27 maio 2014

A resistência


A jovem antidiva estadunidense Riley Reid e a pergunta que seus olhos formulam provocativamente: resistir por quê?

Toda história produz resistência. Não há evento que não gere oposição. No dia em que desaparecerem os indignados e os inconformados, a história desaparecerá.

Por mais duros e difíceis que sejam velhos e novos tempos, lá está a resistência, pequenos ou grandes grupos humanos que almejam diferentes caminhos, propõem alternativas em meio à resignação, ao medo, à desesperança.

Resistir é um verbo de múltiplas conjugações. Resiste-se a padrões e generalizações; a gritos e estrangulamentos; a sorrisos falsos e abraços forçados; a miudezas e avarezas; ao poder e seus gaiatos dependentes. Resistir, portanto, é movimento abrangente e sempre oportuno. Ao resistir, o sujeito se humaniza, clareia o refúgio escuro das ideias proibidas e produz raios em céu azul.

Por ser verbo múltiplo e possibilidade de ação de vasto alcance, resistir é também predicado da pluralidade (a presença de todos num mundo só) e qualidade incontornável da diversidade (um único mundo aberto a partilha entre muitas presenças).

Quanto maior o peso opressor da história (desejo de fazer o mundo todo palco de um só tipo de presença), no entanto, mais coesa e universal se faz a resistência. Para não deixar que o tempo se encerre nem tiranos triunfem, a resistência é capaz de integrar suas distintas parcelas, superando tensões e adiando as inevitáveis crises, para abrir horizontes de liberdade e comprometer-se por dias de sol, noites de lua.

Há um quê de clandestinidade em todo ato de resistência. Mesmo quando tolerados ou tidos por legais, os resistentes condenam o eixo da ordem, denunciam privilégios, atacam as injustiças. A resistência se opõe ao status e não aceita o mundo em seu estado de normalidade. A realidade dos normais é para poucos, detesta muitos, exclui a maioria – a resistência só pode, então, ser força insurgente, personagem marginal da história oficial.

É na rebeldia de todo trabalhador, dos homens e das mulheres que fabricam o universo com força e inteligência, que a resistência encontra seu habitat. Toda vez que o mundo do trabalho se expande por lutas e conquistas de direitos, a resistência se amplia, a história ganha novos capítulos, novos cenários, inéditas personagens.

A resistência, portanto, é o único e verdadeiro motor do tempo.