31 janeiro 2014

Qual o valor de um homem bom?

Foto: Andrea Tomas Prato

Já faz bastante tempo que ideias não mudam opinião nem conduta de (quase) ninguém. Ainda que sejam claras e convincentes, bem-compostas e expostas com empatia, as ideias vivem um novo tempo de crise. O mudo atual – pragmático, utilitarista e pautado pelo óbvio do entretenimento fácil – é o inferno astral das grandes ideias e dos debates monumentais.

Viver de bons juízos e opiniões firmes é uma escolha difícil. Penso em professores, escritores, gente que passa o tempo a narrar histórias. Penso um pouco mais: em todos que tenham algo bom a partilhar, em sujeitos que insistem em construir frases inteiras, colecionar palavras, idolatrar a dúvida e perseguir os saberes que põem abaixo muros, preconceitos e insensibilidades.

Qual valor tem hoje um homem bom?

As imagens, por promoverem rapidez e aparente solidez, matam a palavra, que normalmente é a calmaria em si, exigente que é de longas e cíclicas digressões. Enquanto imagens voam e logo se sucedem, as palavras querem ficar, provocar, ressignificar ideias antigas e pensamentos envelhecidos. Diante uma da outra, palavra e imagem até que formam um belo par. O problema é que o excesso de uma representa reduzir ao mínimo o espaço da outra.

Qual o valor, então, de um homem que se diverte com as palavras, que aprecia textos instigantes, que se emociona com a poesia e se realiza diante da prosa encantadora? Num mundo que mais parece um jogo de montar e desmontar, que créditos oferecer a quem prefere construir imagens a partir de palavras, em vez de abolir palavras em favor da efemeridade das imagens?

A defendida intrepidez das imagens e das tecnologias pessoais, que cumprem muitíssimo bem o papel de disseminar um ódio jamais assumido pelos livros, pela leitura, pela emancipação do humano, é atribuído a quem não quer saber de valor nenhum, a não ser daquele que o dinheiro traz para bem perto de almas vazias e em chamas – um incêndio no vácuo inerente ao coração dos indivíduos pós-modernos.

Desapareceu o valor da rebeldia e da resistência. Não há mais o que questionar. Existe tão somente um mundo ao qual se adaptar e do qual extrair vantagens, benefícios e a felicidade dita possível. A pergunta, então, se desloca e se refaz: haverá ainda algum valor num mundo tomado por gente completamente sem valor?

24 janeiro 2014

Bom descanso


Trabalhadores em Nova Iorque (1932), na foto histórica e clássica de Charles C. Ebbets.

Sempre considerei um grande barato ouvir as pessoas aqui do Paraná despedirem-se, após um dia de trabalho ou um encontro casual no final da tarde, no regresso a casa, com um sonoro e bastante sincero “bom descanso”.

O espanto alegre vem do fato de, em São Paulo, onde passei boa parte de minha vida, nunca se ouvir uma coisa dessas; no máximo um “boa noite”, “até mais”, “a gente se vê por aí”... O que eu notava, contudo, é que todas essas expressões eram ditas de maneira indiferente, sem sentimento, sem nada mais que uma questão de mera e simples formalidade.

Aqui, no nosso saboroso “Paraná caipira”, de tantos povos, de tantas culturas, a história é bem diferente: existe, sim, uma importância bem grande ofertada ao tal “bom descanso”, e, ainda que a maioria das pessoas que expressem a doce despedida em questão não se dê conta de seu afortunado significado, ele existe. E é muito, muito interessante.

A história do Paraná é uma epopeia. Por aqui o processo de colonização (formação de terras, fazendas e, mais tarde, comarcas e centros urbanos) foi árduo, exigiu grande trabalho e uma central e decisiva atenção à questão rural, dos campos de plantação, criação e vida, muita vida. Por “n” motivos, dentre os quais se destacam a questão de trabalho intenso, baixa remuneração e parcos investimentos em educação e respeito à dignidade dos trabalhadores... a população paranaense é pobre, nossas cidades são deficitárias em geração de emprego e renda e os salários, historicamente, permanecem baixos. Assim, cientes de quão caros e difíceis são os dias nossos de cada semana, mês e ano, geração após geração, os trabalhadores são sinceros ao desejar aos seus parceiros de luta dura pela vida o “bom descanso”. É, sem dúvida alguma, uma fala que exprime alento, solidariedade, uma esperança de o dia seguinte ser melhor, menos desgastante, mais proveitoso. O “bom descanso” diz: amanhã tem mais, amigo; aproveite para renovar suas energias; não esmaeça, não desista; um dia, quem sabe, amigo, tudo será diferente... e melhor!

