23 julho 2014

O mundo é logo ali


A cantilena nem é mais tão nova: vivemos num mundo cada vez menor, graças aos avanços da tecnologia e às inovações nos transportes e nas comunicações.

Diariamente, a TV e a internet desnudam o universo diante dos nossos olhos (seríamos meras cascas de noz?). Não há mais fronteiras a derrubar. Não há mais culturas a desvendar. Não há mais nada a conhecer.

Neste mundo aparente e sugestivamente tão integrado e fascinante, o que parece não haver também são crises, contradições e conflitos. Já houve quem num passado recente, eufórico à frente de uma malfadada ideologia de estado, decretasse o fim da história, postulando que o futuro seria um infinito cenário de acomodações, pequenos ajustes e tímidas reformas. O sonho, enfim, terminara.

O mundo em que vivemos é, de fato, fabricado bem longe de nós. Os arranjos políticos e institucionais, a eleição dos termos de produção e consumo, o papel dos povos na partilha do planeta, tudo isso é discutido, avaliado e tomado como certo nas assembleias dos donos do mundo, nas reuniões de cúpula do G7, nos encontros anuais do Fórum Econômico Mundial - nos belos alpes suíços - e nos jantares regalados dos agentes do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Lá se decide, aqui se vive.

Nas decisões e pretensões globais não aparecem a diversidade e as tensões locais. Na frieza dos números que estabelecem metas, impõem taxas, exigem quesitos, o ser humano e toda a dramaticidade do sujeito não têm nenhuma importância. Em nome de estratégias unilaterais de alinhamento de condutas e perpetuação da ordem mundial, populações de continentes inteiros são prejudicadas, anuladas, perturbadas em seus lugares históricos de vida, trabalho e luta.

Nesse complexo ritmo de “unificação” do mundo, fato que agride covardemente o discurso de respeito e garantias de integridade da pluralidade humana, a política vai se tornando irrelevante, uma vez que as instituições nacionais são sequestradas pelos poderosos chefões do vil metal para servir aos organismos financeiros de seus grupos de negócios, exploração e especulação. Partidos, sindicatos e toda sorte de representação coletiva desaparecem perante a truculência das moedas globais e suas transnacionais sedentas por realidades sem direitos nem resistência.

Não sei se existem saídas, mas é meu dever como sujeito-esperança acreditar nelas. Acreditar, procurar e divulgar os caminhos desse exercício. Por ora, continua válida demais a velha sentença: “Devemos agir localmente e pensar globalmente”.