04 janeiro 2014

Fran IV


"Lady from the sea" (1896), de Edvard Munch

Àquela hora da manhã o sol ainda não havia dado ar da graça. Alguns preferem chamar de madrugada, mas, para mim, que todo dia percorria a orla a fortes e largos passos, quatro e meia já era dia bem nascido, hora passada de pensar a vida e planejar presente e futuro.

O hábito de despertar muito cedo e caminhar próximo ao mar eu adquiri logo que cheguei à cidade. Passara anos somente tendo o mar em sonho; sentia sua falta de forma retumbante. Prometi a mim mesmo que, se um dia vivesse perto dele, nunca deixaria de dizer um olá matinal, independentemente do clima e das circunstâncias da vida.

Naquele dia, uma segunda-feira de verão, decidira iniciar bem cedo o trabalho. Fim de ano chegando, muita coisa a verificar, agendar, organizar. Às vésperas de completar cinquenta anos, eu levava a vida pela qual tanto lutara: era proprietário de uma livraria das mais charmosas da cidade, morava num aconchegante apartamento de frente para a praia e não tinha grandes preocupações que pudessem impedir dias tranquilos e experiências amenas. De saúde equilibrada, dormia bem e me alimentava com responsabilidade. Nenhum frequentador da livraria me dava meio século de vida; amigos e conhecidos, os sabedores de minha idade, viviam a elogiar o tempo, que, na opinião deles, me era generoso demais.

Nada no passado indicava que teria uma meia-idade tão excitante. Nem sempre os dias haviam sorrido para mim.

Apesar de bastante estudioso e dedicado, a vida acadêmica não fora muito boa no meu caso. A necessidade de trabalhar além da conta em instituições particulares – fato impulsionado pelos boletos a pagar e pela maldição de Atlas que me contaminara as relações domésticas e familiares – acabou selando minha má sorte no tocante ao ingresso em universidades de ponta. Ao mesmo tempo, minha independência intelectual (que deveria ser condição natural de um sujeito legitimamente de esquerda) causava desassossego previsível na direita e convulsões imponderadas na esquerda. Em síntese: meus supostos pares e meus declarados adversários aliavam-se no combate à minha insuportável autonomia de ideias e perspectivas. Avesso a esquematismos, simplificações e empolgações por coisas prontas, precisei pagar com anonimato e muito trabalho. Ainda que a fatura tenha sido astronômica em seus números, eu preciso dizer que faria tudo de novo mil vezes.

O tempo passou e eu continuei escrevendo, dando aula e me esquivando dali e de acolá. Para sobreviver à precariedade das condições de trabalho (subjetivas e objetivas), adotei a estratégia de me dedicar ao que era bom de verdade, isto é, estudar com muito gosto e ministrar aulas da melhor maneira possível. Fora disso, mais nada. Graças a essas posturas, minimizei conflitos e desafetos, mantive a pulsação e pude acumular uma poupança de olhos no futuro, com livros, ideias, histórias e um belo mar. 

Antes de ir trabalhar, eu tomava um café puro na padaria da esquina, devidamente acompanhado de um indispensável pão com manteiga na chapa. Passados dez ou quinze minutos das oito horas, eu chegava à livraria, cujas portas já haviam sido abertas por Aline, uma doce estudante de jornalismo que era muito mais que meu braço direito; ela era responsável por todos os eventos e o significativo sucesso da Utópica, nome dado à livraria e inspirado nas sociedades impressas na obra daqueles que não temeram sonhar com um mundo melhor, desde Morus até Fourier. Considero-os, os utópicos, uns injustiçados - sua obra, quase sempre negligenciada ou muitíssimo mal lida e abordada, tem muitos tesouros que permanecem perdidos.

Aline estava comigo na livraria desde que entrara na faculdade havia três anos. Ela chegou na primeira semana de funcionamento da Utópica, respondendo a um anúncio de emprego publicado em jornal. Foi fácil, instintivo, contratá-la. Palavras precisas e pausadas, vocabulário correto, um sorriso de quem tem o que transmitir. No entorno de todos esses predicados, uma grande paixão por livros e histórias. Devo a Aline o fato de poder me ausentar da livraria totalmente despreocupado. Ela é a utopia realizada na Utópica.

Era quase meio-dia, eu arrumava a estante em homenagem a Chico Buarque para o ano de seu septuagésimo aniversário, Aline havia saído para almoçar (não regressaria à tarde, posto que acompanharia a mãe em consulta médica), quando percebi a entrada de uma mulher de longos cabelos negros na livraria. Mesmo do fundo do corredor principal, senti um perfume familiar demais. Sem nenhum recato no olhar, espantei-me verdadeiramente com o que vi. Era ela, a mulher que, vinte anos antes, eu costumava chamar de a morena mais bonita do mundo.