Nessas pequenas e aparentemente insignificantes falas, o trabalhador expressa companheirismo, cumplicidade; através do “bom descanso” a esperança se alimenta, a vida flui, o amanhã acena para nós com mais vigor, mais iluminação. Em vez de “até amanhã”, “bom final de semana”, que são expressões genéricas que não dizem nada, talvez apenas se refiram à compostura, à “boa educação”, o otimista “bom descanso” diz também: relaxe, amigo, a luta continua e nós todos, trabalhadores, precisaremos de você amanhã; aproveite a noite, amigo, durma bem e não se esqueça de que amanhã vamos construir mais um pouco de nossa estrada rumo a um futuro melhor, mais justo e... humano!

Depois da leitura, desejo a todos(as) um bom descanso!

23 janeiro 2014

Crimes e criminosos


Publicado no jornal "A Cidade", de Cornélio Procópio/PR, em 30 de maio de 2004.

Santo Agostinho, um dos maiores teóricos da religiosidade cristã na Idade Média, costumava dizer que “odiava o pecado, mas amava o pecador”. É uma frase sem dúvida alguma emblemática, que nos traz a possibilidade de muitas reflexões. Hoje em dia, não apenas nas grandes cidades e centros urbanos, mas em toda parte, o pecado incomoda bem menos do que a sensação permanente de medo, insegurança, horror. Em meio a tanta criminalidade, a uma banalização crescente e contínua das práticas violentas e desumanas, quem se incomoda com os pecadores? Todas as nossas atenções e preocupações estão voltadas para a criminalidade, para o pensar formas de estabelecer a paz e a tranquilidade na sociedade. Nesse sentido, saindo da filosofia e da religião, e caminhando para uma linguagem mais moderna e jovial, recordo-me de uma sintomática frase de Batman, o homem-morcego, maravilhoso personagem de Bob Kane, criado em 1939, dirigindo-se a um delegado linha dura, desses que acreditam acabar com o crime matando indiscriminadamente todos aqueles que praticam qualquer tipo de afronta à lei: “A grande diferença entre nós, delegado”, esclarece Batman, “é que o senhor combate os criminosos; eu combato o crime”. Qual a diferença? Penso que sejam muitas...

Um dos temas mais calorosos do debate social contemporâneo é a questão da pena de morte. Trata-se de uma discussão que desperta paixões e um montão de irracionalidades, uma vez que os defensores da pena máxima acabam por se valer de critérios nada razoáveis para defender suas posturas favoráveis à matança generalizada, ao olho por olho, dente por dente. Acrescentar a pena de morte à jurisdição penal brasileira, bem como, de resto, de qualquer nação moderna, é combater o crime ou os criminosos? Aumentar o grau da pena, instituindo o matar contra quem mata, é favorecer a paz ou a guerra? 

Ora, todos os países que passaram pela experiência da pena de morte (e os que ainda se encontram em tal experiência) já chegaram à conclusão de que matar não diminui a matança, condenar à cadeira elétrica ou à câmara de gás não faz caírem as atividades criminosas. Não há dados favoráveis à ideia de que quanto mais pena, menos crime. Ao contrário: o que combate a criminalidade não é o tamanho da pena, mas a certeza dela. Nesse sentido, graças à impunidade, os criminosos se fortalecem, porque alimentam uma convicção cada vez maior de que nada lhes será feito, de que não irão para a cadeia, de que não pagarão por seus crimes e delitos. (Basta, por exemplo, pensar em crimes de “colarinho-branco” em nosso país ou crimes contra os cofres públicos; os bandidos saem impunes, não raro debochando da lei e da sociedade, que assiste a tudo imobilizada, sem ter como reagir à roubalheira e à canalhice...)

Combater o crime, diferentemente de buscar aniquilar os criminosos, requer uma visão de futuro, uma preocupação não apenas com as vidas existentes, mas, principalmente, com as gerações que se seguirão às nossas: com as crianças, os jovens e aqueles que ainda nem nasceram... Combater o crime é educar, gerar empregos e renda, pregar e praticar o humanismo e a solidariedade. Já o enfrentamento da criminalidade individual depende apenas de dureza, truculência, ideias e práticas fáceis: “Matou? Vai morrer!” - como se todos nós não fôssemos um pouco culpados pela miséria, pela fome, pela desigualdade que tanto estimulam as práticas violentas e levam ao desespero o trabalhador que não tem o que comer, onde morar, o que oferecer aos filhos... Como se não fôssemos culpados pelas polícias que temos, pela herança autoritária e bruta de nossas instituições; como se não fôssemos responsáveis pela exclusão social, pelas riquezas estrondosas de meia dúzia de brasileiros que ficam com o recheio e a massa do bolo, com aquilo que é fruto do trabalho de tantos, de todos nós.

A escolha é nossa: facilitar as coisas e apenar só o agente direto dos delitos ou assumir nossa responsabilidade cidadã sobre a vida de todos os nossos irmãos. Se optarmos pela segunda consequência, lutaremos pela democracia, pela igualdade social, por uma comunidade que considere, respeite e dê aos nossos pares as mesmas oportunidades, a possibilidade de fazerem às suas próprias escolhas, solidária e humanamente. É isso.

