18 agosto 2014

Animais em mutação


O filósofo húngaro Georg Lukács (1885-1971) dizia que, em termos de marxismo, a única ortodoxia aceitável é a do método. A frase, aparentemente dirigida a especialistas, carrega, se bem traduzida para o mundo dos vivos, um sentido extraordinariamente fecundo e oportuno.

O método de Marx é a dialética, essa semente lançada aos dragões que quer provar que a vida é pura contradição. Na união e na desunião, o mundo é a síntese de contrários, enfrentamentos, ásperas e às vezes inconciliáveis oposições. O velho Marx foi ao universo do trabalho validar a dialética que encontrou, na sua destemida vida de estudante, em Platão e Hegel. O autor mais célebre do nosso tempo – afinal, ainda é tempo de resgatar Marx – tirou a dialética do mundo do espírito e a ela ofertou o mundo real dos homens. Percebeu, então, que a realidade é dura e difícil, leve e suave, rica ou pobre, marginal ou exuberante, tudo a depender dos conflitos a investigar, dos interesses a desnudar, dos seres humanos a destacar. Enfim, o mundo não é; torna-se – e não para nunca de tornar-se mais uma vez e de novo.

Desde Marx, um pensador do século 19, muita coisa mudou. E se ele estava realmente certo, vai continuar mudando. No entanto, a investigação da vida por meio daquilo que se oculta e revela, interesses e potências, forças e resistências, talvez se faça como a única incontestável permanência neste fluxo contínuo de idas e vindas que é a travessia humana.

Aqui, ali e acolá, é possível e desejável reinventar-se. Ora, se tudo muda, a essência de quem quer fazer diferente só pode ser a reinvenção. Uma mudança de si, para que haja a diferença em si e uma transformação radical para si. Foi o saudoso filósofo brasileiro Carlos Nelson Coutinho (1943-2012) quem ensinou: “Para que não nos tornemos animais em extinção, nós, marxistas, precisamos nos converter em animais em mutação.”

Há uma longa tradição do pensamento e da ação devedora a Marx. Revisitar para reavaliar essa longa história, aprimorando o que há de bom e cortando na carne e na alma o que há de ruim (fortalecendo a autocrítica e fugindo ao triunfalismo inócuo), é tudo em nome de que se pode ser marxista de verdade.