10 março 2014

O fim do futuro


Tenho muito respeito e alimento grande admiração pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, conhecido em todo o mundo pelas suas análises sofisticadas, serenas e profundas sobre a sociedade contemporânea, a qual caracteriza como líquida, deveras líquida.

A liquidez do conjunto de nossas relações sociais torna tudo instável, suscetível, pouquíssimo consistente. Tudo em nosso entorno surge, cresce e deixa de existir antes que possamos entender o que está a ocorrer. No mundo líquido-moderno, a parceria mais viçosa é a que se estabelece entre a velocidade e a total impermanência: somos seres fugidios e provisórios. Raras vezes na história foi tão oportuno destacar a velha sentença shakespeariana de Marx: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.

Aos 83 anos, Bauman escreve sem parar. A toda hora vários livros seus são publicados ou relançados. No Brasil, mais de trinta títulos do sociólogo ocupam lugar privilegiado nas estantes das livrarias e na base do melhor que se realiza em termos de crítica social. Bauman é bem familiar aos intérpretes empenhados em refletir sobre a globalização e as andanças atuais do humano pelo planeta que prefere coisas e números a gente e sonhos. Mais do que isso: a obra do autor de “Modernidade Líquida” vem ajudando substantivamente na elaboração de propostas inteligentes e sustentáveis para enfrentar as duras crises de nossa época, implacavelmente múltiplas (econômicas, políticas e culturais) e inegavelmente totalizadoras (não há povo terrestre que desconheça sinais e desdobramentos desta nossa era de incertezas).

Em aparição pública recente, Bauman anunciou que vivemos o “fim do futuro”. Além do caráter líquido das ações humanas, que muda de forma e altera sua crassidade ao sabor dos ventos, as integrações entre os indivíduos já não têm fôlego – vivemos aqui, ali e acolá um dia depois do outro, sem que se saibamos exatamente para onde ir, o que fazer, com quem nos encontrar, em que nos apoiar... Sonhos e planos foram extintos em favor de um imediatismo incontornável e de um pragmatismo aclamado como elixir da felicidade. No centro do mundo residem o consumo ilimitado e o individualismo despudorado, ambos validados como sendo o próprio sentido da vida.

Sem um olhar sobre o outro (e suas outras formas de ser, viver e imaginar), o futuro só pode ser uma ilusão. Cientes da situação aparentemente sem saída que nos rodeia e manipula, pintamos no mapa a desesperança. Só há, então, o presente. Para sempre.