22 janeiro 2014

Sobre o amor


Nanda Costa, linda, em Havana, em foto de Bob Wolfenson para a Playboy (2013)

Como ente distinto dos demais seres vivos, o homem, em sua dimensão mais ampla, escapando a variações que impliquem discussões de gênero (impertinências, aliás, muito legítimas), é essencialmente consciência e liberdade. Enquanto a primeira lhe permite cumprir as múltiplas etapas de sua exteriorização (pensamento que se transforma em ação, em trabalho e, por extensão, realização), a segunda o faz avançar em direção ao seu semelhante, ao próximo, àqueles que com ele partilham uma mesma realidade, um mesmo espaço, um mesmo tempo.

A consciência, portanto, cumpre importante papel de ampliar a liberdade humana, fornecendo-lhe um mundo à imagem e semelhança daqueles que trabalham e que se realizam por meio de suas várias formas de objetivação, exteriorização. Das inúmeras maneiras de o homem se realizar como sujeito, como ser individual e coletivo, o amor, segundo o psicanalista Erich Fromm, é a mais plena, a mais intensa, a mais livre e, por isso mesmo, sábia, rica, consciente.

Se amar é mesmo verbo intransitivo, como queriam a prosa de Mario e a poesia de Carlos, dois Andrades, ele é também verbo da vida, da comunhão, da incessante busca de absolvição do homem diante de sua mais contundente e inefável condenação: a solidão.

No intuito de tornar-se “o meio” de driblar as adversidades provocadas pela solidão contra o coração humano, o amor não apenas afasta os indivíduos da loucura, mas, principalmente, da indiferença, da falta de zelo, tolerância, encantamento. Sem amor, nesse sentido, o ser se faz não-ser, uma vez que se distancia enormemente de si mesmo, do espelho que o possibilita se ver de modo mais profundo, mais arraigado, mais humano, frágil, necessitado de cuidados sempre especiais e permanentes. Esse espelho é o outro, aquele pelo qual transformamos nossas longas caminhadas. No final de todas as contas, sobrará sempre a máxima incontestável de Emmanuel Levinas: “Amar é jamais poder fugir da certeza de que nos fazemos no outro, eternamente”.

Descentrar-se, sair de si, fazer-se como ser-no-mundo, para-o-mundo... Tais pujanças do amor o tornam radicalmente diferente da paixão, que se enraíza levemente no mágico, fugaz, transitório. Para realizar-se em suas objetivações o ser não se pode valer do calor de seus desejos, do instante passageiro de suas pulsões. É preciso cultivar a serenidade do tempo, a inquietude paradoxalmente paciente do pensar, do refletir, do saber aguardar, mexer-se. Se o amor se traduz por infinitas atitudes de zelo, prestatividade, longevidade positiva e terna de suas consequências, ele não pode, é claro, atropelar-se em meio aos apelos de uma sociedade que vem, a cada dia, privilegiando mais e mais o supérfluo, o irrisório, o descartável.

A força do amor deve poder exprimir todos os necessários elementos para a criação e a recriação de nossas identidades culturais, tanto em sua dimensão individual quanto em sua dinâmica coletiva; deve também posicionar-se diante das alteridades, reafirmando o que Hannah Arendt chamava de duplo aspecto humano da igualdade e da diferença; deve incitar uniões, favorecer ações solidárias, confraternizações; deve ainda ser responsável por todos, aqueles que podem e sabem amar e aqueles que não tiveram a oportunidade para conhecer e desvendar seus encantos, suas infinitas possibilidades... Com esses, aliás, a que Paulo Freire chamava esfarrapados da Terra, devemos ser amáveis à exaustão, definindo uma nova ecologia de saberes e múltiplas e sempre renovadas formas de fraternidade, inclusão, aperfeiçoamento de nossa tão sabotada dignidade humana.

Não obstante se reproduza por Eros (o amor erótico) ou Filia (o amor amizade), Ágape (o amor banquete) ou Caritas (o amor solidariedade), o amor não pode prescindir, bom filho que sempre fora de Poros e Penia, de situar-se sempre, com serenidade e parcimônia, entre os excessos da alma (psiquê) e as carências do outro (alter). É nessa via de mão dupla – no entanto, única, intransplantável – que devemos equilibrar a alma desejosa neste mundo de tantas seduções e aprender a lidar com nossas idas ao outro, esse objeto que é sujeito da reflexão antropológica tão misterioso quanto as formas de descaso com as quais tem sido não-referenciado na extremada individualidade de nossos contemporâneos afeitos ao consumo e ao prazer-paixão das instantaneidades daquilo a que Francisco de Oliveira chama de “Era da Indiferença”.

