30 maio 2014

O flâneur


A mais famosa faixa de pedestres do mundo, lugar que um verdadeiro flâneur certamente observaria eternidade afora.

Num pequeno livro de reflexões, escrito no formato de cartas aos leitores e intitulado “A resistência”, o intelectual argentino Ernesto Sabato lamenta profundamente a pressa que nos envolve no mundo contemporâneo. Em permanente estado de ansiedade à flor da pele, os indivíduos não observam mais a vida ao redor; perderam a capacidade de ver, ouvir e dizer com serenidade e desejo. No mundo da velocidade que tenta inibir as restrições ao consumo e estimular os ímpetos em relação às coisas e suas armadilhas, cada um é apenas um, indiferente e atordoado.

O flâneur, que em francês significa simplesmente “vagabundo”, era o oposto desses átomos dispersos e reversos dos dias atuais. Charles Baudelaire, pensador de marginais (e, por favor, tentem entender esse termo de forma elogiosa e admirável), via o flâneur como o sujeito que experimenta a cidade, sua gente, suas luzes e labirintos. A busca do flâneur é pelo espaço ideal – parques, praças, lugares em que humanos se reúnam para fugir à transitoriedade urbana. O olhar do flâneur quer apenas um abrigo no caos da cidade. É por isso que, após longas jornadas por becos e vielas, ele se transforma no narrador de histórias de gente à beira do abismo.

O filosofo alemão Walter Benjamin, um dos maiores e mais importantes pensadores do século XX, compreendia o flâneur como um fenômeno típico da modernidade. Em meio à multidão, seu caminhar era leve e despreocupado; havia nele uma autonomia invejável, uma poesia rara. O flâneur, acima de tudo, era uma vida livre na selva de neoescravos baldados e maltratados entre avenidas e edifícios, filas e desamor.

Volto, então, a Ernesto Sabato.

Em seu opúsculo precioso, o saudoso hermano se pergunta como é possível viver nas metrópoles do planeta. Barulho, poluição, desencontros, gente à cata de mais posses para se tornar menos humana... O flâneur que sobrevivia ao caos (o arguto caçador urbano de Baudelaire), o errante de refinado olhar (o anti-herói de Benjamin), é figura em extinção. Por toda parte, o que se vê e encontra são seres delirantes, contaminados pela pressa, pelo fugaz e pela falsa promessa de felicidade da sociedade de consumidores. Nesta realidade, a sensibilidade converteu-se em artigo de luxo.

Há poucos flanando pelas ruas do mundo, fabricando versos na escuridão, narrando os sinais do absurdo e, ainda assim, nunca se separando da esperança. No fundo, a vida de cada um é um incessante escrutínio pela revelação do último flâneur, aquele cujo coração merece o amor de todos

27 maio 2014

A resistência


A jovem antidiva estadunidense Riley Reid e a pergunta que seus olhos formulam provocativamente: resistir por quê?

Toda história produz resistência. Não há evento que não gere oposição. No dia em que desaparecerem os indignados e os inconformados, a história desaparecerá.

Por mais duros e difíceis que sejam velhos e novos tempos, lá está a resistência, pequenos ou grandes grupos humanos que almejam diferentes caminhos, propõem alternativas em meio à resignação, ao medo, à desesperança.

Resistir é um verbo de múltiplas conjugações. Resiste-se a padrões e generalizações; a gritos e estrangulamentos; a sorrisos falsos e abraços forçados; a miudezas e avarezas; ao poder e seus gaiatos dependentes. Resistir, portanto, é movimento abrangente e sempre oportuno. Ao resistir, o sujeito se humaniza, clareia o refúgio escuro das ideias proibidas e produz raios em céu azul.

Por ser verbo múltiplo e possibilidade de ação de vasto alcance, resistir é também predicado da pluralidade (a presença de todos num mundo só) e qualidade incontornável da diversidade (um único mundo aberto a partilha entre muitas presenças).

Quanto maior o peso opressor da história (desejo de fazer o mundo todo palco de um só tipo de presença), no entanto, mais coesa e universal se faz a resistência. Para não deixar que o tempo se encerre nem tiranos triunfem, a resistência é capaz de integrar suas distintas parcelas, superando tensões e adiando as inevitáveis crises, para abrir horizontes de liberdade e comprometer-se por dias de sol, noites de lua.

Há um quê de clandestinidade em todo ato de resistência. Mesmo quando tolerados ou tidos por legais, os resistentes condenam o eixo da ordem, denunciam privilégios, atacam as injustiças. A resistência se opõe ao status e não aceita o mundo em seu estado de normalidade. A realidade dos normais é para poucos, detesta muitos, exclui a maioria – a resistência só pode, então, ser força insurgente, personagem marginal da história oficial.

É na rebeldia de todo trabalhador, dos homens e das mulheres que fabricam o universo com força e inteligência, que a resistência encontra seu habitat. Toda vez que o mundo do trabalho se expande por lutas e conquistas de direitos, a resistência se amplia, a história ganha novos capítulos, novos cenários, inéditas personagens.

A resistência, portanto, é o único e verdadeiro motor do tempo.