24 setembro 2014

Os anticomunistas


O sentimento anticomunista é ingênuo e alucinado. Observando panoramicamente a imprensa brasileira, percebe-se sua já vasta presença em todo tipo de veículo. Vinte e cinco anos depois da queda do Muro de Berlim, mais de duas décadas convivendo globalmente sem a bipolarização Ocidente versus Oriente, meio século mais tarde das denúncias contra Stalin e os malogros da Revolução Cultural Chinesa, o anticomunismo ainda expõe sua mania de perseguição e insiste em alertar o mundo contra a ameaça vermelha. Em crônica recente e sublime, o escritor Zuenir Ventura foi feliz e contundente: “Acabar com o comunismo até que foi fácil; difícil será acabar com o anticomunismo.”

De que se alimenta essa fantasmagoria? O que de fato veem no lugar do que consideram ser os comunistas e suas diatribes? O que quer esconder essa percepção tão equivocada e anacrônica da vida e da história?

No Brasil, em particular, o fenômeno tem parcela de sua origem na ascensão social de milhões de cidadãos, em parte patrocinada por políticas públicas postas em prática por um partido identificado à esquerda e ainda no poder há mais de um decênio. Todo esse tempo foi suficiente para fazer germinar na vida social sementes ancestrais de nossa mentalidade colonial, movida pelo ódio ao outro e avessa a toda forma de democratização real do país. Além disso, prevalece entre setores médios e abastados da sociedade brasileira um medo irracional das massas, cuja foz costuma ser a mesma do ranço, da irresponsabilidade e da violência.

Os anticomunistas asseguram em suas colunas na grande imprensa e nos seus espaços no território livre da internet que os esquerdistas se disseminam por toda parte, pregando a luta de classes, o horror ao livre mercado e a raiva contra quem empreende e trabalha. Ao mesmo tempo, os delirantes mais exaltados afirmam que o Brasil e a América Latina são laboratório de um pérfido complô internacional que deseja converter o continente numa nova Cuba ou numa China ocidental. Tal qual o personagem infantil do filme “Sexto Sentido”, exibido na grande tela no fim dos anos 1990, os anticomunistas veem muitos fantasmas, só que, em vez de mortos, como o garoto da película, enxergam comunistas até dentro dos armários de casa.

O interessante é notar que os comunistas (que hoje teriam dificuldade de lotar uma Kombi) mudaram muito desde o final da Guerra Fria – e até mesmo antes, como o provam as experiências do eurocomunismo e da luta democrática contra as ditaduras civil-militares orquestradas e financiadas pelos Estados Unidos na América Latina. Já os anticomunistas permanecem exatamente os mesmos: preconceituosos, avessos à história e à inteligência, procurando nos outros a razão da miséria insuportável de seus espíritos.