14 julho 2014

Educação e Sensibilidade


"La Douleur" (1902), de Pablo Picasso

Fui, sou e serei um incansável defensor da educação como locomotiva de desenvolvimento social. Até por considerar anacrônicos os modelos civilizatórios que apostam no sucesso econômico como sinônimo de progresso, prefiro investir meus esforços de pensamento e ação na constituição de mentalidades livres, sem preconceitos, que estimulem o bom uso da palavra e questionem com inteligência os atropelos sofridos pelo universal valor da democracia. É nesse sentido que percebo insubstituível o papel da escola em nossa sociabilidade.

Devo admitir, contudo, que a educação não é capaz de operar todo tipo de milagre. Como reflexo dos valores em circulação na vida social, a escola educa para integrar, permitir acessos, reproduzir o ethos geral da vida em comunidade.

No atual momento de nossa vida líquida, para falar com o instigante sociólogo Zygmunt Bauman, o transitório vale mais do que o duradouro, o competitivo vale mais do que o cooperativo, o ter vale mais do que o ser, a apatia vale mais do que a empatia, o desinteresse vale mais do que o engajamento, o divertido vale mais do que o importante, o agora é infinitamente mais valioso que o amanhã.

Assim, educação e sensibilidade são apartadas, passam a não ser mais almas gêmeas. Na escola, em se considerando um “bom” e “organizado” ambiente educacional, aprendemos números, regras, formas, eventos e fenômenos que tornem possível crescer e fazer girar a roda da fortuna. Raras vezes levamos vida afora os amigos e os aprendizados mais humanos dos tempos escolares. Isso porque, numa dura vida em um mundo de trocas entre coisas e seus proprietários, somos afastados das lições de afeto e sensibilidade.

Do início ao fim da vida, perdemos a capacidade de indignação, acostumamo-nos com o barulho, a feiura e a errância cotidiana. Tornamo-nos insensíveis à dor e também à alegria dos outros, não obstante muitas vezes ostentarmos diplomas e currículos escolares de todas as técnicas e sortes. Educados, talvez. Sensíveis, humanos, dispostos a mudar o mundo para vermos o avesso de tudo e de nós mesmos, ainda não.