31 outubro 2014

O lobo atrás da porta


Quantas versões tem uma história? De quantas verdades é feita uma única realidade? Em meio à diversidade de opiniões, em quem confiar? Sou dos que acreditam que, quando todos dizem estar corretos, nada mais há para saber, nada mais há para definir como sensato e inteligente.

“O lobo atrás da porta”, filme dirigido e roteirizado por Fernando Coimbra, em 2013, é sobre os incontáveis conflitos de versões apesar dos quais a vida continua a seguir em frente. Nas tramas supostas ou evidentes em que se vê o triângulo Rosa, Bernardo e Sílvia, difícil é apontar o justificável ou mesmo o compreensível. A cada instante, a preferência do espectador migra das desrazões de uma personagem para as de outras, concluindo que toda convicção inabalável sempre será uma tomada precipitada de consciência.

Ambientado num subúrbio carioca de encantos e decadências, “O lobo atrás a porta” é uma dessas produções do novíssimo cinema brasileiro que enchem de orgulho todos que acreditam na arte e na cultura do país. Convicto em suas pretensões, as quais não têm por que ser modestas nem terceiro-mundanas (no sentido pejorativo dessa palavra), o filme é atraente e perturbador. Além das questões sobre fatos e versões, verdade e realidade, ele inspira também inquietações sobre a condição humana. Uma pergunta, no decorrer do filme, se separa das tantas que burilam nossas ideias e salta aos sentidos: afinal, por que insistimos tanto em decepcionar todo o mundo, inclusive a nós mesmos?

Num jogo de cena previsível e a um só tempo acovardado por não assumir desdobramentos nem a força dos desejos que o põe em movimento, o fato é que Rosa ama Bernardo, que por sua vez ama Rosa e também Sílvia, que se cansou de Bernardo e até insinua ter encontrado um pouco de si em Rosa. No início e no fim, contudo, Rosa - vivida por uma Leandra Leal deslumbrante e desconcertante – quer apenas um amor para recomeçar. Talvez apenas começar...

No xadrez das peças que para sobreviver precisam conhecer antecipadamente as estratégias não declaradas do adversário, a tragédia se consuma e, como reza a tradição, surpreende e escandaliza. No limite dos horrores, num filme que cutuca feridas expostas e camufladas, assumidas e envergonhadas, a evidência incontestável é de que rosas são flores que merecem um lindo jardim e olhos cuidadosos. Aos jardineiros distraídos ou indiferentes, seus espinhos jorram veneno letal.

Um filme daqueles dos bons mesmo.

28 outubro 2014

Pão bolorento. Ou: as aparências enganam


Um velho adágio do senso comum costuma afirmar que, quando desconhecida ou ignorada, a história tende a ser cruel e implacável. Não olhar para trás é sinal de que os caminhos pela frente serão cheios de pedregulhos – e nada, portanto, terá como garantir algum alívio no horizonte.

A defesa liberal dos intocáveis mercados, que pressupõem espíritos empreendedores destemidos e avessos à autoridade coletiva, é uma das tantas vítimas dentre os que ignoram o fardo do tempo histórico. Entre o final dos anos 1920, após o fim do mundo promovido pela sanha do lucro incessante, e o início da década de 1980, os liberais cultivaram um autoimposto silêncio obsequioso.

O que todos pensavam – ou poderiam ter pensado – ser evidência de uma dura autocrítica acabou por se revelar a hibernação de um monstro. Desperta na era Thatcher e Reagan, a fera neoliberal (que de nova não tinha nada) voltou para culpar os direitos dos trabalhadores, o patrimônio público e a regulação da insana e predatória atividade mercantil pelos males do mundo. Pela segunda vez no mesmo século, produziu suas típicas e previsíveis atrocidades. Saiu de cena e, assustadoramente, está de volta.

É certo que, para retornar, os condenados pela história precisam apontar criminosos supostamente ainda mais sanguinários e terríveis. Não há como obter indulto sem alcaguetar alguém por algo mais grave, que, afinal, justifique, de algum modo, a anistia ou a leniência. Por isso, o liberalismo de hoje é resultado de um estranho acasalamento com o conservadorismo moral e o sentimento anticomunista. Reunidos, depois de uma inconfessável orgia, os algozes do tempo dizem que a tragédia é vermelha, estatal, imoral e autoritária, um atentado contra a família, as liberdades individuais e as almas generosas daqueles que querem promover o desenvolvimento e são impedidos pelos “comedores de criancinhas”.