Indiferença que parece ser o avesso do conceito de amor maduro, definido de modo sublime por Erich Fromm. Enquanto o amor imaturo só é capaz de dizer: “Amo-te porque preciso de ti”, dando à luz uma absoluta instrumentalização e ainda mais nefasta banalização da arte de amar, o amor maduro se torna denso e profundo, incondicional e verdadeiramente humano, porque só se faz na máxima: “Preciso de ti porque te amo”. Mais uma vez o gênio da língua vem a nós de modo arrebatador: se preciso porque amo, empresto ao verbo antes intransitivo o complemento mais-que-necessário à vida, à justiça, à crença e à luta árdua por uma sociedade de homens, mulheres e crianças efetivamente livres e iguais. É isso.

Referências Bibliográficas:
FROMM, Erich. A Arte de Amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
KONDER, Leandro. Sobre o Amor. São Paulo: Boitempo, 2007.

20 janeiro 2014

Milagre


Não sei se há um poema
sobre as estrelas por aí.
Desconfio que o brilho delas
seja o verso em si.

Em nome delas
- as estrelas -
já amei,
chorei,
perdi,
quase desisti.

Agora,
porque soube insistir,
conheci um sorriso
inexplicável,
um amor
imponderado,
um sentimento
que me põe ao vento,
coração desmesurado.

Como todo amor em minha vida,
sempre tão benjaminiano,
este será só meu,
eu acho,
sem ponte até
o sorriso da paixão,
o fogo insinuante
do delírio na contramão.

Adoro a ideia de amá-la,
mulher de doce lábio,
e faço isso em refúgio,
em minha alma latina,
à espera de um milagre,
de uma loucura repentina
- e eterna, por que não?

14 janeiro 2014

Discrição


A atriz Camila Pitanga, exuberância no talento, discrição nas formas de ser e aparecer - sinônimo de brasilidade e inteligência da mulher. 

Os mais lembrados serão sempre os mais discretos. A discrição é um fenômeno múltiplo, caracterizado por muitas nuances de equilíbrio, humildade e grata sabedoria.

O alardear feitos e aspirações é cansativo, denota insegurança, expõe ao constrangimento aqueles que vivem para aparecer, ser o centro das atenções. Um velho ditado popular é pérola do bom saber: “Quem muito aparece pouco é.”

Os mais efetivos e confiáveis não se afeiçoam a gritarias. Em vez do susto que estrangula a temperança, a discrição é paciência, o ingrediente insubstituível da insistência singela e batalhadora.

Há também um quê formidável de charme na discrição. Na ação discreta falam o gesto e o olhar, comedidos e, sintomaticamente, recheados de sedução. A discrição é antes de tudo uma atitude franca, transparente, em si.

O sujeito discreto é muito bom na hora de exercitar o discernimento, optar entre diferentes e antagônicos caminhos, separar o joio da joia, acolher lutas, disputar significados. Como prefere observar a palpitar, o ser discreto acumula saberes e é excelente conselheiro - suas grandes dicas, contudo, nascem invariavelmente de um olhar silencioso.

A reserva é a espada da discrição. Em vez da exposição, o recato. No lugar comumente designado à ostentação, a simplicidade. Sem concessões ao histrionismo, a discrição é irmã gêmea da frugalidade.

Reserva, simplicidade, frugalidade. Esses predicados dão beleza à discrição e destacam na vida os seres humanos que a adotam para si. Bons amigos, belas paisagens, sentido em tudo que pensa, tem e fez: é assim o coração de um sujeito discreto, pleno, gigante, repleto.

O desafio maior da vida é experimentar a discrição, fugindo, pois, ao consumismo, ao narcisismo, à mitomania que acredita eleger os melhores por meio da farsa e da visibilidade forçada. Ser discreto, para muito além de tudo, é apenas ser. Ponto.

13 janeiro 2014

O fascismo cotidiano


Num livro escrito no final dos anos 1970, intitulado “Introdução ao fascismo”, o filósofo brasileiro Leandro Konder demonstra que o comportamento fascista vai além do fenômeno da guerra e do desejo de conquistar o mundo pela força e pelo convencimento das multidões por meio da farsa do discurso e do ocultamento das verdadeiras intenções do poder. O fascismo está na mentalidade deturpada que vê ameaça em tudo, que quer para os outros tudo aquilo que não quer para si. Como movimento pela direita, a mentalidade fascista não admite partilhas, não discute dividir o pão. Pela direita (e só assim pode sê-lo), o fascismo vive de extrair de onde menos se tem e fingir que nada está acontecendo.

Como ensinou Hannah Arendt, vivemos entre o passado e o futuro – e não há o que possamos fazer quanto a isso, senão entender com entusiasmo os pontos entre os quais nos movemos. Por não aceitar nem entender isso, o fascismo se torna tão perigoso, embora não admita sequer existir na mentalidade conservadora que se multiplica por toda parte em nosso tempo.

