16 julho 2014

Solidão


Não sei se a solidão é um exílio voluntário ou uma espécie de castigo que a vida aplica sobre incautos, pecadores e egoístas. O que sei é que é completamente possível sentir-se só em meio a multidões e também viver abraçado pela vida em silenciosos e distantes refúgios. Acima de tudo, a solidão é uma forma de encarar o mundo.

Aqueles que se fazem acompanhar de boas ideias e de importantes realizações para o gênero humano nunca se sentem sozinhos. A produção de histórias faz da experiência cotidiana um baú de preciosidades. Acertou em cheio Gabriel García Márquez quando afirmou que a vida não é o que se vive, mas sim o que se recorda. Quem não tem de que se recordar é retirado de sua própria solidão e condenado, paradoxalmente, a viver sem nenhuma companhia.

Há tanto a rever em nós e nos outros que a desculpa da solidão não pega, não tem valor. Livros, músicas, filmes, cenários do planeta inteiro, tudo é alma habitando nossos corações e mentes. Como alegar abandono quando se pode aproveitar a incrível sorte dos romances de Gabo, Onetti, Hemingway, Coetzee e Kafka? Seria justo reclamar de solitude numa realidade que nos dá a toda hora a música dos Beatles, dos Stones, do Bob Dylan e do Pearl Jam? E o que dizer da poesia de Manoel de Barros, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade? Que tipo de loucura é dizer-se só no instante em que toda essa gente nunca nega seus versos e ritmos a ninguém?

Na infância, lembro que meus pais se preocupavam um pouco além da conta comigo. Eu passava dias mergulhado em minhas revistas em quadrinhos. Mais tarde, nos tumultuados anos da adolescência, passei a fazer a mesma coisa em relação aos memoráveis discos de vinil de rock e às fitas VHS com grandes clássicos do cinema. As rugas de desassossego dos meus pais eram tolice: eu estava muitíssimo bem, sendo apresentado ao mundo pelos mais interessantes e destacados tipos humanos.

Toda vez que me dispunha a ver gente de carne e osso, procurava nelas, antes de tudo, corações iluminados. Foi assim que encontrei amigos generosos e sábios que me indicaram mais coisas para ler, ver e ouvir. Até hoje minha vida é uma ponte aérea constante entre a ficção e a realidade – de cada uma dessas paradas aprendo a como me sentir melhor e mais à vontade no mundo.

Nunca estou só. Sempre me refaço em minhas ideias. Vivo rodeado de gente, ainda que eu esteja aparentemente sozinho.