Numa época de vidas mais virtuais que reais, consumista, fragmentada e pouquíssimo afeita a profundidades de ideias e ideais, os liberais, conservadores e anticomunistas aprisionam em suas fileiras delirantes os mais jovens, sobretudo; ao mesmo tempo, abrem as portas dos calabouços onde estavam confinados, pela vergonha, os ancestrais do ódio, da intolerância e do pensamento mágico, que querem resolver tudo à bala, sem argumentos nem demonstração de possuir um mísero sinal de vida inteligente.

A sabedoria popular é prodigiosa: novos ou velhos, esses seres são, por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.

21 outubro 2014

TODAS


Todas povoam
minha imaginação;
é um arco-íris
de tons, uma geometria
infinita
de curvas sempre
sedutoras.

Não me abandonam
um só instante;
falam comigo sem
nada dizer,
apenas insinuação,
existência,
coração batendo
insanamente.

Gosto
das que são
belas
de todas as
formas –
imprescindível
é que digam
à minha imaginação
que irão me amar
até o fim,
até o início
de tudo.

Dedico minhas
melhores energias
a todas,
uma de cada vez,
várias ao mesmo
tempo,
uma homenagem que
nunca cessa
(precisarei
parar um dia?)

Seu veneno mata
e alimenta
meu corpo,
meu espírito:
desconcentra-me,
impede-me
aniquila-me –
ao mesmo tempo,
o prazer que sinto
jamais poderá
ser castigado.

Há delírio
no mundo
inteiro
de suor
e paixão que
faz girar o vício,
a dança
e o beijo inexistente.

20 outubro 2014

O ódio à democracia


Ensaios são escritos em que o autor não precisa se esconder entre rigores de estilo e academicismos de forma e conteúdo. Um ensaísta é um cidadão livre e tanto melhores serão seus textos quanto mais evidente for a responsabilidade com a qual os redige. Afinal, a liberdade é condição da responsabilidade e a convicção com que se escreve é uma consequência da mais pura liberdade.

É livre o mais recente ensaio do francês Jacques Rancière publicado no Brasil, intitulado corajosamente “O ódio à democracia”. A iniciativa da igualmente destemida Boitempo Editorial, uma editora de belíssimo catálogo do mais nobre artesanato intelectual do pensamento crítico e progressista, surge em boníssima hora, na turbulência do debate antipolítico deste tenso período eleitoral.

“O ódio à democracia” é, para além de um ensaio livre, responsável e tomado por generosas convicções, um livro em defesa daqueles que resistem na preservação dos sentidos mais gloriosos da palavra “democracia”. Em campo nessa árdua tarefa, Rancière não vacila: os que odeiam veementemente a democracia costumam posar como seus únicos e mais honestos paladinos.

A democracia nunca foi consenso na história. Dos gregos que a propuseram aos pós-modernos que vivem a relativizá-la, ela pertence de fato ao povo e está estreitamente vinculada às lutas das minorias e pela ampliação de direitos e conquistas em prol de mais e melhor igualdade entre os sujeitos do mundo. É nesse sentido que Rancière atesta não vivermos uma era democrática, e, sim, um tempo de oligarquias e de um direito que reduz valores universais a interesses mesquinhos e privatistas.

Encalacrado nas estruturas de poder e de difusão da informação - rechaçando a democracia -, o ódio é contra o povo e suas formas de ver e ser. O fechamento de instituições e das “grandes rodas” ao universo popular não tem nada de democrático. Antes, o contrário: limita a democracia e a engaiola num conservadorismo vil, que insiste apoiar a tese de que a soberania popular irá enterrar a civilização. É por isso que existe tanta ojeriza à ascensão social dos mais pobres e à ocupação dos espaços públicos por aqueles que foram entregues à eternidade das senzalas. Irônica e tragicamente, os arautos da democracia que não é democracia detestam repartir benesses e se solidarizar, ampliar horizontes e alterar sentidos. O ódio à democracia é, de muitas maneiras, um sentimento patológico de aversão à humanidade.

Enfim, um livro obrigatório! Um ensaio para o nosso tempo!

13 outubro 2014

Utopia: a história de uma ideia


Leandro Konder, um dos intelectuais vivos mais brilhantes do país, diz que “... a utopia é uma fonte que alimenta inquietações generosas, nobres ímpetos justiceiros e uma preciosa disposição para a busca da felicidade universal. Nela se revelam aos seres humanos aspetos novos de suas carências, anseios, fantasias e desejos.” Aprecio demais essa definição de utopia. Considero-a bastante abrangente, sutil, recheada de pontos para análise. Nas ricas palavras de Konder, a utopia se revela prenhe de história, uma gigantesca ideia.

