15 fevereiro 2014

Retrô


Virou moda voltar no tempo. Roupas, músicas, palavras, estilos de vida, olhares sobre o mundo, tudo agora tem sua versão retrô.

De tempos em tempos, resgatamos bandas de rock, clássicos uniformes esportivos, ritmos e danças, cabelos, cores, decotes, acessórios corporais, tendências de pistas, palcos e passarelas, folias de salões e avenidas. Eu gosto muito da ideia. A moda retrô não é apenas uma viagem pelo túnel do tempo; é uma merecida maneira de reconhecer histórias, tradições e memórias.

Fica uma questão: é possível voltar no tempo, valorizar e resgatar o que ficou pelo fardo histórico e ainda assim não ser acusado de reacionário? Tal indagação sugere uma outra questão: o que significa, afinal, ser conservador?

Sempre recordo um velho professor que pedia que não fossem confundidos os termos “tradição” e “conservação”. A tradição tem história; o conservadorismo, nem sempre. A tradição está sempre viva; aquilo que se deseja conservar a qualquer custo muitas vezes já está morto e só falta mesmo enterrar. A tradição pode ser rebelde; o que se quer conservar fora de tumbas vagueia de modo caquético, caricatural de si mesmo, perdido entre pesadelos de anacronismo assustadores. Resumindo: ser tradicionalista é interpretar o velho à luz do tempo novo; ser conservador é interpretar o novo à sombra do tempo velho.

O conservadorismo, que adora falar em moralidade, fecha os olhos para problemas reais e complexos e culpa os outros pelos males do mundo. Tudo que é diferente é pecado para o pensamento conservador: nada é política, nada é cultura. Na mentalidade conservadora, há uma “natureza” que opera o ódio pela novidade e o ranço pelas tradições abertas e em sintonia com o mundo. O conservador não faz autocríticas, uma vez que ele nunca peca. Pecadores são os outros - os moderninhos, inteligentinhos e esquerdistas –, aqueles que se apegam a tradições pés-no-chão e utopias cabeças-nas-estrelas. O conservador, aliás, odeia de morte as utopias: por não saber sonhar, tem raiva de quem luta e sonha.

Os conservadores não são retrô. Eles não resgatam nada, até porque nunca avançaram para poder ter para onde voltar.