31 março 2014

Tão minha quanto as estrelas


Ela é síntese de todas as belezas
amor imaginário
uma paixão de épicas realezas
viva, pulsante, guardada em meu relicário

Ora romance
ora libido exaltante
seu corpo é meu porto-seguro
beijo, provocação, o exalar vibrante

Em seus olhos repouso
nos lábios encontro leveza
meu espírito em seus detalhes se realiza
diante da vida, ergo-me fortaleza

Nada em mim existe longe dela
embora ela não exista
povoa meus sonhos apenas
reitera o que sou, sugere que eu insista

Sou, então, movido pelo vir-a-ser
pela necessidade de não desistir
tenho algum receio do amanhã
condenado ao presente sem sentir

Se ela vier, será vida que transborda
amor louco em lances sem fim
companheira de prazer e mundo
pedaço quente do céu dado a mim

24 março 2014

Cláudia


Prefiro chamá-la somente de Cláudia. Era uma pessoa simples, das mais comuns. Por isso mesmo, exemplar e inesquecível.

Cláudia era muito jovem. Aos trinta e oito anos, apesar das durezas da vida, sorria com facilidade, trabalhava muito, negava-se a todo tipo de resignação: dia após dia, olhava adiante, percebia-se vital para quatro filhos do corpo, quatro outros filhos do coração. Não podia ter medo. Não podia sequer pensar parar. Cláudia era uma heroína no mais robusto uso que se possa dar a essa condição.

Cláudia vivia num país cruel e injusto. Aqueles que deveriam “servir e proteger” em sua terra costumavam torturar e matar, facilitar a ascensão dos criminosos, obstruir os caminhos da justiça e da paz. O mundo em volta de Cláudia era movido a ódio de guerra, regido por espíritos de intolerância e vingança. Cláudia, contudo, nunca se permitiu contagiar: pregava por gestos cotidianos de trabalho e amor uma paz infinita.

Cláudia sabia repartir. Eu não sei quanto ela de fato conhecia daquele homem que, numa Galileia distante, dividia pão e agia generosamente, fazendo da compaixão sua história de vida. Mas Cláudia era uma seguidora real daquele santo homem. Do pouco, multiplicava e fazia muito. Da dificuldade, extraía lições e escrevia trechos de esperança no futuro. Da pobreza, metamorfoseava-se na milionária mulher que foi, será, nunca se apagará.

Cláudia foi baleada – e amarrada, arrastada por um veículo da repressão. Não se sabe muito bem por quê. Uns dizem que foi fatalidade, que Cláudia estava no lugar errado, na hora errada. Outros afirmam que o episódio contra Cláudia é o reflexo indecifrável e aparentemente inesgotável de um país que não se sustenta e vive a se esquivar de si mesmo. No fundo, Cláudia é a enésima vítima da banalidade do mal, engordada a preconceito, violência institucionalizada, impunidade e mentalidade torpe, desgraçadamente reacionária.

Cláudia foi uma brasileira. Foi mulher, pobre, mãe, filha, neta e bisneta de quilombolas, rebeldes, cangaceiros e insurgentes. Cláudia é a atualização da luta de quem trabalha e sofre, encontra forças sabe Deus em quê.

Cláudia sou eu, somos todos nós.

10 março 2014

O fim do futuro


Tenho muito respeito e alimento grande admiração pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, conhecido em todo o mundo pelas suas análises sofisticadas, serenas e profundas sobre a sociedade contemporânea, a qual caracteriza como líquida, deveras líquida.

A liquidez do conjunto de nossas relações sociais torna tudo instável, suscetível, pouquíssimo consistente. Tudo em nosso entorno surge, cresce e deixa de existir antes que possamos entender o que está a ocorrer. No mundo líquido-moderno, a parceria mais viçosa é a que se estabelece entre a velocidade e a total impermanência: somos seres fugidios e provisórios. Raras vezes na história foi tão oportuno destacar a velha sentença shakespeariana de Marx: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.

Aos 83 anos, Bauman escreve sem parar. A toda hora vários livros seus são publicados ou relançados. No Brasil, mais de trinta títulos do sociólogo ocupam lugar privilegiado nas estantes das livrarias e na base do melhor que se realiza em termos de crítica social. Bauman é bem familiar aos intérpretes empenhados em refletir sobre a globalização e as andanças atuais do humano pelo planeta que prefere coisas e números a gente e sonhos. Mais do que isso: a obra do autor de “Modernidade Líquida” vem ajudando substantivamente na elaboração de propostas inteligentes e sustentáveis para enfrentar as duras crises de nossa época, implacavelmente múltiplas (econômicas, políticas e culturais) e inegavelmente totalizadoras (não há povo terrestre que desconheça sinais e desdobramentos desta nossa era de incertezas).

Em aparição pública recente, Bauman anunciou que vivemos o “fim do futuro”. Além do caráter líquido das ações humanas, que muda de forma e altera sua crassidade ao sabor dos ventos, as integrações entre os indivíduos já não têm fôlego – vivemos aqui, ali e acolá um dia depois do outro, sem que se saibamos exatamente para onde ir, o que fazer, com quem nos encontrar, em que nos apoiar... Sonhos e planos foram extintos em favor de um imediatismo incontornável e de um pragmatismo aclamado como elixir da felicidade. No centro do mundo residem o consumo ilimitado e o individualismo despudorado, ambos validados como sendo o próprio sentido da vida.

Sem um olhar sobre o outro (e suas outras formas de ser, viver e imaginar), o futuro só pode ser uma ilusão. Cientes da situação aparentemente sem saída que nos rodeia e manipula, pintamos no mapa a desesperança. Só há, então, o presente. Para sempre.