Os anos, era fácil e rápido perceber, haviam sido mais generosos com ela do que comigo. Eu estava bem, muito bem, mas ela estava formidável. Os cabelos escuros e volumosos emolduravam a intacta delicadeza do rosto; os olhos brilhavam mais que aos vinte anos; o corpo respeitava os mistérios mais sublimes da beleza feminina ideal, com a inata habilidade de seduzir todos os sentidos humanos. De shorts provocantes e um top insinuante, sorriu abertamente, inibindo qualquer reação minha.

- Oi, Eli, como vai? – ela disse, da forma mais adocicada existente.

A arquitetura dos dias jamais despendera tanto talento. À altura dos quarenta anos, Fran estava deslumbrante. Mais feminina e atraente do que no tempo em que me perdera de amores por ela, a morena agora era uma mulher perfeita, lapidada pela história, abençoada pela natureza. Minhas poucas palavras não puderam disfarçar a perplexidade.

- O-Oi, Fran... No-nossa... Tu-tudo bem?

A livraria estava um brinco. A proximidade do Natal estimulava as editoras que, além dos lançamentos vistosos de autores consagrados, presenteavam os livreiros com bibelôs e chamegos visuais que enchem os olhos dos amantes da palavra. Além disso, Aline e eu éramos obcecados pela limpeza e arrumação de todo o espaço. Algumas poltronas amplas e confortáveis atraíam as almas literárias da cidade. Como não poderia deixar de ser, o cantinho dedicado à história das ideias socialistas era um caso à parte: pôsteres e fotogramas promoviam lutadores e autores da grande utopia do amor-múndi. Eu passava a maior parte do meu tempo ali. Todo o capricho dedicado à Utópica não escapou às impressões de Fran.

- Que livraria linda, Eli! Que lugar maravilhoso! Nossa, estou encantada!

A última vez que vi Fran eu era ainda um professor de sociologia na universidade. Fui professor dela, aliás. Eu era casado e ela namorava havia anos. Nunca tivemos nada, só soslaios e tímidas insinuações. Na verdade, eu a desejei muito o tempo inteiro. Ela não. Eu fantasiei. Ela não. Eu cheguei a declarar que estava louco por ela. Não houve reação. Dez anos de diferença existiam entre nós. Lembro que nosso último encontro foi no lançamento de um dos meus livros, o único de poesias, acho. Ela pediu uma dedicatória e disse que nos veríamos um dia, na minha livraria. Engraçado é que a Utópica era então um distante devaneio. Ela se casou. Meu casamento terminaria em seguida. Vim embora para a praia. Nossos destinos se descruzaram para sempre. Era o que eu pensava, até vê-la entrar na livraria naquela segunda-feira ensolarada, duas décadas depois.

Um pouco destravado, consegui reagir relativamente bem ao sentimento de êxtase de Fran.

- Seu encanto é pura gentileza, Fran. De qualquer modo, agradeço. Sou obrigado a concordar que a Utópica é realmente um lugar muito cativante e agradável.

Às segundas-feiras o movimento era pequeno na livraria. Eu aproveitava a tranquilidade para colocar ordem nas prateleiras, além de revisar com calma a programação de atividades da semana, que, lógico, já tinha sido minuciosamente feita por Aline. A ausência da futura jornalista já fazia falta. Como ela não regressaria à tarde, tinha imaginado surpreendê-la com uma faxina daquelas. A chegada de Fran, contudo, fez-me esquecer tudo, absolutamente tudo.

- Li sobre a Utópica numa revista, Eli. Sua livraria faz sucesso em toda parte. Dezenas de escritores a elegeram a melhor e mais bonita do país. Eu tinha de vir aqui, vê-la de pertinho.

Lembrei a Fran sua promessa, no lançamento do meu livro, de me visitar quando a livraria só existia na imaginação. Perguntei-lhe se a visita era o pagamento de um velho vaticínio visionário.

- Nunca imaginei que guardaria minhas palavras, Eli. Para falar a verdade, não achei que se lembrasse de mim...

- Nunca esqueci você! – cortei-a, certeiro.

Fran baixou a cabeça, corada, visivelmente agraciada pela minha confissão. Fiquei com vontade de tudo, desde indagar sobre o marido (ou seria ex-marido?) até pular naquele pescoço e morrer de amor... Todas as coisas do mundo invadiram meus pensamentos. Não sabia o que fazer naquele momento. Eu havia sido tomado por uma impressionante e generalizada paralisia.

- Você mora só, Eli? – quis saber Fran.