No livro “Utopia: a história de uma ideia”, do historiador britânico Gregory Claeys, lançado há pouco no Brasil pelas Edições SESC-SP, a definição de Leandro Konder parece se desdobrar em vários capítulos, minuciosos, numa obra de arte que é item obrigatório na biblioteca de todo coração revolucionário.

Em mais de duzentas páginas fartamente ilustradas e coloridas, impressas em papel especial, o livro de Claeys viaja pela história da ideia utópica, dos mitos clássicos da religião e da filosofia à ficção científica literária e cinematográfica.

Por meio de uma linguagem rica e extremamente acessível a todos os públicos, “Utopia: a história de uma ideia” resgata a fonte das inquietações generosas que ousaram praticar a igualdade; desvela os nobres ímpetos justiceiros movidos a liberdade e sonhos de virtude; condecora a preciosa disposição de homens e mulheres que não temeram enfrentar as forças da ordem em nome de uma felicidade de fato para toda a humanidade. No caminho, bastante sinuoso e empedrado, o livro não oculta os equívocos nem as distopias, o cruel avesso das lutas fraternas dos povos da Terra.

Entre filósofos, líderes religiosos, comandantes revolucionários e mentes inconformadas, a utopia foi arte, pensamento, ação e reação. Acima de tudo, foi matéria-prima de almas resistentes e sempre abertas para o novo. Lendo atentamente o texto de Gregory Claeys, incomoda uma já velha pergunta: “Onde estão as utopias dos nossos dias?!”

Bela e farta em personagens e eventos, enriquecida com uma arte plural que ilustra a multiplicidade das insistentes ideias do tempo, a obra de Claeys sobre a trajetória da utopia como ideia merece um lugar de destaque não somente na estante de livros de cada um de nós, mas, muito mais, num local bem franco e visível em nossas casas e corações.

06 outubro 2014

O abismo prateado


O filme de Karim Aïnouz “O abismo prateado” versa sobre o silêncio que há em nós e com o qual nos acostumamos de forma despreocupada e indiferente. Livremente inspirado na canção “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque de Holanda, a produção de 2013 pondera a respeito do repentino, aquele instante em que o chão falta aos pés.

Afinal, afirma a canção, existe um longo caminho a percorrer entre a sensação de abismo à porta de nossa vida e o refazer da história. Aquele que parte, para o sim e para o não, sai à cata da sua felicidade. Se for alguém que saiba e mereça amar, deseja que quem fica também seja feliz. Ainda assim, todos os que partem se julgam insubstituíveis e vitais, alegando ser de fato a razão da alegria dos que permanecem e precisam continuar. No caráter minimalista de “O abismo prateado”, a esperança repousa nos detalhes da existência de quem fica e tem urgência em encontrar um sentido para a vida, um que seja bem mais do que uma ilusão.

Vivendo Violeta, a esposa que fica de um marido que parte, Alessandra Negrini é um espetáculo comovente. Comove porque é diva e deusa; comove porque transmite a dor inquestionável dos que ficam e não sabem o que fazer nem para onde ir; comove porque, apesar do tom desesperado dos gestos, faz da indignação inicial diante da tragédia um elemento central para erguer a fortaleza tranquilizadora da decisão final.


O filme de Aïnouz dá a canção de Chico Buarque imagens que ampliam o alcance das palavras e dos versos. A revanche no trecho “Olhos nos olhos / Quero ver o que você faz / Ao sentir que sem você eu passo bem demais” não aponta o desejo de Violeta reencontrar o marido. Antes, destaca a feminina coragem que soube encontrar a si mesma depois de anos de uma vida conjugal aparentemente normal. Na normalidade dos dias residia um medo que teve de conhecer a anormalidade para ser superado e se converter em confiança e liberdade.

Alessandra Negrini, ao sorrir tão enigmaticamente quanto a Monalisa, de Da Vinci, desvela a exuberância de sua personalidade. Talvez seja um exagero afirmar que Alessandra é maior que o filme. Talvez. Mas me parece indiscutível supor que nem Chico Buarque materializaria sua canção tão bem quanto ela. O diretor Karim Aïnouz revelou-se um midas: tornou ouro uma canção que já era uma joia – e acabou fazendo arte!