06 outubro 2014

O abismo prateado


O filme de Karim Aïnouz “O abismo prateado” versa sobre o silêncio que há em nós e com o qual nos acostumamos de forma despreocupada e indiferente. Livremente inspirado na canção “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque de Holanda, a produção de 2013 pondera a respeito do repentino, aquele instante em que o chão falta aos pés.

Afinal, afirma a canção, existe um longo caminho a percorrer entre a sensação de abismo à porta de nossa vida e o refazer da história. Aquele que parte, para o sim e para o não, sai à cata da sua felicidade. Se for alguém que saiba e mereça amar, deseja que quem fica também seja feliz. Ainda assim, todos os que partem se julgam insubstituíveis e vitais, alegando ser de fato a razão da alegria dos que permanecem e precisam continuar. No caráter minimalista de “O abismo prateado”, a esperança repousa nos detalhes da existência de quem fica e tem urgência em encontrar um sentido para a vida, um que seja bem mais do que uma ilusão.

Vivendo Violeta, a esposa que fica de um marido que parte, Alessandra Negrini é um espetáculo comovente. Comove porque é diva e deusa; comove porque transmite a dor inquestionável dos que ficam e não sabem o que fazer nem para onde ir; comove porque, apesar do tom desesperado dos gestos, faz da indignação inicial diante da tragédia um elemento central para erguer a fortaleza tranquilizadora da decisão final.


O filme de Aïnouz dá a canção de Chico Buarque imagens que ampliam o alcance das palavras e dos versos. A revanche no trecho “Olhos nos olhos / Quero ver o que você faz / Ao sentir que sem você eu passo bem demais” não aponta o desejo de Violeta reencontrar o marido. Antes, destaca a feminina coragem que soube encontrar a si mesma depois de anos de uma vida conjugal aparentemente normal. Na normalidade dos dias residia um medo que teve de conhecer a anormalidade para ser superado e se converter em confiança e liberdade.

Alessandra Negrini, ao sorrir tão enigmaticamente quanto a Monalisa, de Da Vinci, desvela a exuberância de sua personalidade. Talvez seja um exagero afirmar que Alessandra é maior que o filme. Talvez. Mas me parece indiscutível supor que nem Chico Buarque materializaria sua canção tão bem quanto ela. O diretor Karim Aïnouz revelou-se um midas: tornou ouro uma canção que já era uma joia – e acabou fazendo arte!