17 novembro 2014

Histórias, no plural


Autorretrato de Caio Prado Júnior (1907-1990)

Logo no início de seu clássico “Formação do Brasil Contemporâneo”, publicado em 1942 e considerado um livro indispensável para compreender o Brasil, Caio Prado Júnior afirma que todas as sociedades possuem, na sua evolução, um sentido. O que o grande historiador marxista atesta é que, em meio aos emaranhados eventos do tempo, há uma direção – nada é tão aleatório, tão casual, tão improvisado que não precise se render, hora ou outra, ao curso da evolução da vida e do mundo.

Caio Prado Júnior era certamente um dos melhores filhos de sua época. Suas análises da formação sociocultural brasileira tiveram o mérito de apresentar uma primeira substancial tentativa de explicar o país pela ótica marxista (dentro do velho PCB, inclusive, teve sua tese de que o Brasil sempre fora uma nação inserida no processo histórico de desenvolvimento capitalista de forma periférica - mas decisiva” - rejeitada em favor do “etapismo” que julgava o nosso país, em seu período colonial, um território ainda feudal). Em plena vigência do Estado Novo (1937-45), no entanto, uma forte onda positivista se impunha sobre o pensamento de Caio Prado Júnior e outros bravos pensadores da esquerda brasileira. Na verdade, as primeiras recepções às ideias de Marx no Brasil, datadas do final do século XIX e prolongadas até fins dos anos 1950, foram uma homérica tragédia, uma sucessão quase infinita de distorções e mal-entendidos.

De minha parte, não sei se um dia acreditei que houvesse um sentido para a história. Sempre torci o nariz para verdades prontas, avessas às inerentes contradições da realidade, as quais se camuflam atrás de vanguardas e centralismos que juram pensar pelos outros e agir em nome de todos.  Há um espírito libertário indestrutível em mim.

Em vez de “História”, no singular e com “H” maiúsculo, aprendi a valorizar muito mais histórias, no plural e com “h” minúsculo, o que demonstra que, se existe unidade, ela só poderá se realizar na comunhão da diversidade das experiências humanas.

É verdade que, se desconfio do sentido geral de tudo e prefiro o múltiplo ao unitário, também não faço pouco caso do universal, de valores que partam dos muitos indivíduos e grupos sociais para compor um projeto livre de humanidade. Minha questão é de método: o sentido do mundo deverá ser erguido de baixo para cima, e não despejado de cima para baixo, como o é usualmente. Acredito que Caio Prado Júnior endossaria minha indelével convicção.