20 junho 2014

Depois do abismo


para a UEL (com um amor maior que eu)

Existem reticências 
à beira do abismo, 
um medo das coisas,
uma crença quase
insultuosa
no pior.

Melhor então
é não se mover,
correr da história,
capturar o que há,
conformar-se com
o que não há,
nunca houve,
poderia até haver,
não fossem os três pontinhos
à beira do abismo...

Por que o medo?
(esta é a melhor palavra?)
Defronte dos sonhos,
a realidade precisa
vencer?
Volto no tempo,
revejo minhas velhas certezas
maximalistas,
e indago:
Que fazer?

Preciso confessar 
que já chorei diante 
do abismo,
que já tive medo de 
sentir medo.

Ao contrário de meus heróis,
tive tempo de sobra para
ter medo...

Mas pude aprender com 
o tempo, com as noites
intermináveis
à beira do abismo, fitando
as profundezas, desafiando
meus fantasmas, iludindo
meus demônios.

Um grande eco,
com som de provérbio,
sempre me repetiu
que tudo viria aos quarenta –
e do primeiro tempo.

Que bom ter tido tempo,
ter poupado um pouco
de seus enigmas.
Agora é hora de gastá-lo
(ganhando-o ainda mais)
longe do abismo,
depois do seu final.