22 janeiro 2014

Sobre o amor


Nanda Costa, linda, em Havana, em foto de Bob Wolfenson para a Playboy (2013)

Como ente distinto dos demais seres vivos, o homem, em sua dimensão mais ampla, escapando a variações que impliquem discussões de gênero (impertinências, aliás, muito legítimas), é essencialmente consciência e liberdade. Enquanto a primeira lhe permite cumprir as múltiplas etapas de sua exteriorização (pensamento que se transforma em ação, em trabalho e, por extensão, realização), a segunda o faz avançar em direção ao seu semelhante, ao próximo, àqueles que com ele partilham uma mesma realidade, um mesmo espaço, um mesmo tempo.

A consciência, portanto, cumpre importante papel de ampliar a liberdade humana, fornecendo-lhe um mundo à imagem e semelhança daqueles que trabalham e que se realizam por meio de suas várias formas de objetivação, exteriorização. Das inúmeras maneiras de o homem se realizar como sujeito, como ser individual e coletivo, o amor, segundo o psicanalista Erich Fromm, é a mais plena, a mais intensa, a mais livre e, por isso mesmo, sábia, rica, consciente.

Se amar é mesmo verbo intransitivo, como queriam a prosa de Mario e a poesia de Carlos, dois Andrades, ele é também verbo da vida, da comunhão, da incessante busca de absolvição do homem diante de sua mais contundente e inefável condenação: a solidão.

No intuito de tornar-se “o meio” de driblar as adversidades provocadas pela solidão contra o coração humano, o amor não apenas afasta os indivíduos da loucura, mas, principalmente, da indiferença, da falta de zelo, tolerância, encantamento. Sem amor, nesse sentido, o ser se faz não-ser, uma vez que se distancia enormemente de si mesmo, do espelho que o possibilita se ver de modo mais profundo, mais arraigado, mais humano, frágil, necessitado de cuidados sempre especiais e permanentes. Esse espelho é o outro, aquele pelo qual transformamos nossas longas caminhadas. No final de todas as contas, sobrará sempre a máxima incontestável de Emmanuel Levinas: “Amar é jamais poder fugir da certeza de que nos fazemos no outro, eternamente”.

Descentrar-se, sair de si, fazer-se como ser-no-mundo, para-o-mundo... Tais pujanças do amor o tornam radicalmente diferente da paixão, que se enraíza levemente no mágico, fugaz, transitório. Para realizar-se em suas objetivações o ser não se pode valer do calor de seus desejos, do instante passageiro de suas pulsões. É preciso cultivar a serenidade do tempo, a inquietude paradoxalmente paciente do pensar, do refletir, do saber aguardar, mexer-se. Se o amor se traduz por infinitas atitudes de zelo, prestatividade, longevidade positiva e terna de suas consequências, ele não pode, é claro, atropelar-se em meio aos apelos de uma sociedade que vem, a cada dia, privilegiando mais e mais o supérfluo, o irrisório, o descartável.

A força do amor deve poder exprimir todos os necessários elementos para a criação e a recriação de nossas identidades culturais, tanto em sua dimensão individual quanto em sua dinâmica coletiva; deve também posicionar-se diante das alteridades, reafirmando o que Hannah Arendt chamava de duplo aspecto humano da igualdade e da diferença; deve incitar uniões, favorecer ações solidárias, confraternizações; deve ainda ser responsável por todos, aqueles que podem e sabem amar e aqueles que não tiveram a oportunidade para conhecer e desvendar seus encantos, suas infinitas possibilidades... Com esses, aliás, a que Paulo Freire chamava esfarrapados da Terra, devemos ser amáveis à exaustão, definindo uma nova ecologia de saberes e múltiplas e sempre renovadas formas de fraternidade, inclusão, aperfeiçoamento de nossa tão sabotada dignidade humana.

Não obstante se reproduza por Eros (o amor erótico) ou Filia (o amor amizade), Ágape (o amor banquete) ou Caritas (o amor solidariedade), o amor não pode prescindir, bom filho que sempre fora de Poros e Penia, de situar-se sempre, com serenidade e parcimônia, entre os excessos da alma (psiquê) e as carências do outro (alter). É nessa via de mão dupla – no entanto, única, intransplantável – que devemos equilibrar a alma desejosa neste mundo de tantas seduções e aprender a lidar com nossas idas ao outro, esse objeto que é sujeito da reflexão antropológica tão misterioso quanto as formas de descaso com as quais tem sido não-referenciado na extremada individualidade de nossos contemporâneos afeitos ao consumo e ao prazer-paixão das instantaneidades daquilo a que Francisco de Oliveira chama de “Era da Indiferença”.

Indiferença que parece ser o avesso do conceito de amor maduro, definido de modo sublime por Erich Fromm. Enquanto o amor imaturo só é capaz de dizer: “Amo-te porque preciso de ti”, dando à luz uma absoluta instrumentalização e ainda mais nefasta banalização da arte de amar, o amor maduro se torna denso e profundo, incondicional e verdadeiramente humano, porque só se faz na máxima: “Preciso de ti porque te amo”. Mais uma vez o gênio da língua vem a nós de modo arrebatador: se preciso porque amo, empresto ao verbo antes intransitivo o complemento mais-que-necessário à vida, à justiça, à crença e à luta árdua por uma sociedade de homens, mulheres e crianças efetivamente livres e iguais. É isso.

Referências Bibliográficas:
FROMM, Erich. A Arte de Amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
KONDER, Leandro. Sobre o Amor. São Paulo: Boitempo, 2007.