19 novembro 2014

Mimese


Na sempre encantadora e surpreendente língua portuguesa, mimese representa um discurso direto, um uso inadvertido de palavras e gestos alheios. Numa palavra, a mimese é o fenômeno pelo qual alguém quer ser outro alguém, reproduzindo vícios e virtudes.

A mimese revela ao mundo os imitadores de plantão. Na infância, transforma pais em heróis, personagens dos quadrinhos e desenhos animados em sujeitos da realidade, professores diletos em tipos-ideais de caráter e sabedoria. Quando se é criança, vive-se atrás do adulto perfeito, do vingador invencível, do ser humano inabalável. À medida que a vida passa e os anos vão preenchendo a fissura espaço-tempo, o imitador precisa tomar decisões difíceis, fazer escolhas, definir seu perfil e construir sua identidade em face de princípios e valores. As influências e os modelos permanecem, é claro, mas como algo a inspirar, não mais a imitar.

O pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940), uma das mais privilegiadas inteligências do século XX, afirmou que a mimese é uma recriação da realidade. Por meio das artes, principalmente, homens e mulheres têm a oportunidade de rejuvenescer histórias, reinventar tipos humanos e protagonistas da ficção, reelaborar inícios, fins e meios, com todos os seus dramas, suas tramas, suas infinitas complexidades.

Durante o Renascimento Cultural, numa época em que Maquiavel e Giordano Bruno tornavam o mundo um lugar bem mais digno de admiração e lutas, a mimese voltou-se para a Antiguidade Clássica, para a cultura grega e a suntuosa experiência romana. A ideia era iluminar um tempo de trevas e pouca serenidade – uma etapa da história atravessada por verdades inquestionáveis e realidades invariavelmente cruéis. É num caso desses que a mimese revela seu lado rico e criador, em busca do melhor do mundo para salvar o próprio mundo do pior...

Imitar, inspirar ou recriar, tanto faz. A mimese é um desafio ao entendimento humano. Por que imitamos? Por que sentimos tanta necessidade de espelhar ideias, aparências, ações, estilos de vida? A pista que nos deixa o gigante Walter Benjamin é muito instigante: talvez imitemos os outros para que possamos nos descobrir. Afinal, sozinhos nada somos, pouco podemos.