20 outubro 2014

O ódio à democracia


Ensaios são escritos em que o autor não precisa se esconder entre rigores de estilo e academicismos de forma e conteúdo. Um ensaísta é um cidadão livre e tanto melhores serão seus textos quanto mais evidente for a responsabilidade com a qual os redige. Afinal, a liberdade é condição da responsabilidade e a convicção com que se escreve é uma consequência da mais pura liberdade.

É livre o mais recente ensaio do francês Jacques Rancière publicado no Brasil, intitulado corajosamente “O ódio à democracia”. A iniciativa da igualmente destemida Boitempo Editorial, uma editora de belíssimo catálogo do mais nobre artesanato intelectual do pensamento crítico e progressista, surge em boníssima hora, na turbulência do debate antipolítico deste tenso período eleitoral.

“O ódio à democracia” é, para além de um ensaio livre, responsável e tomado por generosas convicções, um livro em defesa daqueles que resistem na preservação dos sentidos mais gloriosos da palavra “democracia”. Em campo nessa árdua tarefa, Rancière não vacila: os que odeiam veementemente a democracia costumam posar como seus únicos e mais honestos paladinos.

A democracia nunca foi consenso na história. Dos gregos que a propuseram aos pós-modernos que vivem a relativizá-la, ela pertence de fato ao povo e está estreitamente vinculada às lutas das minorias e pela ampliação de direitos e conquistas em prol de mais e melhor igualdade entre os sujeitos do mundo. É nesse sentido que Rancière atesta não vivermos uma era democrática, e, sim, um tempo de oligarquias e de um direito que reduz valores universais a interesses mesquinhos e privatistas.

Encalacrado nas estruturas de poder e de difusão da informação - rechaçando a democracia -, o ódio é contra o povo e suas formas de ver e ser. O fechamento de instituições e das “grandes rodas” ao universo popular não tem nada de democrático. Antes, o contrário: limita a democracia e a engaiola num conservadorismo vil, que insiste apoiar a tese de que a soberania popular irá enterrar a civilização. É por isso que existe tanta ojeriza à ascensão social dos mais pobres e à ocupação dos espaços públicos por aqueles que foram entregues à eternidade das senzalas. Irônica e tragicamente, os arautos da democracia que não é democracia detestam repartir benesses e se solidarizar, ampliar horizontes e alterar sentidos. O ódio à democracia é, de muitas maneiras, um sentimento patológico de aversão à humanidade.

Enfim, um livro obrigatório! Um ensaio para o nosso tempo!