26 setembro 2014

Só as melhores palavras


Juan Carlos Onetti (1909-1994), um gigante escritor uruguaio, afirmou certa vez que só deveriam ser ditas as palavras que fossem melhores do que o silêncio. Há sabedoria em excesso nessa tão contundente sentença.

Na aclamada era da informação, fala-se de tudo o tempo todo. Os meios se multiplicam numa razão quase inversa à da tomada de consciência pelos sujeitos do mundo. Talvez por se julgarem devidamente antenados, plugados e conectados, os indivíduos se esqueceram de que vivem uma realidade desigual, numa sociedade atravessada por distinções e múltiplos mecanismos de exercício do poder. Em toda parte, a exploração do corpo e do espírito, a apropriação abrupta da riqueza coletiva por meia dúzia de endinheirados, a futilidade das formas e o assombro dos conteúdos, tudo inspira cuidado, requer muito mais do que meras fontes de informação.

Arrisco dizer que o silêncio urgente de Juan Carlos Onetti brada pela companhia da indignação.

A indignação, símbolo da rebeldia, necessita de informação, gente sintonizada, pluralidade de meios, abundância das mensagens. Mas precisa de muito mais também: para não se converter em histeria e gritaria sem vigor, a indignação deve ser antecedida pelo silêncio, essa matéria-prima do justo apreço, da reflexão pausada, da inquietação profunda das ideias. Quando num bom arranjo com o silêncio que dá vida à crítica inteligente, a indignação transforma informação em ação, palavras em promissora realidade.

Nosso tempo, inflamado pelo mundo virtual, estendeu opinião e juízo a um número monumental de indivíduos. Cada um parece ter o mapa da mina da verdade. O problema, contudo, é que a opinião e o juízo pós-modernos prescindem do silêncio, põem no mundo qualquer coisa, sem reflexividade nem pertinência.

Acredito que uma sociedade efetivamente livre deva ampliar vozes e lutar incansavelmente para que novos direitos enriqueçam o número dos que têm vez e valor. Essas conquistas, no entanto, não podem ser a consagração do descaso e da indiferença pelo outro, seus sentidos e razões.

Na dúvida - também ela um elixir do bom senso -, ideal é que nos abriguemos no silêncio. Lá aprendemos o que é melhor dizer ou escrever.