lua.

Há um quê de clandestinidade em todo ato de resistência. Mesmo quando tolerados ou tidos por legais, os resistentes condenam o eixo da ordem, denunciam privilégios, atacam as injustiças. A resistência se opõe ao status e não aceita o mundo em seu estado de normalidade. A realidade dos normais é para poucos, detesta muitos, exclui a maioria – a resistência só pode, então, ser força insurgente, personagem marginal da história oficial.

É na rebeldia de todo trabalhador, dos homens e das mulheres que fabricam o universo com força e inteligência, que a resistência encontra seu habitat. Toda vez que o mundo do trabalho se expande por lutas e conquistas de direitos, a resistência se amplia, a história ganha novos capítulos, novos cenários, inéditas personagens.

A resistência, portanto, é o único e verdadeiro motor do tempo.

17 abril 2014

Liberdade


Não há nada
mais intenso
que a liberdade.

Ela arrebata,
encanta,
torna tudo
diferente.

A sensação
de ser (estar) livre
(algo indescritível)
é real,
quando conquista,
surreal,
como justiça,
humana,
se bendita.

É doce
o sabor da
liberdade.

É suave
o aroma da
liberdade.

É pleno
o ser
que (re)conhece
a liberdade.

O melhor
tempo é
o tempo
da liberdade.

03 abril 2014

Desejo


O desejo não é somente a condição expressa de quem conjuga ou experimenta o verbo desejar. É algo muito maior, talvez imensurável, provavelmente pouco afeito a narrativas.

Acredito que sejam pouquíssimas as tentativas bem-sucedidas de explicar o desejo. É uma opinião radical e arriscada, eu sei. A ênfase em que são raras, contudo, se dá pelo fato de que não conheço mesmo nenhuma descrição ou análise convincente acerca do desejo.

Há algo incontrolável no desejo. Ele é invariavelmente irrefreável. A razão, condenada a cercá-lo e contê-lo (impedi-lo, no limite), é uma eterna derrotada. Ainda que tenha de se manifestar diferentemente de seu impulso original – castrado pelas imposições e ameaças do mundo -, o desejo é o animal em nós que não se pode aprisionar por muito tempo. Há uma sede insuprível de liberdade em todo tipo de desejo.

É complexo demais o desejo. Racional, não é. Puramente animal, também não. O desejo despista, planeja seus atos, eleva a frieza das ações ao seu último estágio. Em nome do desejo, imaginamos até subverter a ordem, derrubar muros, enfrentar limites e forças hostis.

O desejo, no entanto, como tudo que se move pelo calor e pelo signo do incontentado, é breve. Saciado (situação provisória que se desfaz a todo instante), o desejo vira dor, arrependimento, medo. Uma vez li: “Desejo o seu desejo”. Julguei que fosse uma declaração imortal de amor. Soube depois que o meu desejo e o desejo de quem expressara tão sedutoras palavras morreram de modo fulminante. Não houve tempo sequer para a saudade. Não houve espaço nem para mais um pouco de um novo desejo.

Desejar é colocar-se em xeque sempre. Aquele que muito deseja se vê tragado pela realidade, paralisado pela ansiedade, atemorizado pelo tempo que não passa e não chega. O desejo é o paradoxo da história. Se desejar imprime movimento, o desejo, quando não se realiza ou logo após seu inebriante regozijo, é sinônimo de fim, uma parada longa e condoída.

No fim – ou no início, tanto faz -, o melhor desejo é o de amar incondicionalmente o que se é. Só.

31 março 2014

Tão minha quanto as estrelas


Ela é síntese de todas as belezas
amor imaginário
uma paixão de épicas realezas
viva, pulsante, guardada em meu relicário

Ora romance
ora libido exaltante
seu corpo é meu porto-seguro
beijo, provocação, o exalar vibrante

Em seus olhos repouso
nos lábios encontro leveza
meu espírito em seus detalhes se realiza
diante da vida, ergo-me fortaleza

Nada em mim existe longe dela
embora ela não exista
povoa meus sonhos apenas
reitera o que sou, sugere que eu insista

Sou, então, movido pelo vir-a-ser
pela necessidade de não desistir
tenho algum receio do amanhã
condenado ao presente sem sentir

Se ela vier, será vida que transborda
amor louco em lances sem fim
companheira de prazer e mundo
pedaço quente do céu dado a mim

24 março 2014

Cláudia


Prefiro chamá-la somente de Cláudia. Era uma pessoa simples, das mais comuns. Por isso mesmo, exemplar e inesquecível.

