10 novembro 2014

Falando com Deus II


Acostumado a me relacionar com o Senhor pelos caminhos do silêncio, desfaço-me sem intenção dos necessários momentos da gratidão aberta. Aprendi de forma incontornável que o bem se paga com o bem e o mal com mais bem ainda. É evidente que obtive essa valiosa lição observando a generosidade da sua criação e os exemplos que nos chegam por meio das santas atitudes de fé e coragem de sujeitos que não titubeiam na hora de honrar vida, verdade e liberdade. Em todas essas pessoas, criaturas suas, vejo um pouco do Senhor.

Este abençoado ano das graças de 2014, para sempre inesquecível, tem-me sido de revelações e descobertas maravilhosas. Antes mesmo de iniciar o mês de janeiro, durante as festas de ano, brinquei comigo e com as pessoas à volta repetindo várias vezes que a vida só começa aos quarenta. Era, portanto, para este ser o primeiro e mais incrível ano da minha história. Havia, sim, brincadeira e até um pouco de ironia nas minhas palavras – eu andava cansado e desanimado, propenso a desistir de tudo e vagar, errante, em busca de uma nova estrada, de nascença já desconhecida e incerta.

Foi então que o Senhor decidiu transformar um jogo de palavras, um debique meio desesperado, na mais irradiante realidade, revalidando meus passos, reconhecendo minhas lutas, acarinhando meu coração.

Refletindo em retrospectiva, penso que a insistência em manter vivo no peito o meu viés poético tornou-me merecedor do seu olhar afetuoso. Lembro diariamente um velho adágio popular: “Deus é amor, sim, mas, acima de tudo, ele é justiça”. Creio piamente nesse indiscutível axioma dos povos. Foi por isso que resolvi atribuir a bem-aventurança a três dimensões complementares e integradas da poesia em minha vida: a da crítica inabalável aos “donos do mundo”, em favor dos subalternos; a do equilíbrio radical de minhas tomadas de decisão; a do sentimento de ternura incessantemente ampliado pela beleza da vida e pela capacidade revolucionária do amor.

Mesmo sob a fúria do capital e das barbáries por ele diariamente levadas a cabo, nunca jamais me dobrei. Não mudei de lado, não fui condescendente em momento algum, não me vendi. O Senhor é testemunha das lágrimas, das retiradas de cena para chorar, dos retornos cíclicos aos desertos de batalha. Como outro grande filho seu, o bom baiano Carlos, eu nunca tive tempo para ter medo. O Senhor, contudo, me amparou toda vez que cortei na própria carne para não perder a coerência e os princípios que me movem. Ao mesmo tempo, sabedor da teimosia que reina neste meu coração incuravelmente rebelde, ofertou-me sombra e alternativa de sobrevivência à minha família. Pelo tanto que me vi atravessar quase incólume pelos campos de conflito da vida, flagrei-me convencido a acreditar no Senhor de modo irresoluto, confiante em que eu estava a fazer a coisa certa. Essencialmente por isso, mantive-me em pé, apesar dos tantos golpes duros e baixos.

O Senhor nunca me negou a doce acolhida. Seja como for, eu encontro um cantinho para, taciturno, descobrir as melhores palavras a usar. Não obstante a radicalidade das opiniões que expresso – de acordo com aquele clássico sentido de ir às raízes das questões -, preocupa-me preservar o equilíbrio, não afugentar a nobre diferença daqueles que pensam de outro modo, mas, no desentendimento básico da convivência política, desejam encontrar também as saídas mais pertinentes. O Senhor, criador do claro dos dias e do escuro das noites (e plenamente consciente das múltiplas combinações de luz e treva nos labirintos da alma humana), ensinou-me o poder da serenidade, da sensatez, daquilo que o saudoso Hélio Pellegrino chamou de “lucidez embriagada”. Essa condição aberta e a um só tempo repleta de convicções me agraciou com sua onda suave de paz nas profundezas do espírito, Senhor.

É no amor, entretanto, que está tudo que retirei de vibrante e eterno das suas lições nesta vida. Não me refiro ao amor retórico, daqueles que dizem pensar nos outros e agir em proveito de si mesmos. Também não falo do amor exclusivista de indivíduos que instrumentalizam as pessoas para realizá-las como coisas e em favor de temas mesquinhos, efêmeros, falsa e ilusoriamente prazerosos. Não, nada disso. Eu reporto ao amor que me esforço por experimentar na letra do dito e do escrito, na ação que executo ao me dirigir ao mundo pela defesa intransigente da felicidade, do encontro solidário, do prolongamento da saúde do planeta. Entre qualquer coisa e qualquer ser humano, o amor se expande e se torna invencível quando opta pela segunda e única possibilidade. Tudo que nos desumaniza, provou-me o Senhor, não é nem jamais será amor. 

Por amor, decidi levar uma vida modesta e em quase todos os aspectos bastante frugal. Em vez do êxtase e da ansiedade diante das seduções intermináveis do mundo convertido em mercado, fiz-me humano num terreno áspero a sentimentos e avesso a grandes valores. Contudo, assumi o compromisso de defender e cultivar esse idealista estilo de vida. Não me arrependo. Graças a isso, eu creio, fui digno da mais elevada demonstração de amor do Senhor.

De fato, 2014 já é o início de tudo para mim. Recomecei aos quarenta para atingir a eternidade. Sabe, Senhor, acho que agora entendo o significado de viver para sempre, da importância da obra que nos conduza à lembrança de todas as gerações. A você, Senhor, entreguei meu coração para permanecer entre aqueles que elevaram sua promessa de paz e fraternidade – e desde já torno pública minha gratidão por 2014, o ano em que tive a prova da sua generosidade e da força da sentença poética que diz: “Quem tem um sonho não dança.”

Muitíssimo obrigado, Senhor!