27 fevereiro 2014

Disciplina


"Priscilla"(1969), de Joseph Szabo

Minha cosmologia de esquerda arrefece um pouco quando se depara com a expressão “disciplina”. Impossível ser diferente. À disciplina se associam referências à lei e à ordem, ao autoritarismo daqueles que acreditam ser donos da verdade, à educação que impõe, repõe, mas não informa nem convence.

Para muito além da obediência a filas e prazos e da contenção de impulsos criativos, aprendi a pensar a disciplina como uma atitude pessoal diante da vida, das exigências do tempo histórico. É nesse sentido que carrego no peito uma máxima de Renato Russo: “Disciplina é ter coragem”.

Tenho para mim que o mais ardiloso dos pecados do capital é o roubo o tempo. À medida que a vida passa, o tempo é cotidianamente sequestrado de nós. Quase sempre de modo tardio, descobrimos que a vida imensa que suspeitávamos teríamos após os vinte anos de idade é breve e veloz no tempo da maturidade. O sujeito maduro é aquele que constata ter mais passado do que futuro – e que depende de muita disciplina para encarar o que a vida ainda pode lhe render.

Ter projetos é bom. Sonhar é indispensável. Flanar pelo mundo sem compromisso é urgente para combater canseiras e decepções. Tudo isso, contudo, sem disciplina, impede a autorrealização.

Sempre penso no Severino, em sua vida e morte genialmente poetizadas por João Cabral de Melo Neto. Para o retirante pernambucano em busca de sobrevivência e trabalho, o adágio da existência era não ter dúvidas de que sua vida havia sido mais defendida do que vivida. Hoje, como anexim pessoal, associo vida à disciplina – sem disciplina, não há o que defender na vida.

Bem pensadas, algumas horas podem significar dias de ideias e feitos. Dados ao improviso, ao deus-dará, anos podem representar menos do que poucos instantes de alegria. A disciplina é antídoto único contra o desperdício (roubo?) do tempo e da energia que mantém corpo e mente de pé.

Disciplina não é utilitarismo. A busca fria por resultados é, antes, uma tentativa de ganhar a vida sem vivê-la. A disciplina intui fazer valer nossa passagem pelo mundo: muito mais do que resultados, ela visa ao aprendizado do amor e à conquista da verdadeira liberdade.

15 fevereiro 2014

Retrô


Virou moda voltar no tempo. Roupas, músicas, palavras, estilos de vida, olhares sobre o mundo, tudo agora tem sua versão retrô.

De tempos em tempos, resgatamos bandas de rock, clássicos uniformes esportivos, ritmos e danças, cabelos, cores, decotes, acessórios corporais, tendências de pistas, palcos e passarelas, folias de salões e avenidas. Eu gosto muito da ideia. A moda retrô não é apenas uma viagem pelo túnel do tempo; é uma merecida maneira de reconhecer histórias, tradições e memórias.

Fica uma questão: é possível voltar no tempo, valorizar e resgatar o que ficou pelo fardo histórico e ainda assim não ser acusado de reacionário? Tal indagação sugere uma outra questão: o que significa, afinal, ser conservador?

Sempre recordo um velho professor que pedia que não fossem confundidos os termos “tradição” e “conservação”. A tradição tem história; o conservadorismo, nem sempre. A tradição está sempre viva; aquilo que se deseja conservar a qualquer custo muitas vezes já está morto e só falta mesmo enterrar. A tradição pode ser rebelde; o que se quer conservar fora de tumbas vagueia de modo caquético, caricatural de si mesmo, perdido entre pesadelos de anacronismo assustadores. Resumindo: ser tradicionalista é interpretar o velho à luz do tempo novo; ser conservador é interpretar o novo à sombra do tempo velho.

O conservadorismo, que adora falar em moralidade, fecha os olhos para problemas reais e complexos e culpa os outros pelos males do mundo. Tudo que é diferente é pecado para o pensamento conservador: nada é política, nada é cultura. Na mentalidade conservadora, há uma “natureza” que opera o ódio pela novidade e o ranço pelas tradições abertas e em sintonia com o mundo. O conservador não faz autocríticas, uma vez que ele nunca peca. Pecadores são os outros - os moderninhos, inteligentinhos e esquerdistas –, aqueles que se apegam a tradições pés-no-chão e utopias cabeças-nas-estrelas. O conservador, aliás, odeia de morte as utopias: por não saber sonhar, tem raiva de quem luta e sonha.

Os conservadores não são retrô. Eles não resgatam nada, até porque nunca avançaram para poder ter para onde voltar.