Cláudia era muito jovem. Aos trinta e oito anos, apesar das durezas da vida, sorria com facilidade, trabalhava muito, negava-se a todo tipo de resignação: dia após dia, olhava adiante, percebia-se vital para quatro filhos do corpo, quatro outros filhos do coração. Não podia ter medo. Não podia sequer pensar parar. Cláudia era uma heroína no mais robusto uso que se possa dar a essa condição.

Cláudia vivia num país cruel e injusto. Aqueles que deveriam “servir e proteger” em sua terra costumavam torturar e matar, facilitar a ascensão dos criminosos, obstruir os caminhos da justiça e da paz. O mundo em volta de Cláudia era movido a ódio de guerra, regido por espíritos de intolerância e vingança. Cláudia, contudo, nunca se permitiu contagiar: pregava por gestos cotidianos de trabalho e amor uma paz infinita.

Cláudia sabia repartir. Eu não sei quanto ela de fato conhecia daquele homem que, numa Galileia distante, dividia pão e agia generosamente, fazendo da compaixão sua história de vida. Mas Cláudia era uma seguidora real daquele santo homem. Do pouco, multiplicava e fazia muito. Da dificuldade, extraía lições e escrevia trechos de esperança no futuro. Da pobreza, metamorfoseava-se na milionária mulher que foi, será, nunca se apagará.

Cláudia foi baleada – e amarrada, arrastada por um veículo da repressão. Não se sabe muito bem por quê. Uns dizem que foi fatalidade, que Cláudia estava no lugar errado, na hora errada. Outros afirmam que o episódio contra Cláudia é o reflexo indecifrável e aparentemente inesgotável de um país que não se sustenta e vive a se esquivar de si mesmo. No fundo, Cláudia é a enésima vítima da banalidade do mal, engordada a preconceito, violência institucionalizada, impunidade e mentalidade torpe, desgraçadamente reacionária.

Cláudia foi uma brasileira. Foi mulher, pobre, mãe, filha, neta e bisneta de quilombolas, rebeldes, cangaceiros e insurgentes. Cláudia é a atualização da luta de quem trabalha e sofre, encontra forças sabe Deus em quê.

Cláudia sou eu, somos todos nós.

10 março 2014

O fim do futuro


Tenho muito respeito e alimento grande admiração pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, conhecido em todo o mundo pelas suas análises sofisticadas, serenas e profundas sobre a sociedade contemporânea, a qual caracteriza como líquida, deveras líquida.

A liquidez do conjunto de nossas relações sociais torna tudo instável, suscetível, pouquíssimo consistente. Tudo em nosso entorno surge, cresce e deixa de existir antes que possamos entender o que está a ocorrer. No mundo líquido-moderno, a parceria mais viçosa é a que se estabelece entre a velocidade e a total impermanência: somos seres fugidios e provisórios. Raras vezes na história foi tão oportuno destacar a velha sentença shakespeariana de Marx: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.

Aos 83 anos, Bauman escreve sem parar. A toda hora vários livros seus são publicados ou relançados. No Brasil, mais de trinta títulos do sociólogo ocupam lugar privilegiado nas estantes das livrarias e na base do melhor que se realiza em termos de crítica social. Bauman é bem familiar aos intérpretes empenhados em refletir sobre a globalização e as andanças atuais do humano pelo planeta que prefere coisas e números a gente e sonhos. Mais do que isso: a obra do autor de “Modernidade Líquida” vem ajudando substantivamente na elaboração de propostas inteligentes e sustentáveis para enfrentar as duras crises de nossa época, implacavelmente múltiplas (econômicas, políticas e culturais) e inegavelmente totalizadoras (não há povo terrestre que desconheça sinais e desdobramentos desta nossa era de incertezas).

Em aparição pública recente, Bauman anunciou que vivemos o “fim do futuro”. Além do caráter líquido das ações humanas, que muda de forma e altera sua crassidade ao sabor dos ventos, as integrações entre os indivíduos já não têm fôlego – vivemos aqui, ali e acolá um dia depois do outro, sem que se saibamos exatamente para onde ir, o que fazer, com quem nos encontrar, em que nos apoiar... Sonhos e planos foram extintos em favor de um imediatismo incontornável e de um pragmatismo aclamado como elixir da felicidade. No centro do mundo residem o consumo ilimitado e o individualismo despudorado, ambos validados como sendo o próprio sentido da vida.

Sem um olhar sobre o outro (e suas outras formas de ser, viver e imaginar), o futuro só pode ser uma ilusão. Cientes da situação aparentemente sem saída que nos rodeia e manipula, pintamos no mapa a desesperança. Só há, então, o presente. Para sempre.