- S-sim... – respondi, atordoado...

- Queria visitá-lo à noite, num momento em que pudéssemos conversar mais à vontade. Vejo que está sozinho na livraria, precisando trabalhar – concluiu Fran, sem reticências.

A Utópica ficava numa rua calma e arborizada a uns duzentos metros da avenida à beira-mar. Era uma livraria cuja beleza devia muito à discrição, à elegância sutil de sua fachada e de sua decoração interior. É provável que fosse a preferida de tanta gente exatamente por promover o silêncio e a paz interior, ingredientes essenciais a um bom relacionamento com a palavra escrita.

Meu apartamento ficava à esquina em diagonal da Utópica, a uns cento e cinquenta metros de distância. Eu fazia tudo na vida a pé. Fazia anos que não tinha nem dirigia automóvel. Disse a Fran onde morava, apontando da entrada da livraria o prédio a que costumava chegar às nove da noite, uma hora depois de encerrar o dia na Utópica. Ela perguntou novamente se podia ir até lá à noite. Disse-me que levaria o vinho. Eu prometi a ela uma pasta leve bem tropical. A noite seria de estrelas, no céu sobre o mar e no meu coração, àquela hora já apertadíssimo dentro do peito.

Aprendi com Aline a gostar da música de John Mayer. Na Utópica, aos sábados, na sessão dedicada à música e ao cinema, Aline não abria mão de John Mayer. É preciso admitir: o rapaz é um artista extraordinário.

Eu colocava o segundo CD do “Where the light is”, uma gravação ao vivo em Los Angeles, de 2008, quando fui avisado pelo porteiro de que Fran estava subindo. John Mayer (eu torcia!) teria a quem dedicar seu belo cancioneiro naquela noite.

Vinte e duas horas. Tempo combinado. Deixei a porta semiaberta para receber a morena mais bonita do mundo. Mais bonita do que nunca, logo pude perceber.

- Boa noite, Eli! Que delícia de lugar! Huuummm... John Mayer... Amo! – distribuiu Fran a um só fôlego, incontestavelmente admirada.

Bem localizado e dono de uma vista exuberante do mar, meu apartamento, entretanto, era modesto, um típico refúgio de ex-professor. Livros distribuídos por todos os cômodos, quadros de Modigliani, Munch e Klee (réplicas, é óbvio) e alguns cartazes de clássicos de Glauber Rocha e Leon Hirszman. O ambiente era muito sereno. Minha mania de ter tudo arrumado e no lugar dispunha os livros por gênero e em ordem alfabética – em alguns casos, eram perfilados de acordo com o tamanho, altura ou lombada, para emprestar simetria e precisão ao visual das prateleiras. A mesma solicitude perfeccionista ajeitava cultivados LPs, CDs, DVDs, fitas de VHS e Blu-rays. 

Os olhos de Fran, já com a taça de vinho cheia em mão (ela havia levado um precioso tinto português), percorriam vagarosamente os títulos literários, musicais e cinematográficos, como se estivessem à cata dos segredos e da arte-final do homem que residia naquele lugar tão interessante e culturalmente superpovoado.

- Woody Allen, Almodóvar, Fellini, Lynch, Mutantes, Djavan, Zé Geraldo, Pink Floyd, Pearl Jam, Manoel de Barros, Machado, Ferreira Gullar, Leandro Konder, Garcia-Roza e, é claro, Karl Marx... Tantos outros... Quanto bom gosto! Que vida prenhe de significados, meu Deus! – declamava uma mulher repleta de entusiasmo.

Fran sintetizava deslumbramento e euforia à flor da pele. Seu corpo dançava discretamente ao ritmo de John Mayer, enquanto eu permanecia em total congelamento, observando a mágica presença dela em meu lar – mágica e totalmente inesperada. Aos cinquenta, eu, enfim, encontrava o menino de Fernando Sabino; o menino que vivia em mim.

À pequena mesa de refeições a garrafa de vinho do Porto e o refratário com o penne ao molho de pera (uma iguaria incomparável para noites quentes de verão) esparramavam convidativo aroma pela sala, instigando apetites. Escapando momentaneamente à letargia, segurei Fran pela mão, a fim de conduzi-la ao lugar de nosso romântico jantar à meia-luz. Em seu segundo passo, Fran se pôs a minha frente, empinou-se na ponta dos pés e encostou seus lábios em meu queixo; como um imã, sua boca atraiu a minha, tocando-me sem pudor. O beijo com gosto de vinho e de uma longa história vinda do passado que não se encerrara estendeu-se por momentos intermináveis. De início suave e perscrutador, o encontro dos nossos lábios logo se transformou em fúria amorosa, intensidade de corpos que tinham nas bocas um pretexto insuprível para a explosão da paixão.

