31 janeiro 2014

Qual o valor de um homem bom?

Foto: Andrea Tomas Prato

Já faz bastante tempo que ideias não mudam opinião nem conduta de (quase) ninguém. Ainda que sejam claras e convincentes, bem-compostas e expostas com empatia, as ideias vivem um novo tempo de crise. O mudo atual – pragmático, utilitarista e pautado pelo óbvio do entretenimento fácil – é o inferno astral das grandes ideias e dos debates monumentais.

Viver de bons juízos e opiniões firmes é uma escolha difícil. Penso em professores, escritores, gente que passa o tempo a narrar histórias. Penso um pouco mais: em todos que tenham algo bom a partilhar, em sujeitos que insistem em construir frases inteiras, colecionar palavras, idolatrar a dúvida e perseguir os saberes que põem abaixo muros, preconceitos e insensibilidades.

Qual valor tem hoje um homem bom?

As imagens, por promoverem rapidez e aparente solidez, matam a palavra, que normalmente é a calmaria em si, exigente que é de longas e cíclicas digressões. Enquanto imagens voam e logo se sucedem, as palavras querem ficar, provocar, ressignificar ideias antigas e pensamentos envelhecidos. Diante uma da outra, palavra e imagem até que formam um belo par. O problema é que o excesso de uma representa reduzir ao mínimo o espaço da outra.

Qual o valor, então, de um homem que se diverte com as palavras, que aprecia textos instigantes, que se emociona com a poesia e se realiza diante da prosa encantadora? Num mundo que mais parece um jogo de montar e desmontar, que créditos oferecer a quem prefere construir imagens a partir de palavras, em vez de abolir palavras em favor da efemeridade das imagens?

A defendida intrepidez das imagens e das tecnologias pessoais, que cumprem muitíssimo bem o papel de disseminar um ódio jamais assumido pelos livros, pela leitura, pela emancipação do humano, é atribuído a quem não quer saber de valor nenhum, a não ser daquele que o dinheiro traz para bem perto de almas vazias e em chamas – um incêndio no vácuo inerente ao coração dos indivíduos pós-modernos.

Desapareceu o valor da rebeldia e da resistência. Não há mais o que questionar. Existe tão somente um mundo ao qual se adaptar e do qual extrair vantagens, benefícios e a felicidade dita possível. A pergunta, então, se desloca e se refaz: haverá ainda algum valor num mundo tomado por gente completamente sem valor?