24 março 2014

Cláudia


Prefiro chamá-la somente de Cláudia. Era uma pessoa simples, das mais comuns. Por isso mesmo, exemplar e inesquecível.

Cláudia era muito jovem. Aos trinta e oito anos, apesar das durezas da vida, sorria com facilidade, trabalhava muito, negava-se a todo tipo de resignação: dia após dia, olhava adiante, percebia-se vital para quatro filhos do corpo, quatro outros filhos do coração. Não podia ter medo. Não podia sequer pensar parar. Cláudia era uma heroína no mais robusto uso que se possa dar a essa condição.

Cláudia vivia num país cruel e injusto. Aqueles que deveriam “servir e proteger” em sua terra costumavam torturar e matar, facilitar a ascensão dos criminosos, obstruir os caminhos da justiça e da paz. O mundo em volta de Cláudia era movido a ódio de guerra, regido por espíritos de intolerância e vingança. Cláudia, contudo, nunca se permitiu contagiar: pregava por gestos cotidianos de trabalho e amor uma paz infinita.

Cláudia sabia repartir. Eu não sei quanto ela de fato conhecia daquele homem que, numa Galileia distante, dividia pão e agia generosamente, fazendo da compaixão sua história de vida. Mas Cláudia era uma seguidora real daquele santo homem. Do pouco, multiplicava e fazia muito. Da dificuldade, extraía lições e escrevia trechos de esperança no futuro. Da pobreza, metamorfoseava-se na milionária mulher que foi, será, nunca se apagará.

Cláudia foi baleada – e amarrada, arrastada por um veículo da repressão. Não se sabe muito bem por quê. Uns dizem que foi fatalidade, que Cláudia estava no lugar errado, na hora errada. Outros afirmam que o episódio contra Cláudia é o reflexo indecifrável e aparentemente inesgotável de um país que não se sustenta e vive a se esquivar de si mesmo. No fundo, Cláudia é a enésima vítima da banalidade do mal, engordada a preconceito, violência institucionalizada, impunidade e mentalidade torpe, desgraçadamente reacionária.

Cláudia foi uma brasileira. Foi mulher, pobre, mãe, filha, neta e bisneta de quilombolas, rebeldes, cangaceiros e insurgentes. Cláudia é a atualização da luta de quem trabalha e sofre, encontra forças sabe Deus em quê.

Cláudia sou eu, somos todos nós.