13 janeiro 2014

O fascismo cotidiano


Num livro escrito no final dos anos 1970, intitulado “Introdução ao fascismo”, o filósofo brasileiro Leandro Konder demonstra que o comportamento fascista vai além do fenômeno da guerra e do desejo de conquistar o mundo pela força e pelo convencimento das multidões por meio da farsa do discurso e do ocultamento das verdadeiras intenções do poder. O fascismo está na mentalidade deturpada que vê ameaça em tudo, que quer para os outros tudo aquilo que não quer para si. Como movimento pela direita, a mentalidade fascista não admite partilhas, não discute dividir o pão. Pela direita (e só assim pode sê-lo), o fascismo vive de extrair de onde menos se tem e fingir que nada está acontecendo.

Como ensinou Hannah Arendt, vivemos entre o passado e o futuro – e não há o que possamos fazer quanto a isso, senão entender com entusiasmo os pontos entre os quais nos movemos. Por não aceitar nem entender isso, o fascismo se torna tão perigoso, embora não admita sequer existir na mentalidade conservadora que se multiplica por toda parte em nosso tempo.

Quando o assunto são os auxílios, as bolsas e as cotas que se destinam àqueles que menos tiveram oportunidade na História – como índios, negros, mulheres e homossexuais -, o fascismo se explicita através de seu mais poderoso método de ódio, desinformação e má-fé. Por não compreender que no presente inelidível vive-se de fato entre o urgente e o estrutural, o real e o ideal, o sonho que se quer e a sensatez exigente diante do que se tem, o fascismo condena tudo que não se encaixa naquilo por ele determinado como justo, correto e moral. Como sua noção de certo e errado, justo e injusto, belo e feio, falso e verdadeiro não se movimenta, ela despreza o tempo histórico, não leva jamais em consideração o porquê de as coisas nem sempre poderem ser justas, corretas, moralmente perfeitas. Nesse sentido, incapaz de historicizar seu olhar, o fascismo é cego diante das circunstâncias e das possibilidades humanas. Isso, aliás, explica por que o fascismo adora se apoiar no divino e na “vontade da natureza” para justificar seus pensamentos e atitudes.

Vale reparar que a mentalidade fascista está em tudo, nos jornais, na TV, nas escolas, em casa (nas redes sociais e na internet, nem se fala...), em cada canto em que o passado e o futuro nunca se encontram.