28 outubro 2014

Pão bolorento. Ou: as aparências enganam


Um velho adágio do senso comum costuma afirmar que, quando desconhecida ou ignorada, a história tende a ser cruel e implacável. Não olhar para trás é sinal de que os caminhos pela frente serão cheios de pedregulhos – e nada, portanto, terá como garantir algum alívio no horizonte.

A defesa liberal dos intocáveis mercados, que pressupõem espíritos empreendedores destemidos e avessos à autoridade coletiva, é uma das tantas vítimas dentre os que ignoram o fardo do tempo histórico. Entre o final dos anos 1920, após o fim do mundo promovido pela sanha do lucro incessante, e o início da década de 1980, os liberais cultivaram um autoimposto silêncio obsequioso.

O que todos pensavam – ou poderiam ter pensado – ser evidência de uma dura autocrítica acabou por se revelar a hibernação de um monstro. Desperta na era Thatcher e Reagan, a fera neoliberal (que de nova não tinha nada) voltou para culpar os direitos dos trabalhadores, o patrimônio público e a regulação da insana e predatória atividade mercantil pelos males do mundo. Pela segunda vez no mesmo século, produziu suas típicas e previsíveis atrocidades. Saiu de cena e, assustadoramente, está de volta.

É certo que, para retornar, os condenados pela história precisam apontar criminosos supostamente ainda mais sanguinários e terríveis. Não há como obter indulto sem alcaguetar alguém por algo mais grave, que, afinal, justifique, de algum modo, a anistia ou a leniência. Por isso, o liberalismo de hoje é resultado de um estranho acasalamento com o conservadorismo moral e o sentimento anticomunista. Reunidos, depois de uma inconfessável orgia, os algozes do tempo dizem que a tragédia é vermelha, estatal, imoral e autoritária, um atentado contra a família, as liberdades individuais e as almas generosas daqueles que querem promover o desenvolvimento e são impedidos pelos “comedores de criancinhas”.

Numa época de vidas mais virtuais que reais, consumista, fragmentada e pouquíssimo afeita a profundidades de ideias e ideais, os liberais, conservadores e anticomunistas aprisionam em suas fileiras delirantes os mais jovens, sobretudo; ao mesmo tempo, abrem as portas dos calabouços onde estavam confinados, pela vergonha, os ancestrais do ódio, da intolerância e do pensamento mágico, que querem resolver tudo à bala, sem argumentos nem demonstração de possuir um mísero sinal de vida inteligente.

A sabedoria popular é prodigiosa: novos ou velhos, esses seres são, por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.