O tempo é mesmo senhor de todas as razões e emoções. Maduro, nosso ardor sexual carregava a experiência que a vida nos ofereceu, a saudade que a distância não apagou e o desejo que a natureza acumulou e guardou para aquele momento, tão certo quanto uma música dos Beatles a qualquer momento.

Não interrompi a queda do delicado vestido grená de Fran, que até aquele instante demarcava com exatidão as curvas tangenciadas à perfeição do seu corpo. Um corpo moreno, aliás, que conduziu meus sentidos pela minha aventura amorosa mais fantástica, quase surreal: a deleitante marca de biquíni, comportada e provocadora, indicou os seios que eu deveria beliscar com os dentes e acariciar com a ponta agitada da língua. 

Dona dos seios que protagonizaram os melhores momentos da minha vida sexual até então, Fran se dirigiu lentamente ao divã que havia na sala, um presente de uma amiga junguiana para madrugadas de leitura e reflexão. Naquela segunda-feira, a visita de Fran daria ao divã funções nunca antes pretendidas. Com suavidade ímpar, deitou-se de bruços sobre o excêntrico móvel, deixando que a bunda ficasse erguida pela parte mais saliente à cabeceira. A posição me convidava clamorosamente à perdição por meio de um rebolado que, àquela hora da noite (passava das onze), fazia-se pela guitarra matreira de John Mayer em “Slow dancing in a burning room”.

Entreguei-me também à atmosfera criada pela música de Mayer e me lancei sobre a bunda de Fran, lambendo-a milímetro por milímetro, sentindo o que nunca havia suposto existir em termos sexuais. Segurando-a pelas firmes ancas, perdi-me entre suas nádegas, transcorrendo seu vão de norte a sul, de sul a norte, dezenas de vezes. A longa “Gravity”, obra-prima de Mayer, embalava nossa loucura, quando levantei Fran e a peguei pelos braços. A caminho do quarto, com o gosto da morena mais bonita do mundo na boca e na alma, não pude conter a vontade de dizer a ela que sempre a amara. Sempre.

Sobre a cama, voltei à boca de Fran, beijando-a como se fosse um adolescente apaixonado que tivera a chance de namorar a menina mais bonita do colégio. Ouvi Fran sussurrando coisas deliciosas, fortes e ternas numa mistura irretorquível e provocante. Foi a vez dela, então, percorrer meu corpo com seus lábios e chupadas vorazes. Ao abocanhar meu pau, pensei em contar os pontos celestes iluminantes que via pela janela escancarada do quarto – à nossa frente o mar estava pintado pela luz das estrelas; eu poderia contá-las diretamente no céu ou no majestoso espelho d’água do oceano, sem qualquer diferença no resultado. A beleza do mundo do lado de fora traduzia muitíssimo bem as cores que Fran derramava sobre o universo particular das minhas sensações.

Entre a arrebentação súbita e a vontade de tornar infinita aquela noite, penetrei Fran com parcimônia. Assistir ao entra-e-sai do meu pau naquela buceta saborosa, adornada pela marca de biquíni mais bem definida que conheci, nunca deixou de ser a minha imagem inesquecível desta vida.

- Goza dentro de mim! – pediu Fran, ouvindo John Mayer cantar “I don’t trust myself (with loving you)” e gemendo muito.

Segurei-a pela nunca, mexendo carinhosamente seus cabelos, e gozei bastante – um gozo que se estendeu por alguns minutos, enfeitado por beijos macios e movimentos de resistência à procura de mais um pouco de prazer.

Permitimos que o silêncio falasse por nós enquanto mantínhamos nossos corpos enlaçados e os sentidos atentos às andanças noturnas do mar. John Mayer concluíra nossa trilha sonora, após cumprir com êxito sua imprescindível missão.

Sem perguntar nada a meu respeito nem dizer coisa alguma sobre sua vida, Fran quebrou o silêncio para saber se poderia passar um tempo comigo. Justificou afirmando que tinha muito amor para me dar ainda. Respondi dizendo que tudo naquele apartamento já lhe pertencia havia meio século...

Feito adolescentes, vimo-nos contagiados pela fome da meia-noite. Despedimo-nos da segunda-feira esquentando o macarrão no micro-ondas e comendo tudo sem cerimônia nem sofisticação. Ao nascer do sol, quando despertamos, a vida havia, enfim, firmado um grande circuito de sua extensa epopeia: o mar desnudava-se esplendoroso numa linda manhã e nos dizia, pelo movimento de suas águas, que o amor é o que vale a pena neste mundo.