Quando o assunto são os auxílios, as bolsas e as cotas que se destinam àqueles que menos tiveram oportunidade na História – como índios, negros, mulheres e homossexuais -, o fascismo se explicita através de seu mais poderoso método de ódio, desinformação e má-fé. Por não compreender que no presente inelidível vive-se de fato entre o urgente e o estrutural, o real e o ideal, o sonho que se quer e a sensatez exigente diante do que se tem, o fascismo condena tudo que não se encaixa naquilo por ele determinado como justo, correto e moral. Como sua noção de certo e errado, justo e injusto, belo e feio, falso e verdadeiro não se movimenta, ela despreza o tempo histórico, não leva jamais em consideração o porquê de as coisas nem sempre poderem ser justas, corretas, moralmente perfeitas. Nesse sentido, incapaz de historicizar seu olhar, o fascismo é cego diante das circunstâncias e das possibilidades humanas. Isso, aliás, explica por que o fascismo adora se apoiar no divino e na “vontade da natureza” para justificar seus pensamentos e atitudes.

Vale reparar que a mentalidade fascista está em tudo, nos jornais, na TV, nas escolas, em casa (nas redes sociais e na internet, nem se fala...), em cada canto em que o passado e o futuro nunca se encontram.

04 janeiro 2014

Fran IV


"Lady from the sea" (1896), de Edvard Munch

Àquela hora da manhã o sol ainda não havia dado ar da graça. Alguns preferem chamar de madrugada, mas, para mim, que todo dia percorria a orla a fortes e largos passos, quatro e meia já era dia bem nascido, hora passada de pensar a vida e planejar presente e futuro.

O hábito de despertar muito cedo e caminhar próximo ao mar eu adquiri logo que cheguei à cidade. Passara anos somente tendo o mar em sonho; sentia sua falta de forma retumbante. Prometi a mim mesmo que, se um dia vivesse perto dele, nunca deixaria de dizer um olá matinal, independentemente do clima e das circunstâncias da vida.

Naquele dia, uma segunda-feira de verão, decidira iniciar bem cedo o trabalho. Fim de ano chegando, muita coisa a verificar, agendar, organizar. Às vésperas de completar cinquenta anos, eu levava a vida pela qual tanto lutara: era proprietário de uma livraria das mais charmosas da cidade, morava num aconchegante apartamento de frente para a praia e não tinha grandes preocupações que pudessem impedir dias tranquilos e experiências amenas. De saúde equilibrada, dormia bem e me alimentava com responsabilidade. Nenhum frequentador da livraria me dava meio século de vida; amigos e conhecidos, os sabedores de minha idade, viviam a elogiar o tempo, que, na opinião deles, me era generoso demais.

Nada no passado indicava que teria uma meia-idade tão excitante. Nem sempre os dias haviam sorrido para mim.

Apesar de bastante estudioso e dedicado, a vida acadêmica não fora muito boa no meu caso. A necessidade de trabalhar além da conta em instituições particulares – fato impulsionado pelos boletos a pagar e pela maldição de Atlas que me contaminara as relações domésticas e familiares – acabou selando minha má sorte no tocante ao ingresso em universidades de ponta. Ao mesmo tempo, minha independência intelectual (que deveria ser condição natural de um sujeito legitimamente de esquerda) causava desassossego previsível na direita e convulsões imponderadas na esquerda. Em síntese: meus supostos pares e meus declarados adversários aliavam-se no combate à minha insuportável autonomia de ideias e perspectivas. Avesso a esquematismos, simplificações e empolgações por coisas prontas, precisei pagar com anonimato e muito trabalho. Ainda que a fatura tenha sido astronômica em seus números, eu preciso dizer que faria tudo de novo mil vezes.

O tempo passou e eu continuei escrevendo, dando aula e me esquivando dali e de acolá. Para sobreviver à precariedade das condições de trabalho (subjetivas e objetivas), adotei a estratégia de me dedicar ao que era bom de verdade, isto é, estudar com muito gosto e ministrar aulas da melhor maneira possível. Fora disso, mais nada. Graças a essas posturas, minimizei conflitos e desafetos, mantive a pulsação e pude acumular uma poupança de olhos no futuro, com livros, ideias, histórias e um belo mar. 

Antes de ir trabalhar, eu tomava um café puro na padaria da esquina, devidamente acompanhado de um indispensável pão com manteiga na chapa. Passados dez ou quinze minutos das oito horas, eu chegava à livraria, cujas portas já haviam sido abertas por Aline, uma doce estudante de jornalismo que era muito mais que meu braço direito; ela era responsável por todos os eventos e o significativo sucesso da Utópica, nome dado à livraria e inspirado nas sociedades impressas na obra daqueles que não temeram sonhar com um mundo melhor, desde Morus até Fourier. Considero-os, os utópicos, uns injustiçados - sua obra, quase sempre negligenciada ou muitíssimo mal lida e abordada, tem muitos tesouros que permanecem perdidos.

