11 agosto 2014

Punk's not dead


Um bom sebo pode promover grandes roteiros de viagem. Sempre que posso, permaneço algumas horas nos sebos, pulando de século em século, alternando entre críticas, revisitando diferentes histórias, sem perder de vista a hora do necessário e inevitável retorno.

Há algum tempo, depois de uma longa viagem num dos pouquíssimos sebos da cidade, voltei para casa com um velho especial em quadrinhos de Bob Cuspe, que o cartunista Angeli eternizou nos anos 1980 na revista “Chiclete com Banana”.

Adolescente, eu adorava Angeli, Glauco, Laerte, Fernando Gonsales e os quadrinhos marginais. “Chiclete com Banana”, “Geraldão”, “Piratas do Tietê” e “Níquel Náusea” eram misturados aos cadernos escolares e lidos em grupo, nos intervalos das aulas. Havia uma escola dentro da escola naquelas revistas: nossa formação, a da minha geração, era devida às duas, à oficial e à alternativa.

Bob Cuspe era o nervo exposto daquele mundo aparentemente certinho em que vivíamos. Suas cusparadas medonhas expressavam o avesso, a hipérbole do caos, a tentativa de dizer que estava tudo errado, que tudo era falso... Bob Cuspe era nossa sombra, aquela projeção proibida da gente que a escola e o mundo censuravam com suas mentiras e seus discursos civilizados.

Bob Cuspe, como bom punk, morava no esgoto, em meio à sujeira que escondíamos embaixo do mundo. (Uma sujeira, é preciso dizer, que aduba o que tem viço no mundo das aparências.) Acho que foi com Bob Cuspe que entendi a hipocrisia pequeno-burguesa, o cinismo dos ricos, o anestesiamento dos pobres, a banalidade da juventude. Graças a Bob Cuspe ingressei numa banda de rock, cursei Ciências Sociais, fui para a esquerda e aprendi a gritar “Punk's not dead!”

Em casa, naquela noite que se seguiu à tarde de viagens pelo sebo, passei horas relendo Bob Cuspe. Lembrei-me de várias tirinhas – elas ainda estão vivas na memória. Percebi, então, que o velho punk não está vivo somente no que digo e faço, mas também (e principalmente) num gigantesco imaginário alimentado por rebeldes e sonhadores que não entregam os pontos nem desistem de lutar. Muita coisa tem mudado, outras tantas decerto irão mudar. Uma, contudo, permanece intocada: ainda posso gritar com satisfação “Punk's not dead!”