Aline estava comigo na livraria desde que entrara na faculdade havia três anos. Ela chegou na primeira semana de funcionamento da Utópica, respondendo a um anúncio de emprego publicado em jornal. Foi fácil, instintivo, contratá-la. Palavras precisas e pausadas, vocabulário correto, um sorriso de quem tem o que transmitir. No entorno de todos esses predicados, uma grande paixão por livros e histórias. Devo a Aline o fato de poder me ausentar da livraria totalmente despreocupado. Ela é a utopia realizada na Utópica.

Era quase meio-dia, eu arrumava a estante em homenagem a Chico Buarque para o ano de seu septuagésimo aniversário, Aline havia saído para almoçar (não regressaria à tarde, posto que acompanharia a mãe em consulta médica), quando percebi a entrada de uma mulher de longos cabelos negros na livraria. Mesmo do fundo do corredor principal, senti um perfume familiar demais. Sem nenhum recato no olhar, espantei-me verdadeiramente com o que vi. Era ela, a mulher que, vinte anos antes, eu costumava chamar de a morena mais bonita do mundo.

Os anos, era fácil e rápido perceber, haviam sido mais generosos com ela do que comigo. Eu estava bem, muito bem, mas ela estava formidável. Os cabelos escuros e volumosos emolduravam a intacta delicadeza do rosto; os olhos brilhavam mais que aos vinte anos; o corpo respeitava os mistérios mais sublimes da beleza feminina ideal, com a inata habilidade de seduzir todos os sentidos humanos. De shorts provocantes e um top insinuante, sorriu abertamente, inibindo qualquer reação minha.

- Oi, Eli, como vai? – ela disse, da forma mais adocicada existente.

A arquitetura dos dias jamais despendera tanto talento. À altura dos quarenta anos, Fran estava deslumbrante. Mais feminina e atraente do que no tempo em que me perdera de amores por ela, a morena agora era uma mulher perfeita, lapidada pela história, abençoada pela natureza. Minhas poucas palavras não puderam disfarçar a perplexidade.

- O-Oi, Fran... No-nossa... Tu-tudo bem?

A livraria estava um brinco. A proximidade do Natal estimulava as editoras que, além dos lançamentos vistosos de autores consagrados, presenteavam os livreiros com bibelôs e chamegos visuais que enchem os olhos dos amantes da palavra. Além disso, Aline e eu éramos obcecados pela limpeza e arrumação de todo o espaço. Algumas poltronas amplas e confortáveis atraíam as almas literárias da cidade. Como não poderia deixar de ser, o cantinho dedicado à história das ideias socialistas era um caso à parte: pôsteres e fotogramas promoviam lutadores e autores da grande utopia do amor-múndi. Eu passava a maior parte do meu tempo ali. Todo o capricho dedicado à Utópica não escapou às impressões de Fran.

- Que livraria linda, Eli! Que lugar maravilhoso! Nossa, estou encantada!

A última vez que vi Fran eu era ainda um professor de sociologia na universidade. Fui professor dela, aliás. Eu era casado e ela namorava havia anos. Nunca tivemos nada, só soslaios e tímidas insinuações. Na verdade, eu a desejei muito o tempo inteiro. Ela não. Eu fantasiei. Ela não. Eu cheguei a declarar que estava louco por ela. Não houve reação. Dez anos de diferença existiam entre nós. Lembro que nosso último encontro foi no lançamento de um dos meus livros, o único de poesias, acho. Ela pediu uma dedicatória e disse que nos veríamos um dia, na minha livraria. Engraçado é que a Utópica era então um distante devaneio. Ela se casou. Meu casamento terminaria em seguida. Vim embora para a praia. Nossos destinos se descruzaram para sempre. Era o que eu pensava, até vê-la entrar na livraria naquela segunda-feira ensolarada, duas décadas depois.

Um pouco destravado, consegui reagir relativamente bem ao sentimento de êxtase de Fran.

- Seu encanto é pura gentileza, Fran. De qualquer modo, agradeço. Sou obrigado a concordar que a Utópica é realmente um lugar muito cativante e agradável.

Às segundas-feiras o movimento era pequeno na livraria. Eu aproveitava a tranquilidade para colocar ordem nas prateleiras, além de revisar com calma a programação de atividades da semana, que, lógico, já tinha sido minuciosamente feita por Aline. A ausência da futura jornalista já fazia falta. Como ela não regressaria à tarde, tinha imaginado surpreendê-la com uma faxina daquelas. A chegada de Fran, contudo, fez-me esquecer tudo, absolutamente tudo.

- Li sobre a Utópica numa revista, Eli. Sua livraria faz sucesso em toda parte. Dezenas de escritores a elegeram a melhor e mais bonita do país. Eu tinha de vir aqui, vê-la de pertinho.

Lembrei a Fran sua promessa, no lançamento do meu livro, de me visitar quando a livraria só existia na imaginação. Perguntei-lhe se a visita era o pagamento de um velho vaticínio visionário.

- Nunca imaginei que guardaria minhas palavras, Eli. Para falar a verdade, não achei que se lembrasse de mim...

- Nunca esqueci você! – cortei-a, certeiro.

Fran baixou a cabeça, corada, visivelmente agraciada pela minha confissão. Fiquei com vontade de tudo, desde indagar sobre o marido (ou seria ex-marido?) até pular naquele pescoço e morrer de amor... Todas as coisas do mundo invadiram meus pensamentos. Não sabia o que fazer naquele momento. Eu havia sido tomado por uma impressionante e generalizada paralisia.

- Você mora só, Eli? – quis saber Fran.

- S-sim... – respondi, atordoado...

- Queria visitá-lo à noite, num momento em que pudéssemos conversar mais à vontade. Vejo que está sozinho na livraria, precisando trabalhar – concluiu Fran, sem reticências.

A Utópica ficava numa rua calma e arborizada a uns duzentos metros da avenida à beira-mar. Era uma livraria cuja beleza devia muito à discrição, à elegância sutil de sua fachada e de sua decoração interior. É provável que fosse a preferida de tanta gente exatamente por promover o silêncio e a paz interior, ingredientes essenciais a um bom relacionamento com a palavra escrita.

Meu apartamento ficava à esquina em diagonal da Utópica, a uns cento e cinquenta metros de distância. Eu fazia tudo na vida a pé. Fazia anos que não tinha nem dirigia automóvel. Disse a Fran onde morava, apontando da entrada da livraria o prédio a que costumava chegar às nove da noite, uma hora depois de encerrar o dia na Utópica. Ela perguntou novamente se podia ir até lá à noite. Disse-me que levaria o vinho. Eu prometi a ela uma pasta leve bem tropical. A noite seria de estrelas, no céu sobre o mar e no meu coração, àquela hora já apertadíssimo dentro do peito.

Aprendi com Aline a gostar da música de John Mayer. Na Utópica, aos sábados, na sessão dedicada à música e ao cinema, Aline não abria mão de John Mayer. É preciso admitir: o rapaz é um artista extraordinário.

Eu colocava o segundo CD do “Where the light is”, uma gravação ao vivo em Los Angeles, de 2008, quando fui avisado pelo porteiro de que Fran estava subindo. John Mayer (eu torcia!) teria a quem dedicar seu belo cancioneiro naquela noite.

Vinte e duas horas. Tempo combinado. Deixei a porta semiaberta para receber a morena mais bonita do mundo. Mais bonita do que nunca, logo pude perceber.

- Boa noite, Eli! Que delícia de lugar! Huuummm... John Mayer... Amo! – distribuiu Fran a um só fôlego, incontestavelmente admirada.

Bem localizado e dono de uma vista exuberante do mar, meu apartamento, entretanto, era modesto, um típico refúgio de ex-professor. Livros distribuídos por todos os cômodos, quadros de Modigliani, Munch e Klee (réplicas, é óbvio) e alguns cartazes de clássicos de Glauber Rocha e Leon Hirszman. O ambiente era muito sereno. Minha mania de ter tudo arrumado e no lugar dispunha os livros por gênero e em ordem alfabética – em alguns casos, eram perfilados de acordo com o tamanho, altura ou lombada, para emprestar simetria e precisão ao visual das prateleiras. A mesma solicitude perfeccionista ajeitava cultivados LPs, CDs, DVDs, fitas de VHS e Blu-rays. 

Os olhos de Fran, já com a taça de vinho cheia em mão (ela havia levado um precioso tinto português), percorriam vagarosamente os títulos literários, musicais e cinematográficos, como se estivessem à cata dos segredos e da arte-final do homem que residia naquele lugar tão interessante e culturalmente superpovoado.

- Woody Allen, Almodóvar, Fellini, Lynch, Mutantes, Djavan, Zé Geraldo, Pink Floyd, Pearl Jam, Manoel de Barros, Machado, Ferreira Gullar, Leandro Konder, Garcia-Roza e, é claro, Karl Marx... Tantos outros... Quanto bom gosto! Que vida prenhe de significados, meu Deus! – declamava uma mulher repleta de entusiasmo.

Fran sintetizava deslumbramento e euforia à flor da pele. Seu corpo dançava discretamente ao ritmo de John Mayer, enquanto eu permanecia em total congelamento, observando a mágica presença dela em meu lar – mágica e totalmente inesperada. Aos cinquenta, eu, enfim, encontrava o menino de Fernando Sabino; o menino que vivia em mim.

À pequena mesa de refeições a garrafa de vinho do Porto e o refratário com o penne ao molho de pera (uma iguaria incomparável para noites quentes de verão) esparramavam convidativo aroma pela sala, instigando apetites. Escapando momentaneamente à letargia, segurei Fran pela mão, a fim de conduzi-la ao lugar de nosso romântico jantar à meia-luz. Em seu segundo passo, Fran se pôs a minha frente, empinou-se na ponta dos pés e encostou seus lábios em meu queixo; como um imã, sua boca atraiu a minha, tocando-me sem pudor. O beijo com gosto de vinho e de uma longa história vinda do passado que não se encerrara estendeu-se por momentos intermináveis. De início suave e perscrutador, o encontro dos nossos lábios logo se transformou em fúria amorosa, intensidade de corpos que tinham nas bocas um pretexto insuprível para a explosão da paixão.

O tempo é mesmo senhor de todas as razões e emoções. Maduro, nosso ardor sexual carregava a experiência que a vida nos ofereceu, a saudade que a distância não apagou e o desejo que a natureza acumulou e guardou para aquele momento, tão certo quanto uma música dos Beatles a qualquer momento.

Não interrompi a queda do delicado vestido grená de Fran, que até aquele instante demarcava com exatidão as curvas tangenciadas à perfeição do seu corpo. Um corpo moreno, aliás, que conduziu meus sentidos pela minha aventura amorosa mais fantástica, quase surreal: a deleitante marca de biquíni, comportada e provocadora, indicou os seios que eu deveria beliscar com os dentes e acariciar com a ponta agitada da língua. 

Dona dos seios que protagonizaram os melhores momentos da minha vida sexual até então, Fran se dirigiu lentamente ao divã que havia na sala, um presente de uma amiga junguiana para madrugadas de leitura e reflexão. Naquela segunda-feira, a visita de Fran daria ao divã funções nunca antes pretendidas. Com suavidade ímpar, deitou-se de bruços sobre o excêntrico móvel, deixando que a bunda ficasse erguida pela parte mais saliente à cabeceira. A posição me convidava clamorosamente à perdição por meio de um rebolado que, àquela hora da noite (passava das onze), fazia-se pela guitarra matreira de John Mayer em “Slow dancing in a burning room”.

Entreguei-me também à atmosfera criada pela música de Mayer e me lancei sobre a bunda de Fran, lambendo-a milímetro por milímetro, sentindo o que nunca havia suposto existir em termos sexuais. Segurando-a pelas firmes ancas, perdi-me entre suas nádegas, transcorrendo seu vão de norte a sul, de sul a norte, dezenas de vezes. A longa “Gravity”, obra-prima de Mayer, embalava nossa loucura, quando levantei Fran e a peguei pelos braços. A caminho do quarto, com o gosto da morena mais bonita do mundo na boca e na alma, não pude conter a vontade de dizer a ela que sempre a amara. Sempre.

Sobre a cama, voltei à boca de Fran, beijando-a como se fosse um adolescente apaixonado que tivera a chance de namorar a menina mais bonita do colégio. Ouvi Fran sussurrando coisas deliciosas, fortes e ternas numa mistura irretorquível e provocante. Foi a vez dela, então, percorrer meu corpo com seus lábios e chupadas vorazes. Ao abocanhar meu pau, pensei em contar os pontos celestes iluminantes que via pela janela escancarada do quarto – à nossa frente o mar estava pintado pela luz das estrelas; eu poderia contá-las diretamente no céu ou no majestoso espelho d’água do oceano, sem qualquer diferença no resultado. A beleza do mundo do lado de fora traduzia muitíssimo bem as cores que Fran derramava sobre o universo particular das minhas sensações.

Entre a arrebentação súbita e a vontade de tornar infinita aquela noite, penetrei Fran com parcimônia. Assistir ao entra-e-sai do meu pau naquela buceta saborosa, adornada pela marca de biquíni mais bem definida que conheci, nunca deixou de ser a minha imagem inesquecível desta vida.

- Goza dentro de mim! – pediu Fran, ouvindo John Mayer cantar “I don’t trust myself (with loving you)” e gemendo muito.

Segurei-a pela nunca, mexendo carinhosamente seus cabelos, e gozei bastante – um gozo que se estendeu por alguns minutos, enfeitado por beijos macios e movimentos de resistência à procura de mais um pouco de prazer.

Permitimos que o silêncio falasse por nós enquanto mantínhamos nossos corpos enlaçados e os sentidos atentos às andanças noturnas do mar. John Mayer concluíra nossa trilha sonora, após cumprir com êxito sua imprescindível missão.

Sem perguntar nada a meu respeito nem dizer coisa alguma sobre sua vida, Fran quebrou o silêncio para saber se poderia passar um tempo comigo. Justificou afirmando que tinha muito amor para me dar ainda. Respondi dizendo que tudo naquele apartamento já lhe pertencia havia meio século...

Feito adolescentes, vimo-nos contagiados pela fome da meia-noite. Despedimo-nos da segunda-feira esquentando o macarrão no micro-ondas e comendo tudo sem cerimônia nem sofisticação. Ao nascer do sol, quando despertamos, a vida havia, enfim, firmado um grande circuito de sua extensa epopeia: o mar desnudava-se esplendoroso numa linda manhã e nos dizia, pelo movimento de suas águas, que o amor é o que vale a pena neste mundo.